sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A primavera está certa

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
ATRAVESSANDO A PRAÇA, encontro a primavera. Invade a cidade, invade o Brasil. Contra tudo e contra todos ela toma conta dos territórios que lhe pertencem por direito. Em seu estandarte está escrito: vida pra todos.
 
A primavera chega com seus exércitos florais, suas cores e seu perfume, atacando o medo, a desesperança, a falta de ética, de mínimo pudor, que assolam este país tão belo (que os ladrões e corruptos reduziram a isto que aí está).

A primavera chega a favor da beleza e da continuidade da vida. A favor das pessoas de bem e de seus justos sonhos e projetos.
 
A primavera está certa.

hibisco, Praça da Encol. photo: jfinatto
  

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O Bruxo do Cosme Velho e a escravidão

Jorge Finatto

perfil de M. de Assis, 1904. Arquivo Nacional. fonte: Wikipédia


UM DOS TEXTOS mais reveladores sobre a escravidão e a sociedade brasileira de meados do século XIX é este Pai contra mãe, de Machado de Assis (1839-1908).* Trata-se de obra-prima (uma delas) do grande escritor brasileiro. Em poucas páginas, o Bruxo do Cosme Velho (bruxo pela criatividade superior, que morou no bairro Cosme Velho na parte final da vida) adentra de forma lúcida e vertical no drama da escravatura.

No breve conto, Cândido Neves, caçador de escravos fugidos, sai à caça desesperada de uma mulher cujo "proprietário" paga razoável recompensa por sua captura. Vivendo em pobreza profunda, Cândido pretende utilizar o dinheiro a fim de evitar que o filho, recém nascido, seja entregue à Roda dos Enjeitados. A mulher foragida, Arminda, uma mulata, está grávida.

Um retrato sem retoques da sociedade da época. "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais." (pág. 39), é a primeira frase. A seguir, enumera alguns destes instrumentos: ferro ao pescoço, ferro ao pé, máscara de folha de flandres, a qual "Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. (...) Era grotesca tal máscara (...) (pág. 39)

Cândido Neves, antes, não se adaptara a nenhum trabalho, "não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade" (pág. 40), até que resolve tornar-se caçador de escravos, atividade a que se dedicam párias e desocupados cruéis como ele.

"Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação." (págs. 39/40)

Não retirarei do leitor o prazer de ler o conto e testemunhar, além do conteúdo, o estilo soberbo do autor. Com sua funda ironia e desalento diante do teatro humano, Machado nos apresenta a trágica realidade sem descurar da arte no dizer.

Um narrador no domínio absoluto do ofício, um artista impecável mesmo ante matéria tão dura. Com finos dedos de artesão, vai ao núcleo das contradições de uma sociedade autofágica, estruturalmente injusta e humanamente fria. Desvirtudes que, infelizmente, chegaram aos nossos dias.

Como se não fosse com ele (o escritor era neto de escravos e vinha de uma família muito pobre), Machado consegue nos aproximar racionalmente e emocionalmente do horror da escravidão.

O holocausto que se abateu sobre nossos irmãos que vieram da África (cerca de quatro milhões, sendo que mais de 300 mil perderam a vida na travessia), deixando marcas de racismo e injustiça social que perduram até hoje. Observo que este não é o único texto de Machado denunciando esta terrível página da nossa história. No estilo machadiano, elegante, refinado, profundo, sem excessos e sem nada de panfletário.

Um conto notável escrito por um gênio da literatura. Um escritor com origens no porão da sociedade brasileira, que sobreviveu com seu talento, disciplina e força de vontade oceânicos. Um autor cujas qualidades o colocam entre os grandes da literatura mundial conforme atestam as inúmeras traduções de sua obra.

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*Missa do Galo seguido dos contos: O Espelho, A Cartomante, O Caso da Vara, Pai Contra Mãe, Capítulo dos Chapéus. Machado de Assis. L&PM Pocket, Coleção 64 páginas. Porto Alegre, 2012.

sábado, 1 de setembro de 2018

Pensión del tiempo

Jorge Finatto

Montevideo, agosto, 2018. photo: jfinatto


EL TIEMPO es una pensión. 
Que sea buena tu estada. 
Aunque no lo creas...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Era uma vez uma rua...

Jorge Finatto

Rio Guaíba. photo: jfinatto



UM DIA EU FUI EMBORA da Rua São João.
Mas a Rua São João não foi embora de mim.
Caí de cara no mundo.
Vi coisas de cortar a alma e secar o coração.
Me tornei sobrevivente num país que agoniza.
As esperanças viraram cinza, o tempo ruiu sobre mim.
Um dia eu fui embora, mas trago comigo uma ilha de sol:
Nunca me despedi do menino que eu fui na Rua São João.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

A boneca de trapo

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto *
 
ERA UMA DESSAS TARDES que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis. Talvez pela mudança das cores na natureza e pela queda das folhas. As seivas concentram forças, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
 
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
 
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho, e sorria.
 
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Carregava um leve toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei.  Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.
 
Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.
 
Viver tem dessas coisas. Nem sempre podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações.
 
Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.
 
A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence nesse mundo.
 
Tudo que temos é emprestado, a começar pela vida. Um dia teremos de devolver. Nada é verdadeiramente nosso.

Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.
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*Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul. Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Paixão de outono

Jorge Finatto

 
NINGUÉM ESTÁ IMUNE a uma paixão de outono. Supõe-se, contudo, que um cara na minha idade tenha anticorpos suficientes para evitar recaídas e armadilhas.
 
Afinal, já levou rasteiras, deu com a cara no chão, apanhou bastante. Deve ter aprendido a não brincar com fogo. O tempo arrefece emoções violentas, vive-se mais espiritualmente (digamos).
 
Não por outra razão inventaram as religiões, a literatura, a filosofia, as artes, as palavras cruzadas e os blogs. Quireras, quireras, raro leitor. Não passamos de uns pobres diabos. Veja o que me aconteceu.
 
Ontem, saí de Passo dos Ausentes às 7 da manhã em direção a Nova Petrópolis. Depois de 8 horas viajando serra abaixo na intrépida Linguilingui, contornando sinistros abismos, cheguei ao destino e fui ao café da tarde (costume ainda em voga entre serranos da antiga). Logo em seguida, me dirigi ao Recanto das Azaléias, floricultura do meu agrado. Foi aí que tudo começou.

photo: ipoméia azul. jfinatto, 14/10/2016
 
Numa curva da aléia, entre vasos e flores, encontrei-a, de repente. Ela nem sequer percebeu a minha existência. Não tirei mais os olhos dela. O coração acelerou. Por instantes esqueci quem eu era. Toda minha vã filosofia caiu por terra. Eu só tinha tenção pra ela. Indefeso, encantado, só fiz admirá-la. Pura visão.
 
Apaixonei-me, em suma. Seu nome, de remoto sabor grego: Ipoméia.
 
Todo Quixote encontra um dia sua Dulcinéia. Intrépido,vencido embora, levei-a pra casa.

Ao anoitecer, a divina donzela enclausurou-se em si mesma, recolhendo-se em seus secretos aposentos. Ao amanhecer, inaugurou o suave e delicado tecido das inefáveis flores.
 
Não podia imaginar que Deus me reservava essa beleza, que eu não mereço, em plena secura do tempo. Mas aconteceu.

Sentimento azul.
 
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Texto revisto, publicado antes em 15/10/2016. Escrito sob a boa grafia antiga, vigorante antes do (des) acordo ortográfico.  

domingo, 12 de agosto de 2018

A queda no chafariz

Jorge Finatto

Teatro Nacional São Carlos (e o chafariz) photo: Wikipédia. autor: Thomas
 
ERA UMA TARDE perfeita. Saí do hotel Dom Pedro, no bairro Amoreiras, em Lisboa, e me dirigi à Livraria Cotovia, no Chiado, para me inteirar dos lançamentos da editora homônima. O catálogo da Cotovia é excelente. Enquanto examinava as estantes, um gato preto apareceu e se pôs sobre os livros em minha frente. Na verdade uma bela gata, cujo nome, se bem me lembro, era Maravilhas. Até aí maravilha.
Conversei com Maravilhas como sempre faço com gatos. Escolhi alguns livros e parti, agora em direção ao café A Brasileira (sim, aquele freqüentado por Fernando Pessoa). Depois do pastel de nata e do café, rumei para a Livraria Bertrand, a mais antiga do mundo,na Rua Garrett, uma perdição.
Em seguida, caminhei até o Largo do Teatro Nacional São Carlos, um lugar bonito onde está o edifício no qual nasceu Fernando Pessoa. Me vali do celular (telemóvel) pra fazer algumas fotos. Havia um ruidoso grupo de italianos por ali. Até que decidi atravessar o largo e entrar no teatro.
Dei um passo em frente e mergulhei no chafariz (a água pelas bordas). Mergulhei com capote, mochila, chapéu, manta, sacola,com tudo. Vim à tona ensopado, com tocos de cigarro enfiados nos óculos, e pedaços de papel no casaco.
edifício onde nasceu Fernando Pessoa (e o chafariz). Wikipédia. autor: Lijealso
 
Fiz um grande esforço pra sair. E torci pra que ninguém viesse me ajudar, queria evitar mais constrangimento. A velha vaidade talvez. De fato, ninguém veio. Quando enfim consegui emergir, uma gargalhada geral ecoou na praça. Os malditos italianos não me pouparam... Um gaiato entre eles gritou que era tentativa de suicídio...
Fiz de conta que não era comigo. Saí andando meio de banda, meio tonto, gelado, molhadíssimo, pingando,com a mão direita pisada, sem entender o que estava acontecendo.
No fundo não havia mistério. Óculos com lentes de fundo de garrafa, visão mais ou menos (menos, menos), o pensamento caçando borboletas. Mas, afinal, quem inventou de colocar aquele chafariz ali, na minha frente? E quem teve a infeliz ideia de trazer aqueles maledettos justo naquela hora?
Livros molhados, telefone molhado, passaporte molhado, alma molhada, roupas, tudo molhado. Isso aconteceu em fevereiro passado. Restou o consolo: pelo menos fiz rir a malta indiscreta. O que não é pouco em tempos tão sombrios.
Na frente do Teatro São Carlos, dei meu ridículo espetáculo. Coisas da vida. Baixa o pano.

domingo, 5 de agosto de 2018

Histórias de vidas passadas

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
UMA NOITE DE INVERNO, em Veneza, abri o guia telefônico. Estava entocado no quarto de hotel, a acqua alta inundava a Piazza San Marco. Encontrei pessoas com o sobrenome da minha família na lista. Lembrei que um tio me disse certa vez que o pai dele,  meu avô, e seus três irmãos tinham vindo de Veneza, ainda meninos, para o Brasil.
 
Passei dias e dias andando nas fondamenta (caminhos para pedestres na beira dos canais), tirei muitas fotos, atravessei pontes, entrei em igrejas, gôndolas, museus. No fim das tardes, cansado, acabava ancorando no cais da minha solidão com um copo de vinho fresco no Café Florian..
 
Não fui atrás de remotas origens familiares. Queria conhecer os recantos pouco explorados pelos turistas, e senti que aquele lugar tinha muito a ver comigo, bicho das águas. Sempre gostei de cidades de rio ou mar. Não por outro motivo escolhi a cidade de Rio Grande como minha primeira comarca, no século passado, após tomar posse como juiz. Rio Grande, o único porto marítimo do Rio Grande do Sul por onde entravam os imigrantes. 
 
A vida me ensinou que buscas no passado nem sempre são uma boa ideia. De resto, a esta altura todos estão mortos. Não sobrou ninguém para partilhar vetustas memórias de fins do século XIX.
 
Sei que atrás de mim existem seres que atravessaram famintos o Atlântico numa viagem dolorosa à beira do abismo. Vieram da Europa e da África. Por isso às vezes sonho com gôndolas iridescentes navegando com seus fantasmas entre as estrelas.
 
Pensando nessas coisas tomei, hoje, um café, in memoriam, no Florian, enquanto a  bruma se espalhava na piazza.

photo jfinatto

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Texto inédito, escrito em dezembro, 2017.
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

In guerra per amore

Jorge Finatto

 

NA TRADIÇÃO do bom cinema italiano, Em guerra por amor, dirigido por Pierfrancesco Diliberto (Pif), é uma feliz revelação. Mistura de comédia e drama, a história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943. Arturo (interpretado pelo próprio diretor Pif) quer se casar com Flora (ambos imigrantes italianos em Nova Yorq), mas ela está prometida, contra sua vontade, a Carmelo, um mafioso.

A maneira de Arturo conseguir seu objetivo é buscar a autorização do pai de Flora. Mas ele vive num vilarejo da Sicília ocupado por nazistas e soldados de Mussolini. O único jeito que encontra é alistar-se no exército americano para ser mandado para lutar na Itália.

O filme tem passagens que levam o espectador às gargalhadas. O humor de qualidade convive com a dura história real. Na invasão do sul da Itália, os militares americanos acabam delegando poderes de administração a membros da máfia, em troca de uma facilitação da ocupação. Isto reforça a presença e a atuação da máfia naquele país.

Algumas cenas são antológicas como aquela em que Arturo é içado do navio montado em um burro e vai para o vilarejo levado por um helicóptero... O personagem Saro (interpretado por Sergio Vespertino), um cego conduzido por um amigo com dificuldades físicas, tem a missão de identificar a proximidade de ataques aéreos auscultando o céu à beira mar... Quando percebe que eles acontecerão, saem em correria e avisam a população para ir ao abrigo.

O elenco é de primeira qualidade. O enredo poderia ser melhor amarrado em alguns pontos, como no que diz respeito ao menino que perdeu o pai na guerra e vive com a mãe e o avô em situação de penúria (como toda população naquela altura). Por outro lado, há momentos de realismo, dignos dos grandes filmes italianos. Como aquele que focaliza a decepção do avô do menino com Mussolini (para ele um santo), jogando sua estátua de madeira pela janela. Ou aquelas imagens em que aparecem os corpos de soldados e civis mortos, mostrando a falta de sentido da barbárie. A trilha sonora de Santi Pulvirenti é excelente.

O diretor dedica a obra a Ettore Scola. A homenagem revela um compromisso com o melhor da cinematografia italiana e é um bom augúrio em relação ao trabalho do jovem ator e diretor. O filme merece ser visto e curtido.

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Trailer do filme no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=ydJY-01ko3o
  

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A velha casa da esquina

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

HOJE PASSEI em frente à velha casa da esquina. Fazia tempo que não a via. Fica perto do edifício onde moro, a uns cem metros da Praça Gustavo Langsch, no Bairro Bela Vista. Faz mais de vinte anos que gosto de olhar pra ela. O que acontece quando estou na cidade e caminho pelas ruas do bairro.
 
Não sei quem mora naquela casa. Mas é uma casa como as casas de antigamente, do tempo em que havia casas nas ruas, e não bunkers. Tem uma cerca baixa, um jardim, umas árvores (poucas e não muito altas), um telhado com duas águas.
 
Imagino que deve ter um sótão. Mas não tem mansarda. Talvez uma claraboia. Não sei se tem porão. E, se tiver, não sei se cheira a barril de vinho como os porões das casas da serra, onde nasci e vivi parte da infância.
 
Não sei se a velha casa da esquina tem fantasmas. Acho que deve ter, porque toda casa que se preze tem fantasmas.
 
Na minha antiga casa, eles saíam dos retratos à noite, quando todos dormiam, e conversavam longas conversas enrolados em seus capotes e mantas. Deles apenas se viam leves sombras pelos cantos (quase ninguém percebia). Às vezes iam para o telhado e lá fumavam e discutiam assuntos de fantasma. Antes do dia nascer, voltavam para os retratos.
 
A velha casa da esquina tem um cão, um boxer, alegrão e atento como todo boxer (mas nenhum malandro lhe passa despercebido) Ama as crianças, e as pessoas de bem não tem com que se preocupar com ele. Os outros...
 
A velha casa da esquina, no seu jeito claro, me traz recordações. Acho que ali ninguém morreu e todos vivem a algaravia dos lares felizes (as pessoas se alegram, às vezes até brigam, se desentendem, mas ninguém fica de mal e todos são imprescindíveis em volta da mesa).
 
Embora seus habitantes nem sonhem com isso, me sinto em casa quando passo pela velha casa da esquina.
 

sábado, 21 de julho de 2018

A lágrima

Jorge Finatto
 
obra: Totenklage, de Hermann Scherer.
Kunsthaus Museum, Zurich. photo: jfinatto
 

AS PERCAS. O irremediável na vida da pessoa. Os olhos pretos, pretos. Acesos. Os negros cabelos caíam-lhe nos ombros. No então eu habitava o calabouço. Agonia em mim costumada. As esperas.

Ela surgiu um dia no abrigo, as carinhas nossas. Vestia casaco azul-marinho, lenço branco no pescoço. Quando vi aquela iluminação, meu coração saltou saltos. Pensei no vazio de mim: o que, a estrela da minha vida, essa? Nunca esqueço.

A Encantada. Os olhos dela me encontraram. Escolheu a minha frágil escondida criatura. Havia muitos outros habitantes do calabouço aguardando amanhecer. No limbo, esperando a face do milagre. Os esquecidos.

A Encantada me pegou nos braços. O meu filho, disse. Passei a ser o amoroso. Os baldos. Meu coração cavalo cego na alegria. Quem me via, falava: esse tal, o príncipe. O escolhido. A Encantada inaugurou minha vida. A estrela. Eu príncipe.

Ela disse: menino agora é meu filho no rigor da lei e pessoa da minha alma. Tive outro menino, disse ela, olhando o esmo. Do meu sangue próprio. Perdi nos prelúdios, tinha quatro anos. As percas. As esfumações.

Cresci com esse invisível irmão. O finado. O sempre lembrado. Às vezes eu conversava com ele. A mãe era sozinha no mundo. A mãe tinha os momentos. As lonjuras.  Carregava o menino morto no regaço do coração. Caminhava no outro mundo com seus desaparecidos. A mãe tinha  segredos guardados. Ninguém entrava ali. Ai de quem.

O meu filho, dizia. A mãe fazia eu dormir no colo, na frente do fogão a lenha, até os seis anos. O príncipe. A mãe levava o filho vivo passear na praça. O mundo conhecesse o amoroso. A solitária da Rua São João e seu menino vivo. Eu tive, depois perdi.  O coração da mãe tinha umas ausências, sustos, sufocos.

Um dia estranhei aquele sono esquecido de acordar. Fui no quarto. Ela deitada. O rosto lindo inclinado. Os olhos pretos, pretos, abertos. Havia uma lágrima transparente. Eu me vi dentro daquela lágrima. A boca parecia rir um pouquinho. Tinha eu seis anos. O escolhido.

Peguei na mão da Encantada. Fiquei dois dias sentado no chão ao lado dela, esperando ela retornar. A mão muito fria. A testa que beijei, gelada. A mãe não regressou. Os silêncios. Disse no dentro do fundo do meu coração: vou junto. Aqui não fico mais. A vida não vale, acabou.

Odiei ter renascido. O escolhido. Ódio, ódios envenenados senti. Um vizinho, vizinhos, forçaram a porta, sobejaram pela casa. Os espantos. Me tiraram de lá, no forçado. Eu gritei deveras os tristes gritos. Me deixem, me deixem. O pobre, diziam, o pobre príncipe.

Nos retratos a nossa vida em família: a mãe, o sempre lembrado, eu. O príncipe partido. Sobrevivo a mim mesmo. Sou uma ausência afogado na lágrima. O frio, frios dentro em mim.
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Texto revisto, publicado em 22 de maio, 2010.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Finatto
 
photo: Isola di San Michele ao fundo. Venezia. j.finatto


A ILHA DE SAN MICHELE repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima isola.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático (Laguna de Veneza), mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

photo: canal veneziano. j.finatto
 
Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros séculos da era cristã.

Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia.

Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

photo: gôndolas. j.finatto


Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele.

Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Um dos últimos estrangeiros ilustres a conseguir sepultamento na ilha foi o poeta russo, depois cidadão americano, Joseph Brodsky (Nobel de Literatura em 1987), que por mais de vinte anos se hospedou em pequenos hotéis da cidade, quase sempre em janeiro, e que, como poucos, amou e soube falar de Veneza.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de amor, memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.

As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais. 
 
photo: esquina veneziana. j.finatto
 
As cores são fortes e belas como a música das igrejas ao entardecer. Alimentam a alma os concertos, as exposições, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela procura de beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

photo: Grande Canal. Ponte de Rialto. j.finatto

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Texto publicado  em 27 de janeiro, 2010.
 

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O caso da Enciclopédia Barsa

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
COMO A CASA da serra está cheia de livros, um dia desses fui aconselhado a me desfazer ("desapegar") daqueles que não interessam mais (livros há muito lidos, esquecidos, que não pertencem ao grupo dos "essenciais").
 
Providência, aliás, que tomei há um ano, separando cento e alguns livros para doar. Só que ainda não tive coragem, porque a cada olhar retiro os que, pensando bem, merecem ficar. E, assim, cada vez retiro alguns, diminuindo a pilha. 
 
Sabendo da minha dificuldade em "desapegar", alguém da família teve a gentileza de retirar de uma estante, e acomodar com carinho, a velha Enciclopédia Barsa. Quando, ao regressar de viagem, entrei no escritório, dei com aquele quadro (para mim) dantesco.
 
Pra quem não sabe, as enciclopédias eram o Google de antigamente. A elas se recorria para pesquisar e realizar estudos nas mais diversas áreas do saber. Eu comprei a Barsa com sacrifício, pagando em prestações. Além dos volumes, com bonita encadernação, havia os livros do ano que traziam as atualizações.

Aquela enciclopédia, há quase quarenta anos, me deu esperança de dias melhores. Acreditava, como ainda acredito, no estudo e no conhecimento como ferramentas para construir caminhos.

Como poderia me desfazer de algo com tanto significado? Resumo do caso: pedi que recolocassem a Barsa no lugar. Não estou em condições de fazer o desapego...

Numa espécie de codicilo verbal, disse que, quando fizer a passagem, podem fazer da Barsa o que quiserem. Mas, por enquanto, ela fica, assim como os demais livros que me ajudaram e ajudam a viver. Porém deixo claro: se vier um pedido de doação para escola ou outra instituição, farei com prazer.
 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

No tempo do Cine Vogue

Jorge Finatto
 
Retratos de Ingmar Bergman. fonte: site oficial*
 
 
TEVE UM TEMPO em Porto Alegre que assistir a filmes de Ingmar Bergman (1918 - 2007) era uma religião. O diretor sueco era o pastor de almas de muita gente por aqui, principalmente estudantes, intelectuais,  perdidos na vida e trânsfugas em geral.
 
Era na época da ditadura civil-militar. Eu andava pelos 19 anos em 1976. O general Geisel era o presidente de plantão com o apoio de parcela da sociedade civil brasileira e parte da imprensa. Os direitos e garantias individuais estavam fora da ordem jurídica. Ter ideias e opiniões diferentes dos que ocupavam o poder configurava crime do pensamento. Sim, muito parecido com o "1984", de George Orwell.
 
Nos regimes em que a escuridão vigora, as nuances são proibidas e qualquer sutileza é vista como inimiga. Todos são suspeitos (de alguma coisa) até prova em contrário. Era assim.

O Cinema Vogue, na Avenida Independência, era, como os demais de então, um cinema de rua. Tinha uma programação especial, considerada "cabeça". Um território de resistência em meio à repressão, assim como os bares da Esquina Maldita. 
 
A delicadeza era uma ilha deserta a mil milhas do continente.

O nórdico Ingmar Bergman não tinha nada a ver com a ditadura no Brasil. Não sabia que era o pastor daquelas almas abismadas em voos interiores e travessias espirituais.

Não sendo possível mudar a realidade, muitos buscavam outras claridades. Havia um mundo intangível a ser descoberto, onde os donos do poder e os emissários da morte não entravam.
 
Apesar da pobreza material em que eu vivia, e do escasso tempo para os assuntos do espírito, apreciava os itinerários bergmanianos através da consciência, da memória e, sobretudo, do inconsciente. A manhã seguinte aos filmes de Bergman era sempre o cru desafio da luta pela sobrevivência.

O Brasil de então era e, sinto dizê-lo, ainda é um lugar onde reina uma grande violência social baseada na exclusão e na indiferença. O acesso às coisas da arte continua um privilégio para poucos.

O país conseguiu livrar-se da ditadura, mas não logrou o mesmo com a corrupção, responsável direta pelo atraso e pelo sofrimento da maioria. A dita esquerda tomou o poder central, mas as práticas continuam as mesmas, e em algumas situações pioraram muito como evidenciam os escândalos de grossa corrupção dos últimos anos.
 
Devo dizer, também, que gostava de filmes de Teixeirinha e Mazzaropi, que assistia em outras salas tidas como menos cult, do povão. Havia um grande preconceito das classes média e alta, principalmente entre universitários, em relação a esses filmes brasileiros. Uma coisa idiota como todo preconceito.
 
Essas lembranças me vêm porque andei revendo Morangos Silvestres (1957) e Fanny e Alexander (1982), duas obras-primas do grande cineasta. Me lembrei de mim e de nós. Da vida que foi e da que poderia ter sido. Da vida que passou, tempo finito.

Olhei com esperança para a vida que é e para a que vem vindo logo ali.
 
Viver pode até ser difícil para quem leva o coração entre as mãos, sem omiti-lo nas suas ações e decisões. Mas é infinitamente melhor do que ser mais um a roubar, a dar porrada, a pisar na cabeça dos outros, a destruir a vida alheia, a não ter valores.
 
Muita gente se perdeu no caminho em sinistras direções. Eu inventei tempo para a poesia e a arte em minha vida e tentei/tento compartilhar isso. Foi e é uma maneira de não me perder e de não enlouquecer em meio a uma realidade tão absurda, desumana e violenta como a do nosso país.

Ave, sentimento.
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Site Oficial de Ingmar Bergman:
Os direitos humanos em Cuba:
Texto publicado em 12 de agosto, 2014.
 

terça-feira, 3 de julho de 2018

La última tarde de Borges en Buenos Aires

Jorge Finatto 

Alberto Casares. photo: jornal Clarín, Buenos Aires*

 
NA TARDE de segunda-feira (19, janeiro, 2015) me dediquei a visitar livrarias, que é o que tenho feito em Buenos Aires. O que esta cidade é para mim? Cafés e livrarias. E caminhadas pelo bairro Puerto Madero, olhando os barcos e o movimento das pessoas ao longo do braço do Rio da Prata que entra pela cidade.
 
Antes de sair do hotel, telefonei para a librería de Don Alberto Casares. Fui atendido ao telefone pelo próprio. Queria saber até que horas estava aberta: até as 19h30min, ele respondeu. A bordo do chapéu de palha, lá me fui na tarde quente do janeiro bonaerense.

A livraria está situada no centro da cidade, na Calle Suipacha, 521. Há ali primeiras edições de livros raros. Há ambiente de livros e cheiro de livros. Não é um supermercado onde também se vende literatura. Mas há nesse lugar, sobretudo, a figura de Don Alberto.

photos: jfinatto, 19/1/2015

Apresentei-me ao livreiro dizendo que era um antigo leitor de Jorge Luis Borges (1899-1986), um borgista. Ao que ele respondeu: fazemos parte de uma comunidade espalhada pelo mundo. Senha e contrassenha ajustadas, começamos a falar do mestre, mas não só. Alberto admira, como eu, a saga das Missões Jesuítico-Guaranis. E lamentamos que Borges não tenha escrito sobre o assunto.

Em seguida falamos a respeito do tema deste texto. Alberto Casares organizou, sem o saber, aquela que foi a última tarde de Borges em Buenos Aires, passada no seu ambiente natural: uma pequena livraria na cidade amada. O escritor viveu ali sua despedida dos amigos e da Argentina.

Ao realizar uma exposição com as primeiras edições das obras do escritor, no mês de novembro de 1985, Don Alberto convidou-o para estar presente. Conversou com Borges ao telefone em diversas ocasiões. Borges escolheu o dia 27 de novembro para o evento. Explicou que viajaria no dia seguinte para a Itália, onde passaria o Natal, e depois iria para Genebra, uma de suas pátrias, como dizia. Alberto ponderou se não seria melhor outra data. Borges disse que não, 27 estava bem. Só o escritor sabia que naquele lugar e naquele dia faria sua despedida.

photo: jfinatto

Na dia marcado, Alberto telefonou-lhe pela manhã e Borges falou que não poderia ir à livraria, estava complicado por causa da viagem a realizar-se em menos de 24h. Alberto ficou desanimado, mas desejou-lhe uma ótima ida à Europa. Restou triste e abatido.

Naquela mesma manhã, falou com um amigo, na livraria, sobre o ocorrido (notando seu ar de desalento, o amigo queria saber o que havia). Disse-lhe o companheiro para telefonar outra vez a Borges. Foi o que fez mais tarde. Do outro lado, o escritor atendeu e perguntou-lhe:

- Casares, que esperas para vir me buscar?

Eram 14h. Correu até sua casa, na Calle Maipú, e o levou para a livraria. Borges conversou e autografou livros para os presentes (não era um grupo grande), entre os quais o amigo e também escritor Adolfo Bioy Casares, que não encontrava havia muito tempo. Foram cinco horas de convívio, um encontro simples e cálido, sem discursos. Ao despedir-se, no fim da tarde, Borges disse que estava partindo para a Europa no dia seguinte. Iria para Genebra onde morreria.

- Me voy a Ginebra a morir.

Borges com Bioy Casares. Atrás, Alberto (de barba). photo de Julio Giustozzi
 
As pessoas não entenderam a manifestação do escritor. Ninguém sabia que estava muito doente. A realidade é que partiu com María Kodama no dia 28 de novembro, nunca mais voltou à Argentina e, de fato, morreu cerca de sete meses depois, em 14 de junho de 1986, em Genebra, onde foi sepultado no Cemitério de Plainpalais.

Alberto Casares ama a literatura de Borges e os livros em geral. Dirige a importante Coleção Memória Argentina, publicada por Emecé Editores. Além de parente, foi amigo muito próximo de Adolfo Bioy Casares. Nas paredes de sua livraria, habitam fotos de Borges e outros escritores. Entre elas, alguém que nos é muito caro: Miguel de Unamuno.

O Don que dedico a Alberto Casares é resultado de um breve porém rico encontro. O reconhecimento a um homem que cultiva a humildade, o humanismo e a cultura.

photo: jfinatto
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*Vídeo com entrevista de Alberto Casares para o jornalista Luis Sartori do jornal Clarín:http://www.clarin.com/sociedad/Admiro-Borges-abre-cabeza-corazon_0_905909590.html
 
Texto publicado em 21 de janeiro, 2015. Acho que vale a republicação. Com um abraço a Don Alberto.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Clariceando

Jorge Finatto
 
Clarice Lispector
 

EU VINHA TORTO de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesadelo.

Não agradam nosso paladar (paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu sofrido nos tortuosos caminhos de páginas secas, escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas de um vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos, novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para conseguir aproximar-se de Clarice.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e às beldades expostas nas capas de revista. Em Clarice encontravam-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada de Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente, humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nos corações e mentes de mulheres e homens.

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir com palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brilhando na página efêmera do sábado. Não existem mais grandes cronistas no Brasil e faz tempo.

A época luminosa em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, Caio Fernando, entre vários outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena.

O que importa é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário da biblioteca.
 
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Texto revisado, publicado antes em 31.5.2013

segunda-feira, 18 de junho de 2018

As mãos de Van Gogh

Jorge Finatto

photos: jfinatto, 2018, Kunsthaus Museum, Zürich

NO DETALHE, a força e o poder da pincelada de Van Gogh. O quadro é Le cyprès et l'arbre en fleurs ( O cipreste e a árvore em flor, imagem abaixo) da coleção do Kunsthaus Museu, em Zurique, na Suíça. A espessura do traço, sua intensidade, profundidade, largura, ondulações e cores nos dão uma ideia do esforço do artista em sua luta solitária com a tela.

Ele pintava rápido, às vezes mais de um quadro por dia, e essa produção o levava muitas vezes à exaustão física e mental. Tinha urgência em criar, em deixar um legado e um testemunho de sua passagem. Ele cuja obra contava com poucos admiradores além do irmão Theo. Ele que foi muitas vezes considerado um pária.

O reconhecimento consagrador no Salon des Indépendants, em Paris, março de 1890, no final da vida, pouco significou. O sonho havia se partido. O artista pobre, doente, sensível e temperamental se esfacelou contra o paredão da realidade. Fez da pintura sua razão de viver. A arte foi seu território de luta e sobrevivência. A criação venceu a estupidez e a indiferença. A obra de Van Gogh habita o sublime.


O Kunsthaus foi inaugurado em 1787 e merece uma visita de dois dias pelo menos. Passei lá algumas horas numa tarde e foi pouco para conhecer seu rico acervo com obras de Rodin, Paul Klee, Picasso, Monet, Cézanne, Alberto Giacometti e tantos outros clássicos. Mas o pouco que vi, vi com calma, e fotografei (sem utilizar flash, conforme regra da casa). O pessoal do museu é gentil, as instalações são ótimas e a gente sai de lá querendo voltar um dia.
 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A fábrica do esquecimento

Jorge Finatto

máquina antiga. Livraria Miragem, São Francisco de Paula

 
OLHO a velha fotografia. Estou batendo nas teclas da máquina de escrever na redação do jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, que existiu entre 1936 e 1984. O ano é 1982. Trabalho na dura lida de repórter. Eu acreditava então que teria um futuro no jornalismo, porque gostava de ler, escrever e buscar a verdade das coisas. Meu sonho era trabalhar com jornalismo cultural.
 
Vinte e alguns anos, pai de filho, pagando aluguel e tudo mais, salário baixo. A luta de sempre. Algum tempo depois, não vendo perspectiva na profissão, mudei o rumo do meu barco e fui para o Direito.

Naquele momento minha luta era sair da pobreza que me acompanhava desde sempre. Concluíra a Faculdade de Comunicação Social na PUC a duras penas. Nela conheci o ser humano admirável, professor e grande jornalista que foi Antoninho Gonzalez, que me estimulou e ajudou muito a conseguir este primeiro trabalho em jornal.
 
Novo no ofício, aprendi que a matéria com que se lida numa redação é o efêmero. Um jornal é feito para ser esquecido. Terá sorte se for lembrado por estudiosos no futuro. No entanto, quanto esforço é preciso para fazer um bom jornal!

Quantos bons profissionais, quanto talento, quanta luta, quanta renúncia são necessários para construir as páginas do esquecimento! 
 
O Brasil é o que é com a imprensa livre das últimas três décadas. Se você acha que estamos muito mal como nação (de fato estamos), imagine como seria sem a imprensa a esquadrinhar e divulgar os podres que muitos querem esconder na sombra.
 
Eu me vejo jovem e inteiro na antiga foto. Vivo. Acreditando no poder da palavra para mudar a realidade e melhorar a vida de todos. Uma bela luta. Tudo valeu a pena. Cada linha, cada parágrafo que escrevi nos breves anos de repórter.

(Como leitor, sou grato a todos os jornais e revistas lidos à procura de um novo olhar, verdade e beleza.)

domingo, 10 de junho de 2018

Breves memórias

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

CERTAS RECORDAÇÕES podem nos fazer felizes ou infelizes. As tristes é bom nem lembrar. As boas nos protegem nos dias de tempestade. Felizmente, eu tenho algumas que me salvam.
 
Por exemplo, quando Paco passava com seu caminhão lá em casa para buscar a mim e a avó. Ele nos dava carona até Porto Alegre para visitar parentes. Era um amigo da família.
 
O caminhão chegava lá pelas três, quatro da madrugada. Já estávamos prontos, com a mala, a bolsa da avó e um farnel de galinha com farofa e suco de frutas para a longa descida até a capital.
 
Viajávamos na cabine com Paco. O caminhão descia a serra muito lentamente, a estrada era  perigosa. Eu um pouco dormia, um pouco acordava no colo da avó. Tinha uns quarto, cincos anos. Quando o dia amanhecia, tudo brilhava na estrada, a mata e as altas montanhas exalavam um aroma verde, suave e bom.
 
Eram homéricas aquelas viagens com paradas para beber água em fontes naturais, comer frutas na beira da estrada e admirar abismos. Porto Alegre era uma espécie de Tróia, um lugar desconhecido com muita gente estranha e coisas esquisitas como navios e bondes.
 
Poucos dias e já queríamos regressar a Passo dos Ausentes, a nossa querida Ítaca. A viagem de volta era de trem, com os últimos vagões que então ainda rasgavam os caminhos do Rio Grande do Sul. Antes da incompreensível e desastrosa decisão dos sábios políticos brasileiros de acabar com o transporte ferroviário de cargas e passageiros no território nacional. Uma entre tantas decisões que nos levaram onde estamos.
 
As boas recordações nos salvam.
 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Pausa para o café

Jorge Finatto
 
Jean Pierre Pâtisserie et Boulangerie
 espaço externo. photos: jfinatto
 
 
NO BAIRRO BELA VISTA, meu território em Porto Alegre, há vários cafés. Bons cafés. Desses que têm doces e salgados, café de qualidade e mesas espaçosas. Gosto de freqüentá-los quando estou na cidade, especialmente em dias muitos frios como neste domingo de fim de outono.
 
Na tarde gelada, fui à banca de jornal e depois ao café Jean Pierre Pâtisserie (doces e bolos) e Boulangerie (pães), na rua Antônio Rebouças, 74, alto de uma colina do bairro.
 
Fiz o que sempre faço nestes locais: li, escrevi, provei um bom croissant, além do cappuccino.
 
É um bom lugar pra se estar, descansar, recompor ideias. E tem um jardim com verdes que aconchegam os olhos e a alma.
 
 

terça-feira, 29 de maio de 2018

Ocaso de um coração

Jorge Finatto
 
 

Nem sempre o Destino precisa de um esforço violento para abalar de um modo irremediável, brutal e brusco o frágil coração humano (...)
                                  Stefan Zweig, Ocaso de um coração, p. 7


NA INCURSÃO que fiz, dias atrás, em busca de livros de Stefan Zweig, descobri alguns na Livraria Traça, em Porto Alegre. Abordei um pouco dessa aventura no post de 02 de maio passado.
 
Entre os livros que encontrei, está Ocaso de um coração, que contém duas novelas, a primeira com este título e a outra intitulada Uma noite fantástica. Trata-se de preciosidade publicada em 1941 por Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, com tradução de Aurélio Pinheiro.
 
Quando compro um livro muito antigo, folheio-o à cata de marcas: um autógrafo, uma data, um lugar, uma frase assinalada, um comentário à margem. Neste há uma dedicatória manuscrita em caneta tinteiro azul, nos seguintes termos:
 
A minha querida noiva com muito amor e afeto.
Janeiro de 1944
(assinatura ilegível)
 
Nesta arqueologia bibliográfica, deparo-me com este gesto de ternura. Um gesto simples mas cheio de significado para quem dá e para quem recebe. Terão os noivos se casado? Em que cidade viveram? Tiveram filhos? Continuaram juntos, separaram-se? Terão sido mais felizes que infelizes?
 
Mas aqui está o livro. O que sobrou foi esta dedicatória no portal da obra de Zweig. Cálida, amorosa, que escavo 74 anos depois.
 
Só os livros são capazes de aprisionar e eternizar histórias de amor.
 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Homem e mulher ao pôr do sol

Jorge Finatto

Montreux, Lago Genebra, Suíça. photo: jfinatto
 

HOMEM E MULHER ao pôr do sol. Um quadro de inverno. Fim de tarde no Lago Genebra, em Montreux, Suíça.
 
Estão perto um do outro. Mas distantes espiritualmente. Cada um mergulhado em seus pensamentos. Olham para o intangível. Parecem querer decifrar o sentido do tempo que se esvai. Veem o sol declinar no interior das águas ao pé dos Alpes.

A despedida de mais um dia. Na solidão da própria transitoriedade, homem e mulher contemplam o mistério do tempo. Pequenos e impotentes diante de tamanha força.

São personagens de uma aquarela. Um quadro em progresso cujo fim ninguém, exceto Deus, sabe qual será.

Na aquarela, na fotografia, esse momento único, à beira do lago, poderá ser salvo do oblívio. Só na memória da imagem o instante sobreviverá.

Diante do pôr do sol, o alumbramento do casal é o mesmo sentido pela primeira mulher e primeiro homem.
 
Testemunhas silenciosas de um dia que se despede em pura beleza.
 
Para encontrar a aurora, terão de dar-se as mãos outra vez e caminhar juntos.
  

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A procura da maravilha

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
O problema é quando se espera mais da PALAVRA ESCRITA do que ela pode dar. E ela não pode dar tudo. Como em todas as coisas, há um limite. Nenhum livro substitui a vida. Falo por mim, mas acho que vale pra muitos.
 
Quantas vezes embarquei em viagens literárias com expectativas muito além, buscando fugir pra sempre do real. Sim, escapar da maldita realidade. Quantas vezes me enganei nessa procura. Não se pode viver dentro de livros. Há sempre o doloroso retorno.

Como acontece em qualquer arte, a literatura pode encantar e nos levar a algo próximo da ilha da maravilha. E é bom que assim seja. Quantas vezes me salvei viajando em páginas impressas.

Não fosse a arte, muitos enlouqueceriam. Se é verdade que nada substitui o real, por outro lado não se pode viver sem algum tipo de evasão. É necessário dosar: um pouco lá, outro cá. Pra não perder o juízo, a saúde, a capacidade de se emocionar.