domingo, 5 de março de 2023

O cardeal e Lutzenberger

 Jorge Finatto

foto: Alex Rocha, Prefeitura de Porto Alegre



Estava lendo ontem, com algum atraso, um jornal de novembro do ano passado, que tirei da pilha no escritório, quando vi a notícia da inauguração do mural em homenagem a José Lutzenberger (1926-2002), ambientalista, filósofo, cientista,engenheiro agrônomo, paisagista, um dos pioneiros na luta pelo meio ambiente e pela consciência ecológica no Rio Grande do Sul e no Brasil.

A obra foi construída na parede lateral do Instituto de Previdência do Estado, na esquina da Av. Borges de Medeiros com Av. Aureliano de Figueiredo Pinto, em Porto Alegre, sendo autor o artista visual Kelvin Koubik.  Tem 50 metros de altura por 15 de largura.

Fiquei feliz com a justa homenagem ao grande lutador da causa ambiental, seguramente aquele que mais a defendeu naqueles sombrios anos 1970 e depois até sua morte. Foi a pessoa que mais se expôs na batalha ecológica, sendo alvo de toda sorte de incompreensões por parte dos que só veem sentido no lucro fácil e imediatista, para quem a natureza nada mais é do que um atrapalho. 

Lutzenberger fez desenvolver o pensamento ambientalista de forma nunca antes vista entre nós e seu trabalho correu o Brasil e o mundo. Não por acaso recebeu, além de pedradas, várias distinções, como o Prêmio Nobel Alternativo. 

O belo painel traz o ecologista entre borboletas, bromélias e um lindo pássaro cardeal pousado sobre o indicador esquerdo. A visão do cardeal é especialmente feliz na minha memória afetiva, já que era o passarinho que eu mais gostava quando vim morar em Porto Alegre, no bairro Mont'Serrat, ainda menino. 

O Mont'Serrat, o bairro Bela Vista e arredores eram formados, em parte, por chácaras e matos nos quais havia animais e aves por onde a meninada saía em caminhadas e descobertas nos anos 1960. No lugar onde hoje fica o Shopping Iguatemi havia um tambo que abastecia com leite a vizinhança... O cardeal sumiu da paisagem urbana, assim como aquela natureza. E o velho tambo ficou só na lembrança.

Em 1973, em plena ditadura civil-militar (1964 - 1985), participei do curso de extensão Equilíbrio e Crise do Meio Ambiente, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As falas lúcidas e entusiasmadas de Lutzenberger foram fundamentais na minha iniciação ao pensamento ecológico e humanístico, na ventura dos meus16 anos.

Num país como o Brasil a disciplina de Educação Ambiental não poderia faltar em nenhuma escola e universidade, seguindo os ensinamentos do mestre. Para evitar os desastres do presente e os que estão por vir. Para o bem de todos e esperança no futuro.