domingo, 20 de março de 2016

A lágrima

Jorge Finatto

photo: jfinatto

As percas. O irremediável na vida da pessoa. Os olhos pretos, pretos, acesos. Os negros cabelos caíam nos ombros. No então eu habitava o calabouço. Agonia em mim acostumada. As esperas. Ela surgiu um dia no abrigo, as carinhas nossas. Vestia casaco azul-marinho, lenço branco no pescoço. Quando vi aquela iluminação, meu coração saltou saltos. Pensei no vazio de mim: o que, a estrela da minha vida, essa? Nunca esqueço. A Encantada. Os olhos dela me encontraram. Escolheu a minha frágil escondida criatura. Havia muitos outros habitantes do calabouço aguardando amanhecer. No limbo, esperando a face do milagre. Os esquecidos. A Encantada me pegou nos braços. O meu filho, disse. Passei a ser o amoroso. Os baldos. Meu coração cavalo cego na alegria. Quem me via, falava: esse tal, o príncipe. O escolhido. A Encantada inaugurou minha vida. A estrela. Eu príncipe. Ela disse: menino agora é meu filho no rigor da lei, pessoa da minha alma. Tive outro menino, falou ela, olhando o esmo. Do meu sangue próprio. Perdi nos prelúdios, tinha quatro anos. As percas. As esfumações. Cresci com esse invisível irmão.
 
O finado. O sempre lembrado. Às vezes eu conversava com ele. A mãe era sozinha no mundo. A mãe tinha os momentos. As lonjuras.  Carregava o menino morto no colo do coração. Caminhava no outro mundo com seus desaparecidos. A mãe tinha  segredos guardados. Ninguém entrava ali. Ai de quem. O meu filho, dizia. A mãe fazia eu dormir no colo, na frente do fogão a lenha, até os oito anos. O príncipe. A mãe levava o filho vivo passear na praça. O mundo conhecesse o amoroso. A solitária da Rua São João e seu menino vivo. Eu tive, depois perdi.  O coração da mãe tinha umas ausências, sustos, sufocos. Um dia estranhei aquele sono esquecido de acordar. Fui no quarto. Ela deitada. O rosto lindo inclinado. Os olhos pretos, pretos, abertos. Havia uma lágrima transparente. Eu me vi dentro daquela lágrima. A boca parecia rir um pouquinho. Tinha eu doze anos. O escolhido. Peguei na mão da Encantada. Fiquei dois dias sentado no chão ao lado dela, esperando ela retornar. A mão muito fria. A testa que beijei, gelada. A mãe não regressou. Os silêncios. Disse no dentro do fundo do coração: vou junto. Aqui não fico mais. A vida não vale, acabou. Odiei ter renascido. O escolhido. Ódio, ódios envenenados senti. Um vizinho, vizinhos, forçaram a porta, sobejaram pela casa. Os espantos. Me tiraram de lá, no forçado. Eu gritei deveras os tristes gritos. Me deixem, me deixem. O pobre, diziam, o pobre príncipe. Nos retratos a nossa vida em família: a mãe, o sempre lembrado e eu. Sobrevivi a mim mesmo. Sou uma ausência caminhando na névoa. O frio, frios dentro em mim.

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Texto publicado em 22 de maio, 2010.

6 comentários:

  1. Uau! Espanto-me eu! Daonde? Não me são estranhos os sentires da mãe. Não me são estranhos fragilidade e solidão de filho. Muito menos, me são estranhos percas. Mas me espanta o conseguires trazer a luz o que fica, as vezes, tão escondido no superar-se a si mesmo.

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  2. Qué o vazio, o frio, sejam preenchidoacalentado com a luz
    da vida! Feliz Páscoa a você e a sua
    linda família!
    Rosangela.stucheli@gmail.com & Karl

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    1. Rosângela, muita luz para vocês também. A Ressurreição é de todos nós. Um grande abraço em ti, no Karl e filhas.

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  3. querido amigo ADelar, acabei de ler o teu novo texto e confesso: estou sem ar. menino, que coisa mais linda, texto maravilhoso, adorei, adorei, cada ponto, cada respiro, cada saltitar breve, cada clanque. Continua, vai, por aí, que a estrada é longa e saborosa. abraçao!

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    1. Querida Graça. Eu que fico em estado de Graça com o teu comentário. Feliz! Um abração, amiga!

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