quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Meus amigos

Jorge Adelar Finatto


Não esqueçam
de me visitar
nas noites
de inverno
quando o medo
cobra caro
e as feridas
não deixam mentir

insolúvel jogo
de espelhos
entre mim
e o que fui

ando bêbado
pela casa
meu coração
é operário
desempregado
com filho pra criar
mulher feia
sem crédito no armazém

me enrosco
em invenções
inúteis
pra repartir contigo
um espaço de ternura

sinto umas
coisas estranhas
caminharem atrás de mim
um cano de fuzil
um casal de velhos famintos
um câncer
e me desagrada não ser
como certos fantasmas

convoco o
silêncio e
suas raízes

inauguro a
manhã

não, eu não sou
uma estrela
um rio
um barco
nada se compara
ao que sinto

preciso todos
ao redor da mesa
principalmente
os desaparecidos
como certos crepúsculos
que a gente vê
fogem e nunca mais

_______

Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

Foto: J. Finatto

4 comentários:

  1. Este poema é um daqueles "matadores".
    Nele estão sintetizadas as angústias de uma geração que pensou, sentiu, se solidarizou, mas que viveu à margem do processo decisório e que teve de calar muitas vezes...
    Muito me identifico com isso, com os anos setenta/oitenta, quando ousar pensar diferente era perigoso...
    Vopu tomar emprestada esta pequena obra-prima e reproduzí-la em meu blog.
    Encare como um singelo presente de Natal!

    Abraço.

    Ricardo Mainieri

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  2. Muito, muito obrigado, Ricardo, e um grande abraço, amigo.

    JF

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  3. deus meu, adelar, "meu coraçao é mulher feia sem crédito no armazem"...Morri, ali! Poemaço, poeta!

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  4. Este poema é impressionante. Parabéns!

    Abraço, Adelar!

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