terça-feira, 22 de outubro de 2019

Domingo com garça

Jorge Finatto
 
fotos: jfinatto. local: Grêmio Náutico União
 
Na TARDE de domingo, caminhando pelo bairro, encontrei uma garça no parque. Branca como nuvem, cerca de 80 cm de altura. Pisava na água que escorria da fonte. Deve ter voado 6 km  para vir do Guaíba até ali.
 
O Guaíba ainda é um viveiro de peixes e aves apesar dos despejos diários de esgoto não tratado em suas águas. Porto Alegre trata em torno de 50% de seus resíduos, o restante vai in natura para o rio. E do rio vem a água que bebemos, cozinhamos, nos banhamos... Incrível que numa época de tanta tecnologia avançada ainda não conseguimos resolver este problema.
 
Mas ali estava a garça. Com passos elegantes pra lá e pra cá. Alçava breves voos no entorno, olhava o lugar. Uma bela visão. Convenhamos que, para uma tarde qualquer de domingo, não é pouca coisa.
 
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Dar-se à luz

Jorge Finatto


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Foto de Clara Finatto

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Aprendiz de Sísifo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Tropecei nas minhas certezas
caí de cara no chão.
A coisa mais certa nessa vida
é a força da gravidade.
 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Carlos Lyra e Wanda Sá

Jorge Finatto

Foto divulgação: Carlos Lyra e Wanda Sá
 
Assisti à apresentação do compositor e cantor Carlos Lyra e da violonista e cantora Wanda Sá no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, na quarta passada (02/10). Ele com 86 anos, ela com 75. Lyra está na origem da Bossa Nova, nos anos 60, autor de clássicos como Se é tarde me perdoa, Maria ninguém, Quem quiser encontrar o amor e Coisa mais linda, entre tantos. Wanda Sá participou do movimento ao lado de grandes nomes.
 
Chamou a atenção a faixa etária da assistência, na maioria pessoas idosas. Fiquei na dúvida: será que os jovens não se interessam por Bossa Nova? Outra: existe clima para o lirismo, a suavidade e a beleza da Bossa Nova na realidade brasileira atual?
 
Pode ser que a explicação esteja, também, em parte, no preço dos ingressos, média de cento e oitenta reais a plateia (bastante salgado nesses tempos).
 
Enfim, um momento inesquecível de reencontro com a música brasileira. Ver Carlos Lyra em plena atividade, com seu talento e seu charme, é encorajador, o mesmo podendo ser dito de Wanda. Que continuem seus shows pelo país para que os jovens saibam que o Brasil já foi mais feliz a ponto de produzir músicas como as da Bossa Nova.
 

sábado, 5 de outubro de 2019

Lançamento do livro de crônicas

Jorge  Finatto
 
Cartaz de divulgação: Emily M. Borges, Ajuris.
 
No dia 28 de novembro próximo, às 19h, na Escola Superior da Magistratura, em Porto Alegre, vou lançar o livro de crônicas Navegador de barco de papel.
 
Convido todos a embarcar comigo nesta viagem. Vamos dar uma volta pelo Guaíba e pela Via Láctea a bordo do barquinho.
 
Afinal, imaginar não custa nada, e sonhar é um dever.
  

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Um dirigível pras estrelas

Jorge Finatto
 
ilustração: Maria Machiavelli


ESSA MANIA de escrever pra ninguém é mesmo coisa de doido, difícil de compreender, algo que se prestaria a estudos profundos sobre as razões que movem o ser humano.

Escrever para a nuvem, como se faz num blog, é mais ou menos como mandar uma carta para o espaço dentro de uma garrafa. Provavelmente não estaremos aqui para receber a resposta, quando e se vier.

Um arqueólogo da internet, daqui a alguns séculos (ou segundos, do jeito que as coisas andam depressa), escavará a superfície tênue da blogosfera atrás de registros feitos por antigos blogueiros em cavernas virtuais. Talvez encontre este texto.

O fato é que hoje, nestes confins, por força de um gelado outono (ou invencível melancolia), o cronista escreve para a nuvem e não consegue traçar a primeira palavra do texto de amanhã.

Não há leitores à espera destas mal-traçadas. Acho que nem haverá, além dos arqueólogos da internet. As pessoas têm mais o que fazer, vida difícil, tempo escasso, mil livros pra ler, passam bem sem leituras virtuais.

O problema, se é que existe, é do cronista nefelibata, que não encontra a primeira palavra. O tempo é de acender a lanterna em busca do caminho.

As palavras estão hibernando nos dicionários. Inspiração é só um estado de espírito, e escrever é mais do que isso.

Vivemos um tempo de secas esperanças, mas é preciso seguir em frente.

Como tarda amanhecer quando a escuridão é tamanha!

Nessa hora erma e côncava, vou mesmo é sair por aí no meu dirigível amarelo, deslizando entre nuvens, numa viagem pra fora do planeta.  Quero ir subindo, subindo, numa longa curvatura de silêncio em direção às estrelas. Carrego comigo um novo calepino (como da primeira vez).

No meu dirigível pras estrelas.
 
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Texto revisto, publicado antes em 13.4.2014.
 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Procuro um lugar

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

PROCURO UM LUGAR de silêncio para apascentar a solidão. Um lugar na montanha, bom de estar com um chapéu velho, um capote, o óculos e um livro. 
 
Um lugar pra domesticar o extravio. Longe de tudo, perto de todos.

Habitado por pássaros,  flores e um córrego.

Um lugar onde o único rumor do mundo seja o som das asas da borboleta.
 
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Texto revisto, publicado em 8.11.17.
 

domingo, 22 de setembro de 2019

A primeira primavera

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


É PRIMAVERA outra vez. Mas, como sempre acontece, é como se fosse a primeira primavera. Faz um dia sólido, adorável, céu azul, 17ºC em Porto Alegre.

A cidade está quase vazia de automóveis em função do feriado. Tornou-se respirável e humana.
 
O ar transparente, macio. Sinto uma disposição especial de sair por aí, deixando para trás as cinzas do inverno.
 
Em dias assim vale a pena viver pela eternidade. Que a boa luz ilumine todos os seres e todas as coisas. Que meu coração não esqueça este breve momento de felicidade.
 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Refúgio

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Tudo tão frágil na vida
o mundo inteiro cabe num abraço

 
Medos povoam a insônia
a chuva lá fora é a infância
com seus tesouros submersos
no navio sem leme nem capitão
do tempo

 
Melhor me refugiar no teu corpo
fingir que tudo está tranquilo
arranjado e bom
como no útero

 
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 Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Navegador de barco de papel

Jorge Finatto
 
capa do livro

 Por razões de produção, o lançamento não ocorrerá mais em 24 de outubro, ficou para novembro em data a ser confirmada na semana que vem. Aguardemos. 03/10/2019
 
No dia 24 de outubro próximo, às 19h, na Escola Superior da Magistratura, em Porto Alegre, vou lançar o livro de crônicas Navegador de barco de papel. Convido amigos e visitantes do blog a embarcar comigo na nave. Vamos dar uma volta pelo Guaíba e pela Via Láctea a bordo do barquinho. Afinal, imaginar não custa nada, e sonhar é um dever.
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Um respiro

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
Eu quero falar das azaleias que florescem pelas ruas da cidade preparando a primavera que não tarda. Um respiro num momento difícil.
 
Para quem como eu deplora a vulgaridade, a grossura e a visão autoritária, este é um tempo mau. Vivi o suficiente para saber que não existem salvadores da pátria. Que, por pior que seja, a democracia ainda é o menos ruim dos regimes políticos. E que misturar política com religião não é bom sinal.
 
A tentativa de impor os próprios valores sobre os demais deve ser vista com preocupação. Tenho receio dos que se arvoram em donos da verdade verdadeira. Dos que falam sem parar, não escutam e não dialogam com quem pensa diferente. Esse comportamento desconhece a alteridade. Percebo o país à beira de um possível retrocesso, que esperamos não aconteça.
 
Mas as azaleias estão aí. Mostrando que há vida acima das vãs e perigosas vaidades do poder. Que a nossa esperança não se intimide diante da intolerância e da estupidez. A primavera vencerá a treva.
 

sábado, 7 de setembro de 2019

Tudo Azul

Jorge Finatto
 
Revista Azul.
 

Na REVISTA AZUL do mês de setembro, da Azul Linhas Aéreas, foi publicada uma foto que fiz da Catedral de Montevideo em julho passado.
 
O voo da Azul entre Porto Alegre e a capital do Uruguai é muito bom. As aeronaves são novas. O atendimento a bordo e nos aeroportos é educado e eficiente. Percebe-se o preparo e o empenho dos tripulantes em seu mister. Equipamento e serviço nas alturas.
 
No voo de retorno a Porto Alegre, pela primeira vez viajei com uma mulher no comando do avião. E foi um voo exemplar. Li que a Azul é a empresa com maior número de mulheres pilotos. Tudo azul, enfim.
 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O cantor da primavera

Jorge Finatto

Sabiá-laranjeira. photo: Dario Sanches. Wikipédia

UMA ALEGRIA era tudo o que eu queria por esses dias. O mundo em geral, e o Brasil em particular, andam muito tristes. Pois ela enfim chegou. Os sabiás voltaram a habitar a minha rua.
 
É uma alegria humilde, numa pequena rua. Mas enche o coração. Os sabiás voltaram a cantar, coisa que não acontecia há muito tempo. No meio de tanto barulho, gritos, discussões no trânsito, nos ambientes de trabalho, nos apartamentos, ouvir o sabiá é um pouco acercar-se do nirvana.
 
O sabiá é o cantor da primavera. Eu andava saudoso da bela música desse querido artista. A minha rua - singela ruazinha - sabe bem acolher os pássaros em suas árvores e vãos de telhado.
 
O ar está irrespirável no planeta. Pela queima de combustíveis e das florestas. Pelos profundos conflitos. Ninguém se entende e há poderosos fazendo o possível para confundir e piorar as coisas. O contingente humano em estado de sofrimento e precariedade é inumerável.
 
Ouvir o sabiá, nesta antiutopia, alivia a alma. Sinto uma felicidade que nem sei explicar. Uma dádiva. A vida perto do amanhecer.
 

sábado, 31 de agosto de 2019

"Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos"

Jorge Finatto
 
araucária. Canela. photo jfinatto
 

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos. Tão lindo esse verso de Vinicius de Moraes.* O grande poeta brasileiro de quem, na adolescência, eu sabia quase todas as letras de música de cor, tanto me fascinavam sua lira e seu balanço. Isso sem falar dos poemas publicados em livros.
 
Não guardo os velhos sapatos de meu pai, nem dos avôs.  Se os tivesse, carregariam terras da Itália nas solas gastas, e muito espanto, muitas perdas, muita angústia entre mundos tão diferentes. E muita gratidão pela vita nuova no sul do Brasil ao lado de outros expatriados como eles, inclusive aquele um trisavô (ou trisavó) cujos pais vieram como escravos da África. 
 
Mas eis que hoje é sábado, último dia de agosto. Faz frio e chove em Canela. Estou no escritório folheando livros nas estantes. A neblina estende suas sedas brancas além das janelas.
 
No quintal a araucária vertical. Aqui na montanha se vê longe. Não fiquei com os velhos sapatos ancestrais, e gostaria. Mas trago tudo dentro de mim misturado. E sou como o pinheiro. Tenho espinhos, mas dou frutos.
 
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*Jardim Noturno. Poemas Inéditos. Vinicius de Moraes. Poema "Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos", p. 30. Companhia das Letras, 1993. São Paulo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Livro do papagaio pensador. Capítulo I. Das perplexidades

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
I. UM HOMEM que não controla a própria língua pode governar um reino?
 
II. SER HONESTO, aberto ao diálogo e ter capacidade de autocrítica, hoje, no Brasil, é ser revolucionário.
 

domingo, 25 de agosto de 2019

O guardião da cidade-fantasma

Jorge Finatto
 
Shigeru Nakayama. photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Nos últimos dias, as queimadas na Floresta Amazônica chamaram a atenção do mundo, provocando protestos no Brasil e em muitos países. A pressão de líderes internacionais, somada às muitas manifestações, forçou o governo brasileiro a rever sua posição de inércia diante do aumento da devastação da Amazônia. Algumas medidas foram agora adotadas, mas falta muito ainda para se alcançar um nível razoável de efetividade no combate às ações ilegais que destroem a floresta, atentando contra os povos que lá vivem. Reproduzo a história do japonês Shigeru Nakayama, exemplo de amor àquela região, que serve de inspiração a todos nós.  
 
 
AIRÃO VELHO é uma cidade em ruínas, nas margens do rio Negro, perdida na floresta amazônica. Nasceu em 1694 como Santo Elias do Jaú, primeira povoação daquela região ribeirinha, no atual Estado do Amazonas. Algumas décadas depois da fundação, os portugueses mudaram-lhe o nome para Airão Velho.
 
Cidades e vilas fantasmas não são propriamente raridades no Brasil. Não é por essa razão que Airão Velho virou notícia na Folha de São Paulo por esses dias*. Após o auge, durante o período do ciclo da borracha (final do século XIX, inícios do XX), foi gradativamente se esvaziando.

Na década de 1960, os últimos moradores partiram por falta de opção econômica e se estabeleceram a 100 km do local, na hoje Novo Airão, distante 120 km de Manaus.

O que restou da antiga cidade é cuidado pelo imigrante japonês Shigeru Nakayama, 65 anos, que vive ali sozinho num casebre há 13 anos.
 
Ele sobrevive da pesca e de uma horta que cultiva nas cercanias do rio Negro, sem nenhuma ajuda do Estado no trabalho de conservação. As ruínas e objetos que fizeram parte da vida da comunidade são poucos e Shigeru assumiu a missão de dar-lhes guarida, antes que desapareçam:
 
- Não quero abandonar isso aqui, tenho paixão por esse lugar, disse ele ao enviado especial da Folha, jornalista Lucas Reis.
 
A história do guardião remonta ao ano de 1964, quando desembarcou no Brasil, aos 16 anos, em Belém do Pará, com os pais e mais três irmãos. Vinham de Fukuoaka, no Japão. Um dia foi convidado por uma integrante da família Bezerra (importante em Airão Velho), ex-moradora, para cuidar das ruínas. Ele aceitou a tarefa e começou a recolher os remanescentes históricos, formando um pequeno museu em sua casa. Na época de finados, limpa o cemitério. A patroa morreu em 2012, mas ele continua firme, cuidando e preservando o lugar.
 
photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Segundo Shigeru, o local é conhecido internacionalmente e recebe turistas, principalmente estrangeiros, além de pesquisadores. "Não restou quase nada, mas tem muita história", afirmou a Lucas.
 
Conforme a reportagem, sobraram poucas coisas: uma casa de comércio, uma residência, o cemitério, uma escola, restos da igreja construída em 1702.

O pedido de tombamento está sendo examinado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tomara que a resposta não tarde e seja positiva.
 
A matéria da Folha, revelando o zelo do japonês em plena Floresta Amazônica, traz a idéia de que o mundo é quintal de todos, independente da nacionalidade e do lugar onde a pessoa resolve viver. Shigeru cuida daquele torrão brasileiro como se tivesse nascido lá. É uma relação de amor com a terra, com a memória dos que lá viveram, com a história da velha e extinta cidade.
 
Aquilo que para muitos seria motivo de insuportável solidão, para o imigrante é razão de realização e orgulho. Sua razão de viver. Tornou-se um filho da terra.
 
Esta história demonstra que o que vincula um indivíduo a um lugar é o sentimento e o compromisso que tem em relação a ele.

A ideia de pertencimento é coisa de coração e mente, não de papéis oficiais. São atitudes como a de Shigeru Nakayama que fazem a diferença entre a conservação e a destruição da Amazônia (e do próprio planeta).
 
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Folha de São Paulo, edição digital de 29/12/2013. Reportagem do enviado especial Lucas Reis com fotos de Bruno Kelly (Folhapress):
Texto  revisto, publicado em 02 de janeiro, 2014.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Aviso aos navegantes

Jorge Finatto
 
barquinhos de papel: Clara Finatto
 
 
Por razões de produção, o lançamento não ocorrerá mais em 24 de outubro, ficou para 28 de novembro, às 19h, na Escola Superior da Magistratura. 

LANÇAMENTO do meu livro Navegador de barco de papel, crônicas, dia 24 de outubro próximo, na Escola Superior da Magistratura, em Porto Alegre. Resolvi publicar algo novo depois de doze anos sem dar o ar da graça em livro. Como diz aquela canção antiga, há sempre uma ilusão...Vamos navegar!
 
 
 
 
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Peixes, garças e biguás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Estive nas cercanias do ARROIO DILÚVIO perto do Guaíba. Conversando com gente que anda por ali, fiquei sabendo que ainda existem peixes em suas águas. Águas que atravessam uma parte da cidade carregando muita poluição, esgotos, móveis velhos, animais mortos, tudo que se possa imaginar. O Dilúvio nasce numa vertente limpa de mata para os lados de Viamão e  desemboca no Guaíba. Há atualmente um trabalho no sentido de recolher esses detritos antes que cheguem ao rio.
 
Quando vim morar em Porto Alegre, aos sete anos, a orla do Guaíba tinha muitas praias que com o tempo foram extintas devido à poluição. A minha era ali na altura da Usina do Gasômetro, hoje Parque Harmonia. Aquela região foi recuperada em belo projeto do arquiteto paranaense Jaime Lerner. Mas as águas continuam poluídas.
 
O Guaíba é mais que um cartão-postal em minha/nossas vidas. É um ser vivente que nos alimenta e encanta com sua formosa visão até a Lagoa dos Patos. Há que tratar os esgotos, os resíduos, educar a população, estimular amor e cuidado.
 
O Dilúvio haverá de ser saneado um dia. Será amado como precisa e merece um ser vivo. Durante meu deslocamento por suas margens, vi um bando de biguás numa árvore. Vi também garças e gaivotas. Eles são a prova de que existem peixes no riacho, seu alimento. Existe vida. Ainda é tempo.
 

sábado, 10 de agosto de 2019

Maria Eulália e a rosa vermelha

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ULTIMAMENTE aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
____________
 
¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.
²Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
Texto publicado em 31 de maio, 2014.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Quatro conversas com Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
                         &                    &                    &
                   
Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

sábado, 3 de agosto de 2019

Horacio Quiroga num dia frio

Jorge Finatto
 
photo: Horacio Quiroga. Wikipédia.
 
Um velho rádio de válvulas que funciona como se fosse ontem. Um pouco do noticiário, desligo. É muita realidade demais. Um dia frio, muito frio, nesses inícios de agosto. Com a bênção de um fogão a lenha. Depois, no toca-discos, a Suíte Popular Brasileira, de Heitor Villa-Lobos. 
 
Lendo o Diário* do jovem Horacio Quiroga (1878-1937), a viagem de Montevideo à Europa, de navio, 24 dias entre céu, mar e saudade. Os dias passados em Paris, assim assim. O olhar do escritor em formação:
 
Abril, 30, 1900. 2.30 p.m. En Notre Dame. La misma impresión general que el Pantheon, La Madaleine, y de todos los monumentos de París, muy pobre, debido al color oscuro, sucio y manchado de todas las paredes. El interior, gótico puro (...) Estoy en la cúspide de Notre Dame, después de subir 345 escalones en caracol. Lo primero que me ha llamado la atención han sido los canalones para el agua - en forma de pescuezo de bicho raro,  rectos e avanzando a la calle (...)
 
A falta de dinheiro torna sem graça os dias vividos em Paris:
 
Sábado, 09, junio. 9 p.m. Un poeta griego de la decadencia dijo: 'La patria está donde se vive bien.' Es un gran pensamiento. Por qué he de decir yo que no hay como París, si no me divierto? (...) estoy en lo verdadero diciendo que Montevideo es mejor que París, porque allí lo paso bien; que el Salto es mejor que París, porque allí me divierto más.
 
A literatura é feita por gente de carne e osso, que sente frio, cansaço, alegria, dor de dente, fome. Às vezes tudo junto. Os livros são depoimentos de passagens pelo mundo. Embora às vezes não pareçam. Eu desconfio de autores que não esbarram nessa coisa difícil, faminta, suja, flébil, encantadora.

A morte é só um suspiro. Uma lágrima que seca. Impostergável ausência. Depois passa.

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* Diario de París. Horacio Quiroga. pp. 58/91. Faro Ediciones. Montevideo, 2018.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O rinoceronte branco

Jorge Finatto
 
Crédito será dado tão logo identificado o autor. fonte: internet.
 

1. ESCREVER é o oficio mais solitário do mundo. Escritores são seres isolados. Vivem longe dos homens. Como solitários viajantes do universo que nunca mais voltarão à Terra, precisam escrever para não esquecer.
 
2. Tive uma namorada na adolescência que reclamava porque eu não fazia sexo com ela. Dizia que eu era paternalista. Mas eu achava  tão bom ficar só conversando e olhando pra ela que nem precisava sexo. Era talvez um modo diferente de transar. Mas ela não entendeu assim. Não demorou muito, terminou comigo, claro. E eu fiquei sem aquele sexo gostoso.
 
3. Observei e fotografei muitos seres e lugares. Posso dizer que a coisa mais linda que vi nessa vida foi o rinoceronte branco.

E a mais impressionante: o silêncio de Deus.
 
4. Já morri e ressuscitei várias vezes. Espero continuar assim: morrendo às vezes; ressuscitando sempre.
 
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O rinoceronte branco está quase extinto por caça humana.
 

domingo, 28 de julho de 2019

Iniciação à obra de José Gurvich

Jorge Finatto
Texto e photos
 
Reprodução do ateliê de José Gurvich. Museu J. Gurvich. Montevideo.
photo: jfinatto
 
O Museu Gurvich, em Montevideo, é um belo espaço na Peatonal Sarandí. Ocupando um antigo edifício restaurado, apresenta a obra de José Gurvich (1927-1974), o notável artista uruguaio de origem judaica. Nascido na Lituânia,  aos cinco anos foi com a família para o Uruguai, fugindo da vida difícil e da perseguição aos judeus. Na nova pátria a família humilde busca adaptação, o que não demora a acontecer. Na escola primária, o nome original do menino - Zusmanas  Gurvicius - é alterado para José Gurvich. Ele começa a desenhar muito cedo.
 
Em 1942 ingressa na Escola Nacional de Belas Artes e, em 1944, passa a frequentar o ateliê do pintor e mestre Joaquín Torres-García, que o influencia e inspira. Participa de várias exposições coletivas do grupo do ateliê, no qual depois leciona. Entre 1954 e 1956 viaja para a Europa e Israel. Visita museus, estuda e pinta. Primeira exposição na Europa, em Roma, na Galeria San Marco.
 
Em Israel vive e trabalha como pastor no Kibutz Ramot Menashé, dedicando-se também à sua obra plástica. Expõe na Galeria Katz em Tel Aviv. Casa-se em 1960 com Julia Añorga ("Totó"), nascendo da união, em 1963, o único filho, Martín José. Em 1967 expõe em Montevideo, ganhando reconhecimento como importante artista nacional. Radica-se em Nova York em 1970 e desenvolve intensa atividade. Morre aos 47 anos, de ataque cardíaco, em 1974.
 
Vale a pena embarcar num avião no Brasil e ir a Montevideo só para conhecer o Museu Gurvich. Estive lá por ocasião da inauguração em novembro de 2015. Daquela vez, com o ambiente movimentado e ainda se ajeitando, não tive uma idéia clara do trabalho. Agora, em visita mais tranqüila e demorada, conheci melhor.

José Gurvich é um criador de mundos como todo grande artista. Alguém que surpreende com sua capacidade de invenção e de compor narrativas pictóricas e esculturais. Sua obra tem grande poder de comunicação. Emoção e técnica andam de mãos dadas. Ele alcançou um requinte e uma simplicidade que são fruto de muito estudo e trabalho.

Duas séries, entre outras, servem para ilustrar o tamanho deste artista: a das narrativas bíblicas e experiência judaica, incluindo os terríveis pogrom (expulsão dos judeus de seus lares e países na Europa). E as pinturas que produziu enquanto viveu no bairro Cerro, em Montevideo, retratando seus personagens, suas vidas simples e sua afetividade.
 
Não sou crítico de arte, digo o que sinto diante do que vejo. E José Gurvich me emociona. Tem originalidade e vigor. Fiz algumas fotos dos quadros e esculturas. Um dia para visitar o museu é pouco. Pretendo retornar e rever o universo do artista.

Ganharíamos muito se uma exposição de Gurvich viesse ao Brasil.
 
photo com reflexo.
 
 
O abraço. Cerâmica, c. 1960.
 
detalhe do quadro Pogrom, 1969.
 
Pareja (casal). Óleo sobre gesso e madeira. 1965

A anunciação de Sara. têmpera sobre papel. 1969.

Museo Gurvich.
 

sábado, 27 de julho de 2019

Um futuro talvez

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
O QUE EU penso da situação do Brasil? Considero uma das piores que já testemunhei. Não vejo trabalho suficiente neste governo nem projetos capazes de construir um país mais justo e humano. Não há sequer uma retórica razoável por parte de quem dirige a nação. Fala-se muito, e mal, o tempo todo. E pensa-se pouco.

O governo da hora, além de não traçar um caminho claro para tirar o país do abismo, mostra-se incapaz de acender a esperança da população. Sinto-me profundamente frustrado com o rumo das coisas. Como milhões de brasileiros desempregados, desalentados e deprimidos, que esperavam algo melhor. 
 
Não me coloco entre os que defendem o atual governo (como poderia?) nem entre os que o atacam ferozmente como se fosse a quintessência do mal. Por quê? Porque ele é a óbvia conseqüência de desgovernos anteriores. Os últimos governos prepararam o terreno para a terrível realidade econômica e social que vemos hoje.

A discussão sectária que se trava não faz nenhum sentido. Não existem angelitos nem de um lado nem de outro. Enquanto uns e outros se digladiam, o Brasil afunda e o povo sofre. Precisamos avançar.
 
Impressionante a força do obscurantismo entre nós. Mas eu acredito no poder dos bons exemplos e dos bons gestos. Nos indivíduos pensantes, sensíveis e solidários que são agentes de transformações humanizadoras à margem da política tradicional. Juntos podem alguma coisa. Talvez com eles seja possível um futuro. 
 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Dançarino cubano em tarde lilás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
BAILARINO CUBANO desliza passos voláteis na Peatonal Sarandi ao som de rumbas, merengues e salsas. O pequeno aparelho de cd encostado na parede, o cesto colocado em frente para recolher as doações dos passantes. A tarde é fria, o céu é lilás (nunca vi um céu assim antes).
 
O dançarino tem uma graça natural e parece não tocar o chão com seus pés mágicos. O corpo leve evolui em trejeitos e meneios encantadores. A ginga e a alegria dos movimentos mostram que é possível levitar acima da dureza da vida e da tristeza.
 
É bom caminhar sem rumo por essas ruas de inverno cobertas de plátanos em Montevideo. Esta cidade onde a vida dança e acontece longe dos shoppings.

Ciudad Vieja. foto: jfinatto
  

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Calles de Montevideo

Jorge Finatto
Texto e fotos

Mirada de Eduardo Galeano. Peatonal Sarandi. photo: jfinatto
 
Estávamos no tradicional Café Facal, na Av. 18 de Julho, tarde de domingo. Quando nos levantamos para ir embora, uma senhora entrada em anos (como se dizia antigamente) disse:
 
- Que pasen bien en Uruguay!
 
O bem que faz ouvir um augúrio assim de uma pessoa estranha, mas que podia ser nossa mãe! A fraternidade dessas palavras sensibiliza o coração do estrangeiro.
 
Os idosos andam em toda parte, de dia e à noite. São respeitados e acolhidos. É comum vê-los sozinhos ou acompanhados, na rua, nos ônibus, cafés, etc. Não têm medo.
 
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Li que o Uruguai está com um problema: a baixa natalidade. A população de pessoas velhas é grande. Daí a preocupação de um psiquiatra do Ministério da Saúde local com relação à legalização da maconha. Entende que devia ser proibido o consumo da droga para adolescentes, legalizando só a partir dos 21 anos pelo menos, e não 18 como prevê a lei. Segundo diz, a maconha influi negativamente no aprendizado, dificultando a apreensão de conteúdos. Por isso, sendo a juventude um capital humano escasso por aqui, corre-se o risco de prejudicá-lo, e ao futuro do país, com o uso da droga.
 
Lembrou, também, que a legalização é só para uruguaios e não se aplica aos chamados turistas canábicos.
 
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Cinemateca de Montevideo
 

En algún lugar de Montevideo...


Sigmund dá boas-vindas


Pocitos


Fuente de los amores...


Esse tronco de plátano foi desenhado por Van Gogh...
 

domingo, 21 de julho de 2019

Charla de Montevideo

Jorge Finatto
 
grafite. Montevideo. o nome do autor será registrado tão logo informado ao blog.
photo: jfinatto


MONTEVIDEO, a cidade do Conde de Lautréamont, do doce de leite, do churrasco, do indefectível mate, de Juan Carlos Onetti, Juan José Morosoli, Galeano e Benedetti, do Teatro Solís, do vinho Tannat, de Nacional e Peñarol, de Torres García. Da Rádio Babel, do Café Brasilero, da gentileza no trato cotidiano, de todas as crianças na escola.
 
Mas é, sobretudo para nós brasileiros, a cidade onde se pode caminhar pelas ruas sem o risco iminente do balaço na cabeça, da facada, do seqüestro, do assalto,  do atropelamento, do estupro. Enfim, um outro planeta pra quem vive no Brasil.

Ostentação, luxo? Nada. As pessoas vivem com a dignidade de quem tem o indispensável. O treinador da seleção nacional de futebol, Óscar Tabárez, 72 anos, é professor de escola pública. Ouvi-lo falar nas entrevistas é uma aula de educação e civilidade. Para ele, antes de ser jogador é preciso ser um bom ser humano. Só convoca atletas que tenham valores éticos. Tão diferente de outros treinadores... Por aí também se explica um país.

Um país como o Uruguai que tem qualidade de vida e cujo governo se preocupa com as pessoas. Não é um paraíso. Mas é um lugar muito mais humano do que outros bem perto daqui, e de longe também. O Uruguai é exceção num mundo profundamente conturbado. Não apenas por coisas como a legalização do aborto e do consumo (regulamentado) de maconha, mas pela implementação de direitos sociais. Conversando com gente na rua e nos táxis, sabe-se que o direito à saúde é uma realidade.

Alguém dirá que o fato de ter uma população pequena (3,5 milhões de habitantes, sendo 1,5 milhão em Montevideo) torna o bem-estar social uma obrigação fácil para o governo. Não é assim. Só a continuidade de gestões sérias e comprometidas com avanços alcança tais resultados. É bom ver isso de perto, confirmando a impressão que tive em outras viagens. A constatação de que um estado social e democrático é possível na América do Sul. O Uruguai é exemplo.

obra do grande artista plástico Torres García. Museu Torres García. Montevideo.
photo: j.finatto
  

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Os últimos mistérios do mundo II

Filipe Penaverde

photo: jorge finatto

 
Reescrituras

Se Jorge Luis Borges reescrevia seus textos (quase sempre o fazia), por que um pobre bardo de arrabalde, em que se misturam Dante e Cabrelino da Montanha, não poderia/deveria fazê-lo para o bem de seus valorosos leitores?

Extremos 

Se há, como dizem, um renascimento da extrema direita, aqui e alhures, é porque a extrema esquerda revelou-se, no poder, inoperante e obsequiosa com a corrupção. Não existem santos nessas igrejas. Só fiéis esperando uma salvação que nunca vem.

Como se muda o mundo, sem mudar antes o coração e as próprias atitudes?

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Um alquimista João

Jorge Finatto
 
João Gilberto. photo: Tuca Vieira, São Paulo 2006.
Wikipédia.
 
 
JOÃO GILBERTO foi um artista raro. A afirmação é clichê, mas um clichê incontornável. Uma notável exceção no mundo da música. Não só pelo talento como pelo comportamento discreto, avesso a badalações, holofotes, polêmicas. Recluso, concentrado no trabalho,  guardava com esmero sua vida privada, fugindo da celebridade.
 
Um criador que deu nova dimensão à música. Com ele o samba ganhou uma graça diferente, com doses inusitadas de silêncio. Saboreava cada palavra, cada acorde. Nada de gritaria. Um dos criadores da Bossa Nova, a música brasileira que o mundo mais conhece.
 
O canto suave, quase um sussurro. O toque personalíssimo ao violão. Tratava o instrumento com a dignidade de um concertista. Com João o violão brasileiro ganha uma nova sensibilidade, conquista outras esferas, à semelhança do que acontece com Villa-Lobos. Cada qual no seu jeito e no seu quadrado.
 
Causava estranhamento ver aquele homem sério, um senhor de terno e gravata, executando peças de música popular, soberbo maestro de si mesmo.
 
Não tolerava gente barulhenta e pouco educada na plateia. Passava pitos quando o ambiente não estava à altura de sua arte. Reclamava do som ruim, do ar-condicionado que desafina instrumentos. Temperamento difícil, obsessivo, nisso parecido com outros gênios.
 
Quando tocava e cantava, João era inventor de harmonias, desbravador de caminhos sonoros, de mundos. Um alquimista no universo da música. O mais rude metal se transforma em finíssimo ouro em sua voz, em suas mãos. 
 
Com os filhos adolescentes Clara e Lorenzo, fui assisti-lo no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, no ano 2001. Generoso, prolongou o show muito além do previsto, atendeu pedidos, conversou. Sentiu cheiro de fumaça de cigarro que vinha da parte anterior do palco, indignou-se. O fumante, que permaneceu invisível, tratou de apagar o cigarro e, com o ar limpo, João continuou.
 
Ele lembrou do Guaíba, do pôr do sol de Porto Alegre, da professora Boneca Regina que o tratou como um filhou nas várias vezes em que esteve em sua casa durante os encontros de arte que ela promovia com sua família e amigos. Era 1955, ele contava 24 anos e estava passando uma temporada em Porto Alegre. Morou oito meses no Hotel Majestic, na Rua da Praia, o mesmo onde viveu Mario Quintana, que ele admirava. O antigo hotel é hoje a Casa de Cultura Mario Quintana. 
 
João Gilberto construiu uma obra original, alcançando efeitos incríveis com mínimos recursos. Tal despojamento e excelência só os grandes conseguem. A aparente simplicidade de sua voz e seu violão esconde uma oficina incansável, rigorosa, persistente, como poucas vezes se viu.
 
Morreu João faz poucos dias, em 6 de julho, aos 88 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Retirou-se do palco da vida. A luz do astro apagou-se. Mas há muito ele já era eterno em nossos corações. 

 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os fundamentalistas

Jorge Finatto

Panos quentes no frio zero grau de Canela.
photo: jfinatto
 
 
TENHO MEDO de quem nunca duvida das próprias certezas. A rigidez de pensamento tem motivado a grande desolação em que vivemos. Questionar-se sobre o modo de ser e de fazer as coisas, repensar a vida, olhar o outro, é exercício de civilidade cada vez mais raro.

O fundamentalismo, seja laico, religioso ou político, não torna as pessoas mais felizes e nem melhores. Pelo contrário, espalha sofrimento, conflito, morte. O fundamentalista é dono de verdades absolutas, irrenunciáveis. Ele e o grupo a que pertence, incapazes de autocrítica, são pérolas que pairam impolutas sobre os pobres mortais.

No Brasil de hoje, à esquerda e à direita, a irracionalidade tomou conta.
 
Pôr-se no lugar das outras pessoas, ponderar suas razões e sentimentos, está fora de cogitação para o sectário. O que ele quer - ser iluminado que é - é mandar na vida alheia e no país, mostrar o caminho único da ventura e prosperidade.

O fundamentalismo passa longe da tolerância, essa atitude que, sendo menos que o respeito, é, todavia, um primeiro passo na aceitação do diferente.

Prefiro viver numa sociedade com muitas faces do que num hospício, que é para onde nos conduzem a inflexibilidade, o fanatismo, a força bruta, o aniquilamento da alteridade.

A ética da aproximação, como princípio fundamental da existência, é, ainda, a possível ponte para uma convivência razoavelmente civilizada e fraterna.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A travessia do cotidiano

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
A travessia do COTIDIANO é Odisséia.  As histórias das pessoas comuns, os verdadeiros heróis, quem as contará? Nenhum Homero jamais se debruçará sobre as pequenas memórias que constituem a existência do povo.
 
E, no entanto, não há tesouro mais bonito. São as histórias reais, mais belas e incríveis que as maiores ficções.
 
Cada um é Ulisses e Homero da própria trama. Uma pequena história numa constelação de narrativas.
 
O que resta, no fim de tudo, são histórias humanas sem fim que o vento carrega para as bibliotecas azuis das estrelas.