sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Peixes, garças e biguás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Estive nas cercanias do ARROIO DILÚVIO perto do Guaíba. Conversando com gente que anda por ali, fiquei sabendo que ainda existem peixes em suas águas. Águas que atravessam uma parte da cidade carregando muita poluição, esgotos, móveis velhos, animais mortos, tudo que se possa imaginar. O Dilúvio nasce numa vertente limpa de mata para os lados de Viamão e  desemboca no Guaíba. Há atualmente um trabalho no sentido de recolher esses detritos antes que cheguem ao rio.
 
Quando vim morar em Porto Alegre, aos sete anos, a orla do Guaíba tinha muitas praias que com o tempo foram extintas devido à poluição. A minha era ali na altura da Usina do Gasômetro, hoje Parque Harmonia. Aquela região foi recuperada em belo projeto do arquiteto paranaense Jaime Lerner. Mas as águas continuam poluídas.
 
O Guaíba é mais que um cartão-postal em minha/nossas vidas. É um ser vivente que nos alimenta e encanta com sua formosa visão até a Lagoa dos Patos. Há que tratar os esgotos, os resíduos, educar a população, estimular amor e cuidado.
 
O Dilúvio haverá de ser saneado um dia. Será amado como precisa e merece um ser vivo. Durante meu deslocamento por suas margens, vi um bando de biguás numa árvore. Vi também garças e gaivotas. Eles são a prova de que existem peixes no riacho, seu alimento. Existe vida. Ainda é tempo.
 

sábado, 10 de agosto de 2019

Maria Eulália e a rosa vermelha

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ULTIMAMENTE aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
____________
 
¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.
²Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
Texto publicado em 31 de maio, 2014.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Quatro conversas com Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
                         &                    &                    &
                   
Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

sábado, 3 de agosto de 2019

Horacio Quiroga num dia frio

Jorge Finatto
 
photo: Horacio Quiroga. Wikipédia.
 
Um velho rádio de válvulas que funciona como se fosse ontem. Um pouco do noticiário, desligo. É muita realidade demais. Um dia frio, muito frio, nesses inícios de agosto. Com a bênção de um fogão a lenha. Depois, no toca-discos, a Suíte Popular Brasileira, de Heitor Villa-Lobos. 
 
Lendo o Diário* do jovem Horacio Quiroga (1878-1937), a viagem de Montevideo à Europa, de navio, 24 dias entre céu, mar e saudade. Os dias passados em Paris, assim assim. O olhar do escritor em formação:
 
Abril, 30, 1900. 2.30 p.m. En Notre Dame. La misma impresión general que el Pantheon, La Madaleine, y de todos los monumentos de París, muy pobre, debido al color oscuro, sucio y manchado de todas las paredes. El interior, gótico puro (...) Estoy en la cúspide de Notre Dame, después de subir 345 escalones en caracol. Lo primero que me ha llamado la atención han sido los canalones para el agua - en forma de pescuezo de bicho raro,  rectos e avanzando a la calle (...)
 
A falta de dinheiro torna sem graça os dias vividos em Paris:
 
Sábado, 09, junio. 9 p.m. Un poeta griego de la decadencia dijo: 'La patria está donde se vive bien.' Es un gran pensamiento. Por qué he de decir yo que no hay como París, si no me divierto? (...) estoy en lo verdadero diciendo que Montevideo es mejor que París, porque allí lo paso bien; que el Salto es mejor que París, porque allí me divierto más.
 
A literatura é feita por gente de carne e osso, que sente frio, cansaço, alegria, dor de dente, fome. Às vezes tudo junto. Os livros são depoimentos de passagens pelo mundo. Embora às vezes não pareçam. Eu desconfio de autores que não esbarram nessa coisa difícil, faminta, suja, flébil, encantadora.

A morte é só um suspiro. Uma lágrima que seca. Impostergável ausência. Depois passa.

__________

* Diario de París. Horacio Quiroga. pp. 58/91. Faro Ediciones. Montevideo, 2018.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O rinoceronte branco

Jorge Finatto
 
Crédito será dado tão logo identificado o autor. fonte: internet.
 

1. ESCREVER é o oficio mais solitário do mundo. Escritores são seres isolados. Vivem longe dos homens. Como solitários viajantes do universo que nunca mais voltarão à Terra, precisam escrever para não esquecer.
 
2. Tive uma namorada na adolescência que reclamava porque eu não fazia sexo com ela. Dizia que eu era paternalista. Mas eu achava  tão bom ficar só conversando e olhando pra ela que nem precisava sexo. Era talvez um modo diferente de transar. Mas ela não entendeu assim. Não demorou muito, terminou comigo, claro. E eu fiquei sem aquele sexo gostoso.
 
3. Observei e fotografei muitos seres e lugares. Posso dizer que a coisa mais linda que vi nessa vida foi o rinoceronte branco.

E a mais impressionante: o silêncio de Deus.
 
4. Já morri e ressuscitei várias vezes. Espero continuar assim: morrendo às vezes; ressuscitando sempre.
 
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O rinoceronte branco está quase extinto por caça humana.
 

domingo, 28 de julho de 2019

Iniciação à obra de José Gurvich

Jorge Finatto
Texto e photos
 
Reprodução do ateliê de José Gurvich. Museu J. Gurvich. Montevideo.
photo: jfinatto
 
O Museu Gurvich, em Montevideo, é um belo espaço na Peatonal Sarandí. Ocupando um antigo edifício restaurado, apresenta a obra de José Gurvich (1927-1974), o notável artista uruguaio de origem judaica. Nascido na Lituânia,  aos cinco anos foi com a família para o Uruguai, fugindo da vida difícil e da perseguição aos judeus. Na nova pátria a família humilde busca adaptação, o que não demora a acontecer. Na escola primária, o nome original do menino - Zusmanas  Gurvicius - é alterado para José Gurvich. Ele começa a desenhar muito cedo.
 
Em 1942 ingressa na Escola Nacional de Belas Artes e, em 1944, passa a frequentar o ateliê do pintor e mestre Joaquín Torres-García, que o influencia e inspira. Participa de várias exposições coletivas do grupo do ateliê, no qual depois leciona. Entre 1954 e 1956 viaja para a Europa e Israel. Visita museus, estuda e pinta. Primeira exposição na Europa, em Roma, na Galeria San Marco.
 
Em Israel vive e trabalha como pastor no Kibutz Ramot Menashé, dedicando-se também à sua obra plástica. Expõe na Galeria Katz em Tel Aviv. Casa-se em 1960 com Julia Añorga ("Totó"), nascendo da união, em 1963, o único filho, Martín José. Em 1967 expõe em Montevideo, ganhando reconhecimento como importante artista nacional. Radica-se em Nova York em 1970 e desenvolve intensa atividade. Morre aos 47 anos, de ataque cardíaco, em 1974.
 
Vale a pena embarcar num avião no Brasil e ir a Montevideo só para conhecer o Museu Gurvich. Estive lá por ocasião da inauguração em novembro de 2015. Daquela vez, com o ambiente movimentado e ainda se ajeitando, não tive uma idéia clara do trabalho. Agora, em visita mais tranqüila e demorada, conheci melhor.

José Gurvich é um criador de mundos como todo grande artista. Alguém que surpreende com sua capacidade de invenção e de compor narrativas pictóricas e esculturais. Sua obra tem grande poder de comunicação. Emoção e técnica andam de mãos dadas. Ele alcançou um requinte e uma simplicidade que são fruto de muito estudo e trabalho.

Duas séries, entre outras, servem para ilustrar o tamanho deste artista: a das narrativas bíblicas e experiência judaica, incluindo os terríveis pogrom (expulsão dos judeus de seus lares e países na Europa). E as pinturas que produziu enquanto viveu no bairro Cerro, em Montevideo, retratando seus personagens, suas vidas simples e sua afetividade.
 
Não sou crítico de arte, digo o que sinto diante do que vejo. E José Gurvich me emociona. Tem originalidade e vigor. Fiz algumas fotos dos quadros e esculturas. Um dia para visitar o museu é pouco. Pretendo retornar e rever o universo do artista.

Ganharíamos muito se uma exposição de Gurvich viesse ao Brasil.
 
photo com reflexo.
 
 
O abraço. Cerâmica, c. 1960.
 
detalhe do quadro Pogrom, 1969.
 
Pareja (casal). Óleo sobre gesso e madeira. 1965

A anunciação de Sara. têmpera sobre papel. 1969.

Museo Gurvich.
 

sábado, 27 de julho de 2019

Um futuro talvez

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
O QUE EU penso da situação do Brasil? Considero uma das piores que já testemunhei. Não vejo trabalho suficiente neste governo nem projetos capazes de construir um país mais justo e humano. Não há sequer uma retórica razoável por parte de quem dirige a nação. Fala-se muito, e mal, o tempo todo. E pensa-se pouco.

O governo da hora, além de não traçar um caminho claro para tirar o país do abismo, mostra-se incapaz de acender a esperança da população. Sinto-me profundamente frustrado com o rumo das coisas. Como milhões de brasileiros desempregados, desalentados e deprimidos, que esperavam algo melhor. 
 
Não me coloco entre os que defendem o atual governo (como poderia?) nem entre os que o atacam ferozmente como se fosse a quintessência do mal. Por quê? Porque ele é a óbvia conseqüência de desgovernos anteriores. Os últimos governos prepararam o terreno para a terrível realidade econômica e social que vemos hoje.

A discussão sectária que se trava não faz nenhum sentido. Não existem angelitos nem de um lado nem de outro. Enquanto uns e outros se digladiam, o Brasil afunda e o povo sofre. Precisamos avançar.
 
Impressionante a força do obscurantismo entre nós. Mas eu acredito no poder dos bons exemplos e dos bons gestos. Nos indivíduos pensantes, sensíveis e solidários que são agentes de transformações humanizadoras à margem da política tradicional. Juntos podem alguma coisa. Talvez com eles seja possível um futuro. 
 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Dançarino cubano em tarde lilás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
BAILARINO CUBANO desliza passos voláteis na Peatonal Sarandi ao som de rumbas, merengues e salsas. O pequeno aparelho de cd encostado na parede, o cesto colocado em frente para recolher as doações dos passantes. A tarde é fria, o céu é lilás (nunca vi um céu assim antes).
 
O dançarino tem uma graça natural e parece não tocar o chão com seus pés mágicos. O corpo leve evolui em trejeitos e meneios encantadores. A ginga e a alegria dos movimentos mostram que é possível levitar acima da dureza da vida e da tristeza.
 
É bom caminhar sem rumo por essas ruas de inverno cobertas de plátanos em Montevideo. Esta cidade onde a vida dança e acontece longe dos shoppings.

Ciudad Vieja. foto: jfinatto
  

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Calles de Montevideo

Jorge Finatto
Texto e fotos

Mirada de Eduardo Galeano. Peatonal Sarandi. photo: jfinatto
 
Estávamos no tradicional Café Facal, na Av. 18 de Julho, tarde de domingo. Quando nos levantamos para ir embora, uma senhora entrada em anos (como se dizia antigamente) disse:
 
- Que pasen bien en Uruguay!
 
O bem que faz ouvir um augúrio assim de uma pessoa estranha, mas que podia ser nossa mãe! A fraternidade dessas palavras sensibiliza o coração do estrangeiro.
 
Os idosos andam em toda parte, de dia e à noite. São respeitados e acolhidos. É comum vê-los sozinhos ou acompanhados, na rua, nos ônibus, cafés, etc. Não têm medo.
 
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Li que o Uruguai está com um problema: a baixa natalidade. A população de pessoas velhas é grande. Daí a preocupação de um psiquiatra do Ministério da Saúde local com relação à legalização da maconha. Entende que devia ser proibido o consumo da droga para adolescentes, legalizando só a partir dos 21 anos pelo menos, e não 18 como prevê a lei. Segundo diz, a maconha influi negativamente no aprendizado, dificultando a apreensão de conteúdos. Por isso, sendo a juventude um capital humano escasso por aqui, corre-se o risco de prejudicá-lo, e ao futuro do país, com o uso da droga.
 
Lembrou, também, que a legalização é só para uruguaios e não se aplica aos chamados turistas canábicos.
 
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Cinemateca de Montevideo
 

En algún lugar de Montevideo...


Sigmund dá boas-vindas


Pocitos


Fuente de los amores...


Esse tronco de plátano foi desenhado por Van Gogh...
 

domingo, 21 de julho de 2019

Charla de Montevideo

Jorge Finatto
 
grafite. Montevideo. o nome do autor será registrado tão logo informado ao blog.
photo: jfinatto


MONTEVIDEO, a cidade do Conde de Lautréamont, do doce de leite, do churrasco, do indefectível mate, de Juan Carlos Onetti, Juan José Morosoli, Galeano e Benedetti, do Teatro Solís, do vinho Tannat, de Nacional e Peñarol, de Torres García. Da Rádio Babel, do Café Brasilero, da gentileza no trato cotidiano, de todas as crianças na escola.
 
Mas é, sobretudo para nós brasileiros, a cidade onde se pode caminhar pelas ruas sem o risco iminente do balaço na cabeça, da facada, do seqüestro, do assalto,  do atropelamento, do estupro. Enfim, um outro planeta pra quem vive no Brasil.

Ostentação, luxo? Nada. As pessoas vivem com a dignidade de quem tem o indispensável. O treinador da seleção nacional de futebol, Óscar Tabárez, 72 anos, é professor de escola pública. Ouvi-lo falar nas entrevistas é uma aula de educação e civilidade. Para ele, antes de ser jogador é preciso ser um bom ser humano. Só convoca atletas que tenham valores éticos. Tão diferente de outros treinadores... Por aí também se explica um país.

Um país como o Uruguai que tem qualidade de vida e cujo governo se preocupa com as pessoas. Não é um paraíso. Mas é um lugar muito mais humano do que outros bem perto daqui, e de longe também. O Uruguai é exceção num mundo profundamente conturbado. Não apenas por coisas como a legalização do aborto e do consumo (regulamentado) de maconha, mas pela implementação de direitos sociais. Conversando com gente na rua e nos táxis, sabe-se que o direito à saúde é uma realidade.

Alguém dirá que o fato de ter uma população pequena (3,5 milhões de habitantes, sendo 1,5 milhão em Montevideo) torna o bem-estar social uma obrigação fácil para o governo. Não é assim. Só a continuidade de gestões sérias e comprometidas com avanços alcança tais resultados. É bom ver isso de perto, confirmando a impressão que tive em outras viagens. A constatação de que um estado social e democrático é possível na América do Sul. O Uruguai é exemplo.

obra do grande artista plástico Torres García. Museu Torres García. Montevideo.
photo: j.finatto
  

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Os últimos mistérios do mundo II

Filipe Penaverde

photo: jorge finatto

 
Reescrituras

Se Jorge Luis Borges reescrevia seus textos (quase sempre o fazia), por que um pobre bardo de arrabalde, em que se misturam Dante e Cabrelino da Montanha, não poderia/deveria fazê-lo para o bem de seus valorosos leitores?

Extremos 

Se há, como dizem, um renascimento da extrema direita, aqui e alhures, é porque a extrema esquerda revelou-se, no poder, inoperante e obsequiosa com a corrupção. Não existem santos nessas igrejas. Só fiéis esperando uma salvação que nunca vem.

Como se muda o mundo, sem mudar antes o coração e as próprias atitudes?

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Um alquimista João

Jorge Finatto
 
João Gilberto. photo: Tuca Vieira, São Paulo 2006.
Wikipédia.
 
 
JOÃO GILBERTO foi um artista raro. A afirmação é clichê, mas um clichê incontornável. Uma notável exceção no mundo da música. Não só pelo talento como pelo comportamento discreto, avesso a badalações, holofotes, polêmicas. Recluso, concentrado no trabalho,  guardava com esmero sua vida privada, fugindo da celebridade.
 
Um criador que deu nova dimensão à música. Com ele o samba ganhou uma graça diferente, com doses inusitadas de silêncio. Saboreava cada palavra, cada acorde. Nada de gritaria. Um dos criadores da Bossa Nova, a música brasileira que o mundo mais conhece.
 
O canto suave, quase um sussurro. O toque personalíssimo ao violão. Tratava o instrumento com a dignidade de um concertista. Com João o violão brasileiro ganha uma nova sensibilidade, conquista outras esferas, à semelhança do que acontece com Villa-Lobos. Cada qual no seu jeito e no seu quadrado.
 
Causava estranhamento ver aquele homem sério, um senhor de terno e gravata, executando peças de música popular, soberbo maestro de si mesmo.
 
Não tolerava gente barulhenta e pouco educada na plateia. Passava pitos quando o ambiente não estava à altura de sua arte. Reclamava do som ruim, do ar-condicionado que desafina instrumentos. Temperamento difícil, obsessivo, nisso parecido com outros gênios.
 
Quando tocava e cantava, João era inventor de harmonias, desbravador de caminhos sonoros, de mundos. Um alquimista no universo da música. O mais rude metal se transforma em finíssimo ouro em sua voz, em suas mãos. 
 
Com os filhos adolescentes Clara e Lorenzo, fui assisti-lo no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, no ano 2001. Generoso, prolongou o show muito além do previsto, atendeu pedidos, conversou. Sentiu cheiro de fumaça de cigarro que vinha da parte anterior do palco, indignou-se. O fumante, que permaneceu invisível, tratou de apagar o cigarro e, com o ar limpo, João continuou.
 
Ele lembrou do Guaíba, do pôr do sol de Porto Alegre, da professora Boneca Regina que o tratou como um filhou nas várias vezes em que esteve em sua casa durante os encontros de arte que ela promovia com sua família e amigos. Era 1955, ele contava 24 anos e estava passando uma temporada em Porto Alegre. Morou oito meses no Hotel Majestic, na Rua da Praia, o mesmo onde viveu Mario Quintana, que ele admirava. O antigo hotel é hoje a Casa de Cultura Mario Quintana. 
 
João Gilberto construiu uma obra original, alcançando efeitos incríveis com mínimos recursos. Tal despojamento e excelência só os grandes conseguem. A aparente simplicidade de sua voz e seu violão esconde uma oficina incansável, rigorosa, persistente, como poucas vezes se viu.
 
Morreu João faz poucos dias, em 6 de julho, aos 88 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Retirou-se do palco da vida. A luz do astro apagou-se. Mas há muito ele já era eterno em nossos corações. 

 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os fundamentalistas

Jorge Finatto

Panos quentes no frio zero grau de Canela.
photo: jfinatto
 
 
TENHO MEDO de quem nunca duvida das próprias certezas. A rigidez de pensamento tem motivado a grande desolação em que vivemos. Questionar-se sobre o modo de ser e de fazer as coisas, repensar a vida, olhar o outro, é exercício de civilidade cada vez mais raro.

O fundamentalismo, seja laico, religioso ou político, não torna as pessoas mais felizes e nem melhores. Pelo contrário, espalha sofrimento, conflito, morte. O fundamentalista é dono de verdades absolutas, irrenunciáveis. Ele e o grupo a que pertence, incapazes de autocrítica, são pérolas que pairam impolutas sobre os pobres mortais.

No Brasil de hoje, à esquerda e à direita, a irracionalidade tomou conta.
 
Pôr-se no lugar das outras pessoas, ponderar suas razões e sentimentos, está fora de cogitação para o sectário. O que ele quer - ser iluminado que é - é mandar na vida alheia e no país, mostrar o caminho único da ventura e prosperidade.

O fundamentalismo passa longe da tolerância, essa atitude que, sendo menos que o respeito, é, todavia, um primeiro passo na aceitação do diferente.

Prefiro viver numa sociedade com muitas faces do que num hospício, que é para onde nos conduzem a inflexibilidade, o fanatismo, a força bruta, o aniquilamento da alteridade.

A ética da aproximação, como princípio fundamental da existência, é, ainda, a possível ponte para uma convivência razoavelmente civilizada e fraterna.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A travessia do cotidiano

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
A travessia do COTIDIANO é Odisséia.  As histórias das pessoas comuns, os verdadeiros heróis, quem as contará? Nenhum Homero jamais se debruçará sobre as pequenas memórias que constituem a existência do povo.
 
E, no entanto, não há tesouro mais bonito. São as histórias reais, mais belas e incríveis que as maiores ficções.
 
Cada um é Ulisses e Homero da própria trama. Uma pequena história numa constelação de narrativas.
 
O que resta, no fim de tudo, são histórias humanas sem fim que o vento carrega para as bibliotecas azuis das estrelas.
 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Scrittura

Jorge Finatto

photo: jfinatto


ESCRITA rente ao sentimento e ao pensamento.
Escrita dentro do cotidiano mas aberta ao sonho e à imaginação.
Escrita sem pedir licença nem perdão.
 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A hora da cocota

Jorge Finatto


 fotos: jfinatto 

Na ponta de um PLÁTANO já sem folhas, na frente de casa, pousaram essas caturritas. É o primeiro dia do inverno. Ali ficaram um bom tempo observando tudo lá de cima. Podiam ver a catedral e o centrinho de Passo dos Ausentes. Talvez cansadas, no fim de tarde, antes do sol de pôr, resolveram fazer uma pausa antes de regressar aos ninhos.
 
Essas criaturas são também conhecidas como periquitos-monges, catorras ou cocotas. Seguidamente estão aqui no quintal comendo araçás e outros frutos do seu agrado. Fazem uma gritaria e andam sempre em bando. Não tenho ideia de onde elas vivem, mas parecem bem e estão sempre atentas. Juntas cuidam umas das outras. E por isso vão mais longe. Se as pessoas fizessem o mesmo no Brasil...


Neste primeiro dia de inverno deram as caras as amigas cocotas. Fiz umas fotos de recordação. Uma espécie de celebração do inverno. De retiro das almas. Completado com a audição do Concerto para Cello em Si Menor, de Dvorák.
 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A palheta do outono

Jorge Finatto

Praça Gustavo Langsch. fotos: jfinatto

 
SAÍ PELA RUA na tarde de outono pra tirar umas fotos. Uma visita à Praça Gustavo Langsch perto de casa e não precisa mais. Ali habitam todas as cores da estação.
 
Por alguma razão que desconheço, o outono custa muito a chegar nessa praça. A estação já anda madura no restante da cidade e na Langsch as folhas resistem a amarelar e cair dos galhos. O ocre demora a ocupar o lugar que lhe cabe por direito. Mas quando o outono, enfim, acontece, ela torna-se uma das praças mais bonitas de Porto Alegre.
 
 
O outono é a estação mais bela do ano. Pelas mutações biológicas na natureza, pela incrível palheta de cores que pintam o ambiente e multiplicam ao infinito os tons.
 
Outono é alumbramento, festa do olhar.
 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Ao viajante solitário

Jorge Finatto

Canela, RS. photo: jfinatto
 
AS COISAS que não aconteceram são as que mais se afeiçoam à minha memória. A biografia que vale os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas caminho do mar. Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia. Cheio pelas orelhas de frustrações, tapas na cara, rasteiras e desejos. Quem houvera nesta vida maledeta se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno. Por isso estou aqui. Me contando, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao vento. Construo o venturoso canto. Não me interessa a realidade. Quem quiser a realidade, bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário. Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fiozinho de orvalho estendido de manhã sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma. Caminho para o lugar ermo dos esquecidos.

Eu, Landgrave dos Santos Strano, inquilino do absurdo, apresento-me ante vossa alta ausência.

Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento. Rio Grande do Sul, Brasil, Fim da Via Láctea. Dou fé e assino.

Provavelmente outono.
 

domingo, 2 de junho de 2019

A livraria e a rua

Jorge Finatto

photos: jfinatto
 
NUMA CIDADE afundada em violência, num país em que a criminalidade fugiu do controle, as pessoas evitam andar nas ruas. Só o fazem quando necessário, pois há sempre presente o risco de figurar no longo rol das vítimas da barbárie. 

Há, contudo, um movimento dos cidadãos no sentido de voltar a ocupar o espaço público. Há como que uma necessidade física e psicológica das pessoas de sair das tocas a que estão submetidas.

Desde sempre a cidade é o lugar de convivência entre os humanos.  O espaço comum, o local de interação, de trabalho, de lazer, de coexistência, de construção da vida. Não por acaso surgem agora iniciativas como a Noite dos Museus, em que uma multidão se reúne para sair pelas ruas em intensa programação cultural e comunitária.


Com alegria visitei na semana que passou uma nova livraria, a PocketStore. O bacana é que é uma livraria de rua, não de shopping. Nasce com este espírito de retorno ao espaço público, na Rua Félix da Cunha, no bairro Moinhos de Vento, cada vez mais povoado de cafés, restaurantes, sorveterias, bancas de jornal e lojas nas calçadas.

 

A PocketStore é um bom espaço, moderno e bem atendido. A única coisa que eu mudaria é o nome: por que não chamá-la Livros de Bolso, ou coisa parecida? O português é tão bonito, tão gostoso de ler e escrever. Nada contra o inglês, mas para uma livraria creio que ficaria melhor um nome no idioma de Saramago, Nelson Rodrigues e Guimarães Rosa. Mas isso é detalhe, gosto pessoal. O que importa, raro leitor, e deve ser saudado, é a oportuna iniciativa de colocar a livraria na rua.
  

domingo, 26 de maio de 2019

Limites

Jorge Finatto

photo jfinatto
 

EXISTE a necessidade urgente de pacificação dos espíritos neste Brasil tão conturbado dos últimos tempos, onde se discute muitas vezes sobre coisas sem nenhuma importância e que não levam a lugar nenhum. Há um campeonato de testosterona no país. Disputa-se pelo amor à emulação, à discórdia, para mostrar quem é o mais forte, quem tem mais razão, quem tem a verdade verdadeira, quem é o mais isso e aquilo.

Dificilmente o clima de animosidade levará a algum lugar. Até para discordar tem que ter nível, boa educação, calma. Temo pela evolução deste estado de permanente confronto entre governistas e opositores. A sociedade está cansada. Não suporta mais as injustiças e mazelas decorrentes da corrupção.
 
As necessárias mudanças precisam ser feitas com exemplos de conduta, de retidão, de oposição ao extremismo, com luta pacífica em busca de justiça e solidariedade social.
 
O ressentimento e a beligerância não conduzirão a uma realidade melhor do que esta que estamos vivendo. Acredito na disposição mental para o entendimento, para receber críticas, para dar o passo adiante, para querer o bem comum, para não querer destruir quem pensa diferente.

As mentes lúcidas não podem aceitar a violência moral ou física como forma de resolução de conflitos e de afirmação política. O limite de qualquer manifestação deve ser o respeito ao outro. Que a serenidade nos inspire e proteja.
 
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O processo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Rio Guaíba

 
SOU habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

_______

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

domingo, 12 de maio de 2019

Homem grande, coração de guri

Jorge Finatto
 
Flor de maracujá. photo: jfinatto
 

O FATO é que as datas festivas ou efemérides existem. Podem até ter um sentido comercial, buscando levar as pessoas ao consumo. Mas às vezes é difícil ignorá-las. Hoje, por exemplo, Dia das Mães. Não há como não pensar na mãe de modo mais sentimental. E quem já não tem mãe, como no meu caso, fica calado no seu canto. Disfarça, vai até a janela, sentindo um aperto no peito.
 
Lembro Dela me levando no meu primeiro dia de escola em Porto Alegre. Eu tinha sete anos e acabara de chegar do interior onde vivia com os avós. Tudo era estranho. O Guaíba com seus barcos e navios, a enorme chaminé do Gasômetro, a praça e a praia que havia onde hoje é o Parque Harmonia. A avó tinha morrido há pouco tempo.
 
Naquele dia Ela me vestiu com o uniforme engomado, camisa branca e gravatinha azul, me passou um leve perfume e, antes de eu entrar no portão, me segurou e disse "esse é teu primeiro dia, um dia muito importante. Tu serás um grande homem".
 
Hoje, olho com saudade aquele momento precioso (a esperança que ela tinha no seu menino). Olho com o coração dolorido. Ela não está mais aqui para um abraço. Pequeno, pequeno homem.
 

domingo, 5 de maio de 2019

Os meus velhotes

Jorge Finatto
 
Café, Museu Chaplin, Vevey, Suíça. photo: jfinatto
 

ELES REÚNEM-SE todas as quartas e sábados num café perto da minha casa. Sempre na mesma mesa. São quatro, às vezes cinco. Não faço parte do grupo. Chamo-os de "os meus velhotes" com secreta intimidade. Nunca conversei com nenhum deles. É provável que nem deem pela minha presença.

Velhotes são esses carinhas passados dos 70 que insistem em viver e, mais ainda, em conviver. Na minha paisagem afetiva, são figuras importantes. Trazem a marca da resiliência, persistem na amizade e na vontade de levar o barco adiante. Eu gosto e admiro pessoas assim.
 
Quando ando meio desanimado, vou ver os meus velhotes. Sento na mesa costumeira, peço o café e leio alguma coisa. Entrementes acompanho o entusiasmo do grupo. De alguma maneira, aqueles cabelos brancos me dizem que vale a pena, que existe felicidade no fato de continuar respirando e ir ao encontro dos amigos para um bate-papo num café.
 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pontos de luz

Jorge Finatto

Entardecer em Montreux, Suíça. photo: jfinatto
 

A POESIA existe principalmente fora dos livros de versos. Conseguir reter um pouco desse mistério em forma de poema é tarefa para poucos.
 
Pra quem escreve, o olhar do outro é fundamental. Só o outro pode reconhecer sentido no texto. Sem ele, não tem razão de ser. É como deixar um livro aberto sobre a mesa do quintal, exposto aos ventos, à chuva, ao sol. Os olhos do pássaro, da borboleta e da formiga jamais poderão desvelar o que está escrito. 
 
A descoberta da arte nos torna mais humanos. Os museus, salas de concerto e bibliotecas guardam fragmentos do belo. Mas a maior parte da beleza está em outros lugares, à espera de ser desvendada pela sensibilidade de cada um.

O belo é para sentir e para pensar. O belo pode ser muitas coisas. Às vezes tudo misturado. Só não pode ser a favor da morte e da desintegração do ser humano. Obras de arte são pontos de luz soltos na escuridão cósmica.
 

terça-feira, 23 de abril de 2019

A pele cor-de-rosa da chuva

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O SER HUMANO tem direito constitucional de andar nas nuvens. Sentimental algaravia. Ah, um dia livre por aí. O que ela mais gosta.

As horas difíceis, cotidianas, que a vida tem. Poucos momentos de gozo. Vida bonsai. Um ermo. Os medos, medo, medo. Um dia se deu conta de que. Olhou no espelho, estranhou. Quem é essa? Deus!
 
Vivia no austero, secreto, precavido jeito.

Desde que ele se foi, enfim, aquela madrugada. (Por que tinha de ser justo de madrugada?) Adeus, adeuses. Casa abandonada. Depois só quireras, uns fanicos de dar dó, cacos quebrados. Ninguém mais.
 
Dia feriado, sábado, domingo, aniversário: nenhum fio de luz embaixo da porta, escuridão completa. Ninguém vem, ninguém nunca nada. Coração solitário de bandeja, corvos vorazes.
 
Noites em claro, sede. Janela aberta sobre a cidade e neons. Vazio. Invoca rezas antigas, banho de madrugada, copo dágua gelada, dorme diante da tv. Quem é essa?
 
A solidão de batom pintada na cara. Ocos dias de viver. Malezas.
 
Ah, bem-vindo, vento de maio. Chuva. Na chuva sente-se protegida, agasalhada. Sai a divagar caminhos molhados. Os longes habitam a sua alma. Peixes coloridos soltos no ar. Sopram presságios no voo de algodão das gaivotas. O rio escorrendo lentamente.
 
Moças saltam das janelas, invadem as ruas como ela. Anêmonas. Saias flutuam. Sombrinhas navegam no vento.
 
A esperança. Ninguém pode viver sem, nem ela nem. Se solitude fosse abraço.

Instantes migalhas de vida são. Breves eternidades. Venham os dias.

O amanhecer sobre nuvens. Venha esse novo amor de onde vier. 

Felicidade é relâmpago. Farândola no coração.

A pele cor-de-rosa da chuva.

Outono, outonos.
 
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Texto revisto, publicado em 9 de abril, 2010.
 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Renascer de cinzas

Jorge Finatto
 
Igreja de Canela, 21.04.2019. photo: jfinatto
 
 
Que a RESSURREIÇÃO DE CRISTO inspire o renascimento de muitos.

Que volte a chover na terra calcinada dos nossos corações.
 

sábado, 13 de abril de 2019

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto


E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira de antigüidades da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador no casarão abandonado da Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
 
Pequena eternidade de luz.
 
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Texto revisto, publicado em 14 fev. 2015.
 

domingo, 7 de abril de 2019

A casa do fantasma

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Bologna

E POR FALAR em fantasmas, a coleção dele não para de aumentar. Alguns já partiram há muito tempo (o tempo humano é farelo, ele sabe). Outros ainda estão por aqui mas não foram mais vistos.

Os habitantes do oblívio. Ele mesmo é um tipo de fantasma. Um que caminha entre luz e sombra, dia e noite, preto e branco, visível e invisível.

As ruas são as mesmas mas os antigos moradores viajaram a outros planetas. Ele ficou olhando o fim de tarde desenhado numa aquarela.

Abril chegou com seu discreto frio, seus silêncios, suas quaresmeiras em flor. 

Esta vida é uma aquarela. No início as cores e formas são vívidas e transparentes. Depois vão se apagando como um entardecer.

A beleza habita a casa do efêmero, ele pensa.

E ousa sentir.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A hora da pacificação

Jorge Finatto

Pôr do sol no Guaíba. photo: jfinatto

 
O NÚMERO de desempregados divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é terrível.* Até o final de fevereiro último, somavam 13 milhões e 100 mil as pessoas sem trabalho. Além delas, existem 4 milhões e 900 mil desalentados, isto é, aqueles que desistiram de procurar emprego por desânimo, depressão, cansaço diante do quadro que se apresenta.

Enquanto isso, não se vislumbram ações capazes de levar o país a uma pacificação. Não houve diminuição do enfrentamento politico, distensão que deveria ter se seguido às eleições para a reconstrução da confiança, da economia e dos empregos.  Pelo contrário, o bate-boca aumentou, e quando a gritaria prevalece, acaba ocupando o lugar destinado ao diálogo,  às ideias, projetos, boas práticas. A inteligência se calou no Brasil nos últimos meses.

O país continua carente de bom senso, razoabilidade, espírito público. As coisas simplesmente não andam. Parece que não existe amanhã nestes tempos de ódio. Estamos vivendo uma espécie de velório da esperança.

É preciso que os homens e mulheres que ocupam cargos públicos saibam que não estão aí para ser servidos, mas para servir a sociedade. É o óbvio que deve ser reiterado todos os dias no Brasil.

Todo mundo sabe o que necessita ser feito para melhorar a vida da população. O país não pode esperar mais. Humildade, respeito ao semelhante, paz, trabalho, justiça, empatia são algumas palavras que podem ajudar muito nesta hora. Não se brinca com a vida de mais de 200 milhões de pessoas.

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*Desemprego
https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/03/29/desemprego-sobe-para-124percent-em-fevereiro-diz-ibge.ghtml
  

terça-feira, 26 de março de 2019

Pequenas humanidades

Jorge Finatto 

photo: j.finatto


O PROBLEMA, raro leitor, é que quando a pessoa deixa de gostar de si mesma a vida torna-se muito dura. A dela e a dos que estão por perto. Por isso é do interesse geral que todos sejam felizes ou, pelo menos, o mais próximo disso que puderem.
 
O infeliz arrasta o mundo para o buraco com ele. Qualquer um de nós já passou por isso. Aparece aquela nuvem carregada sobre a cabeça. Essa nuvem se expande com facilidade.

Nessas horas precisamos de uma palavra, um olhar, um aconchego para voltar a viver. Acontece que na vida de aparências em que estamos metidos somos cada vez menos estimulados a falar de nossos sentimentos. Somos esfinges no deserto.
  
Conheço pessoas que nada mais esperam da vida. Perderam a alegria de viver. Sobrevivem a duras penas. Não que queiram. Simplesmente aconteceu. Não sabem o que fazer. Têm medo de viver, de sonhar, de sofrer de novo. Os medos.
 
Esse estado de espírito é um dos principais legados da sociedade materialista, competitiva, agressiva e desumana em que vivemos. O outro é o inimigo em armas. Existe pouco espaço para a mansidão e a solidariedade.
 
Só o afeto tem o poder de nos reconciliar com o próximo e com a vida. Longe do calor humano tudo é o mesmo que nada.

Afeto não tem preço, não se aluga, não se compra, não se vende. Se dá e se recebe.

Não precisamos ser íntimos de alguém pra passar afeto. Isso se faz num gesto de gentileza, cordialidade, atenção.

São coisas simples que, enlaçadas, são capazes de causar uma grande revolução. Está todo mundo esperando e precisando muito dessas pequenas humanidades.

Eu acredito que podemos investir mais na nossa espécie, na reciprocidade dos bons gestos, no afago.

De mãos dadas a vida é outra.

Começo a terça-feira oferecendo a você essas palavras, minha amiga, meu amigo. Elas estão vivas. Cuide bem delas, dos outros, de si mesmo. Você merece. Nós merecemos.

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Texto revisto, publicado antes em 21, outubro, 2014.