sábado, 22 de abril de 2017

Benedictus de Spinoza

Jorge Finatto

Spinoza. pintura a óleo, cerca de 1665. autor desconhecido.
fonte: Wikipedia

UMA PEQUENA MESA de carvalho. Uma cama. Dois travesseiros. Uma estante de livros feita em madeira de pinho com prateleiras. Algumas lunetas. Um manto turco. Dois anéis de prata. Um paletó colorido.  Uma calça. Um jogo de xadrez. Uma mala velha.
 
Dois chapéus pretos. Dois pares de sapato. Um saco de viagem. Sete camisas. Uma gravata de algodão.  Dois lenços usados. 160 livros.

São alguns dos poucos objetos que fazem parte do inventário do filósofo holandês Benedictus de Spinoza, morto em casa, em Haia, na Holanda, em 21 de fevereiro de 1677. Acervo mínimo de quem quase nada teve além de si próprio e de seus pensamentos. A relação completa consta da excelente obra Ética, publicada pela Editora Autêntica, com elogiada tradução de Tomaz Tadeu em edição bilíngüe latim-português.¹

Benedictus de Spinoza (1632 - 1677), filósofo nascido em Amsterdam, filho de família portuguesa de origem judia que emigrou para a Holanda, tinha a desagradável mania de fazer o que todo filósofo que se preza faz: pensar pela própria cabeça. O que, no ambiente em que vivia, era uma ousadia e um atentado às verdades estabelecidas pelos líderes religiosos judeus e de outras religiões, e pelos políticos da época.

Ainda jovem (23 nos), em 1656, é excomungado e expulso da religião e da comunidade judaicas devido a sua formação humanista e liberal e a suas "más opiniões e obras", bem como pelas ligações com livres-pensadores. Onde já se viu sair-se com ideias novas sobre Deus, os homens e a vida?

Defendeu a liberdade de pensamento, sem interferência religiosa ou política, e a separação entre Estado e Igreja, política e religião. Do mesmo modo refletiu sobre a influência dos afetos na vida em sociedade. Foi profundo, corajoso, inovador.

O Conselho da Sinagoga, em Amsterdam, não deixou por menos: "expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos" Spinoza:

"Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar. Que não queira Adonai (Soberano Senhor) perdoá-lo, mas, antes, inflame-se o furor de Adonai e o seu rigor contra esse homem e lance contra ele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E que Adonai apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que  ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele." (Herem - anátema - pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656).²
 
A liberdade de espírito, o conhecimento longe de sectarismos e o questionamento de verdades dadas costumam ser malqueridos e maltratados pelas religiões e sistemas políticos.

Vivemos uma permanente Inquisição (ou incineração) das almas livres e sonhadoras. O que aconteceu com Spinoza lá, acontece hoje aqui, com algumas variações, mas em igual essência. Nada de novo sob o sol.

Mas o filósofo de pele morena e cabelos pretos encaracolados foi decisivo na construção de uma nova claridade, lançando um vento de esperança contra o inferno.
____________ 

1,2. Ética. Spinoza. Edição bilíngue Latim - Português. Tradução de  Tomaz Tadeu. Editora Autêntica. 3ª edição, 1ª reimpressão. Belo Horizonte, 2013.

Agradeço à Editora Autêntica pela autorização das citações.
 

sábado, 15 de abril de 2017

Maria Madalena

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira a ver Jesus após a Ressurreição.  Nenhum dos apóstolos teve essa ventura. Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.

Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos.  Ele então lhe fala:

- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".

Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.

Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo urgente e necessário.

Estamos à véspera da Ressurreição, no domingo de Páscoa. Relendo os quatro Evangelhos por esses dias (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida,  assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.

O aparecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.

Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).

Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.

Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.
 

sábado, 8 de abril de 2017

Oblivion

Jorge Finatto

photo: jfinatto

O PROBLEMA DA MORTE é o manto de silêncio com que cobre o morto. O  manto de rijo basalto. A morte fecha seus olhos de modo que não pode mais admirar as nuvens, as borboletas, os córregos, os rostos queridos.

O morto não pode ler a palavra aurora, nem ver as magnólias (nessa época tão bonitas, tão bonitas). A memória do morto se dissolve em mil estilhaços de estrelas.

A morte torna o morto côncavo. Encovado em si mesmo, ele parte rumo ao oblívio. Álgida face, álgidas mãos. Da morte nada se aproveita, nem vela, nem coroa de flor, nem lágrima, nem discurso, nem nada. Nada.

O morto espera a mão de um anjo na travessia para o outro lado. E que Deus o receba quando lá desembarcar no seu barco de solidão.
 

sábado, 1 de abril de 2017

Tresloucadas umbrelas

Jorge Finatto

Série Umbrelas. Jorge Finatto

O guarda-chuva é o melhor amigo do homem, junto com o cão. Ambos vêm depois, claro, do ser humano, este sim o primeiro e verdadeiro melhor amigo do homem, embora alguns tenham dúvida sobre isto.
 
Um sujeito desamparado e solitário encontrará sempre no guarda-chuva um companheiro valente e leal nas intempéries da vida.
 
Aqui em Passo dos Ausentes, as umbrelas são tão consideradas que ganharam uma grande escultura na Praça da Ausência, a mais importante (e única, aliás) da cidade.
 
Lembro, a propósito, que Oscar Wilde esteve em nossa aldeia esquecida especialmente para encomendar guarda-chuvas de nossos mestres umbeleiros. Veio para ficar poucos dias, e demorou-se por 40 amanheceres!

Os guarda-chuvas que levou (Wilde era colecionador), com suas iniciais marcadas nos cabos de osso de anta, o acompanharam até o triste fim de seus dias, num pobre quarto de hotel, na Rue des Beaux Arts, 13, em Paris, não distante do Sena. Tão pobre que o teria levado a dizer, pouco antes de morrer: ou sai esse papel (horrível) de parede ou saio eu. Deixou muitas saudades, carinhos e bilhetes entre nós.
 
Objetos antiquíssimos, os chapéus-de-chuva têm uma dimensão onírica e simbólica. Podem significar proteção durante a travessia das dificuldades que a existência nos impõe. E um voo sobre os abismos da indiferença e da solidão. Além, é claro, da função primordial de abrigar-nos da chuva, da bruma líquida e do sol forte.
 
Tenho por eles, como todo ausentino, um afeto imemorial que remonta aos tempos do Dilúvio e que chegou até nós atravessando gerações.
 
No Café do Porto, em janeiro de 2016, expus a minha série Umbrelas, ao lado da outra, Visões da Serra. Duas em uma. Vejam o que disse, por e-mail, o poeta e amigo Ricardo Mainieri, após visitar a exposição:
 
Uma coisa chamou-me, logo, a atenção: as cores. Seja nas paisagens serranas, onde existem nuances de meios-tons, seja nas expressivas "umbrelas" tresloucadamente voando no céu.
Também é visível uma atmosfera de solidão e transcendência nas imagens da Serra e uma discreta alegria nas sombrinhas voadoras.
Pessoalmente, gostei mais das paisagens solitárias de nosso bioma interior. Elas me evocam um momento de reflexão e espiritualidade. Parabéns pela exposição.
 
O que pretendo com minhas fotografias? Passar um pouco de beleza e, talvez, alegria para as pessoas, num momento tão difícil como o que vivemos. Um instante de leveza, luz natural, cor, ar fresco e poesia, elementos que habitam as coisas simples, os Fanicos & Farfalhas do mundo.*

__________ 

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/03/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html 
 
*Texto atualizado, publicado originalmente em 14 de janeiro, 2016.

terça-feira, 28 de março de 2017

O machado e o sândalo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


COISAS QUE CARREGAM UM POUCO de mim: o apito do trem chegando na estação, o apito do navio deixando o cais de Porto Alegre, o som da caixinha de música com bailarina girando. O sorriso da antiga namorada dizendo: que bom que vieste.
 
O galo canta de manhã cedo, eu chegando na casa do avô depois de muito tempo. O abraço. O bule de café, o leite quente, o pão feito em casa, o queijo, o salame, a chimia, a nata. A mesa posta na varanda. Na parede o quadro com a inscrição: o machado fere o sândalo que o perfuma. Vida ingrata. Vida boa.
 
A carreta do velho de capote preto e chapéu cinza passando na Rua São João. A garoa de abril turvando a janela da mansarda. Tudo vivo, pulsando, distante.

Um dia todas as memórias serão presente. Não haverá oblívio nem saudades. Um dia o machado compreenderá que ferir quem só lhe faz bem é maldade pura, e maldade destrói também quem a faz.  Um dia o sândalo poderá viver e perfumar sem medo de ser cortado. E as pessoas se olharão nos olhos.
 

quinta-feira, 23 de março de 2017

The mysterious Mr. F

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Para ser lido ao som de Koto Song, de Dave Brubeck
 

A man walks in the wind
A man walks in the beach
A man and his shadow
A man and his dark solitude
A man and his luminous hope...

 __________ 

Koto Song, Dave Brubeck:
https://www.youtube.com/watch?v=pvB_ZNtOb4E
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Visitante

Jorge Finatto

outono. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

____________

Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

sábado, 18 de março de 2017

Senhor do tempo

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto

SER DONO do próprio tempo é um privilégio de poucos. É algo raro. E também assusta, às vezes, porque é preciso saber o que fazer com o tempo. Embora a vida seja curta, os dias são sempre longos. Mas eu vejo como um enorme presente que a vida nos oferece. Chegar com saúde a esse estágio é uma felicidade que vem de Deus. Quantos, infelizmente, não conseguem?

A literatura e a fotografia, que eram atividades quase clandestinas, passaram à ordem do dia. Poder dialogar com os habitantes das praças, ainda que em silêncio, é um luxo. Enfurnar-se em sebos e livrarias, sem medo de perder a hora, beira a maravilha.

Ler e escrever em paz, fazer um bom café às três da madrugada, dormir perto do amanhecer. Escutar os pássaros depois de acordar, nas árvores da redondeza. Fazer o contrário do que sempre se faz, sem culpa. Fazer o que sempre se quis. Tudo isso uma beleza. Mas é, antes de tudo, uma conquista de décadas de trabalho e compromisso. Agora eu vou contar quantos cocos tem esse coqueiro em Arraial d'Ajuda.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Passos e traços

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
NADA ALÉM de alguns rastros na areia. Nos idos de março, a comunidade de veranistas rareia. Antes era uma multidão de passos em todas as direções, uns sobre os outros, a perder de vista. Depois vieram os ventos de março e foram apagando, um a um, os traços, levando-os para outros espaços.
 
No próximo verão, outros rastros, outros pés, outros passos se desenharão diante do mar, marcando reencontros e o calor de abraços.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto

O que é da praia, em março, já sem rastros? Solidão sob o sol.
 
Sem a presença dos teus passos, o mar recolhe os braços.

photo: jfinatto


sábado, 11 de março de 2017

Kant à beira mar

Jorge Finatto 

Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto
 

TODO VIVENTE devia ter uma rede baiana e uma água de coco pra se aconchegar. O mundo seria outro. Não haveria tanta maldade, nem tanta tristeza, nem tanta grossura.
 
A filosofia, na Praia do Mucugê, aqui em Arraial d'Ajuda, é outra. Do outro lado do Atlântico tem a África. Do lado de cima do mar, o céu azul-infinito. Daqui da cadeira de praia, vejo a linha do horizonte com seu bordado de nuvens.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Por todo canto, lonjuras, palmeiras, coqueiros, gente sossegada olhando o movimento dos barcos e das ondas.

Kant, se tivesse vivido em Arraial, escreveria que o imperativo categórico é suco de cupuaçu, mar quebrando na praia e caipirosca.

Praia do Mutá, Bahia. photo: jfinatto

Praia do Mutá. photo: jfinatto

Devir é quando o sol se levanta, no fim do oceano, a cada amanhecer.
 
Sartre, por seu lado, teria ensinado que o inferno não é o outro, mas a sombra que ele projeta em nosso pedaço de areia.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Ortega y Gasset conceberia que eu sou eu e minha praia. Não existe filosofia nem felicidade longe daqui. Fora deste lugar habita o caos.
 
O resto, bem, o resto se vê depois. 

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Saudade da Terra Brasilis

Jorge Finatto

índios em Porto Seguro. photo: jfinatto

DIZEM QUE quando Cabral chegou nestas terras, em 22 de abril de 1500, o lugar era um paraíso. E decerto era. Como não seria? Ainda hoje percebem-se, em Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e arredores, vivos sinais de natureza (fauna e flora) e a resiliente presença do homem autóctone, o índio (atualmente o Pataxó), que vão resistindo, a duras penas, à multissecular invasão de seu território.

Nesta região, os treze navios da esquadra cabralina aportaram depois de Cabral avistar e dar nome ao Monte Pascoal (a cerca de 62 km ao sul de Porto Seguro). A Carta de Pero Vaz de Caminha, dando notícia do "descobrimento" a El Rey Dom Manuel, é um documento precioso do ponto de vista histórico e literário. Nela está presente a visão eurocêntrica do Novo Mundo. É o início da colonização e dos graves equívocos que começariam logo em seguida.

A palavra descoberta encoberta, no mínimo, um imenso eufemismo: já havia seres humanos habitando o lugar, povos indígenas com sua rica cultura e um modus vivendi em profunda integração e equilíbrio com a natureza.

Os navegadores portugueses encontraram um continente já povoado (com imensas áreas ainda por ocupar) e harmonioso (a Terra Brasilis, antes da chegada do europeu), até então livre de doenças terríveis trazidas do Velho Continente e da tentativa de dominação pela religião e pela força bruta. (Em Santa Cruz Cabrália foi rezada a primeira missa, em 26 de abril de 1500).

As cidades aqui do sul da Bahia são velhas como o Brasil e, como ele, muito jovens. Afinal, o que são 517 anos de história para uma nação ainda em formação?

Igreja N.S. da Conceição, Santa Cruz Cabrália, Bahia. photo: jfinatto
 
De qualquer modo, é tempo suficiente para praticamente exterminarem os povos indígenas, os habitantes originais, com quem temos tanto a aprender. A natureza, com este mar incrível e seus rios, persevera nos campos, florestas e sertões, mas não se sabe até quando. Um triste exemplo é o modo de ocupação e devastação da Amazônia. Uma ocasião sobrevoei a floresta e fiquei impactado com a fumaça das queimadas que vinha lá de baixo numa enorme extensão. 

A Terra Brasilis nunca mais seria a mesma depois de 1500. Mas é preciso ser claro: nos últimos 200 anos a destruição da natureza e a falta de perspectivas para os índios e o restante da população são obra autoral de brasileiros. Em conluio com forças do atraso e da corrupção dentro e fora da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Porto Seguro

Jorge Finatto

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá!
Dorival Caymmi
 
De passagem por Porto Seguro, sul da Bahia, colhi estas imagens. Elas comprovam que Caymmi tem razão, é preciso conhecer e viver a Bahia.
 
fotos: jfinatto
 
 
 
 
 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abóboras, figos, galos e infância

Jorge Finatto
 
fotos: jfinatto, 02 de março, 2017

UM DOS ENCANTOS de vagabundear pelas estradas da serra, além da visão afundada dos cânions e abismos, é parar nas tendas de beira de estrada. Elas oferecem ao freguês toda sorte de verduras, legumes, frutas, doces, compotas, pães, etc. E são uma dádiva para os olhos.
 
 
Viajando ontem a Porto Alegre, parei numa delas, na altura de Nova Petrópolis. Comprei um cesto de uvas que impregnou a caminhonete com aquele cheiro divino.
 
Mas também levei uma abóbora de pescoço e morangas, sim, belas e nédias morangas verdes e cor-de-laranja (ou cor-de-abóbora...). Também peguei melões e figos, que nesta época estão no auge da doçura.
 
 
Pra completar a cena interiorana, do outro lado da estrada, numa sombra, um galo cantou várias vezes. Era uma tarde ensolarada, por volta de 16h, e ele queria era soltar a voz.
 
Deus, como tudo isso traz de volta a infância...
 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Essa alegria toda

Jorge Finatto

desfile do Boi Tolo, Rio - Marcia Foletto / O Globo 
 
Tanto riso, oh, quanta alegria
mais de mil palhaços no salão
 
Zé Keti, em Máscara Negra, marchinha de carnaval
 
ESSA ALEGRIA toda nos blocos de rua do carnaval e penso que é bom que assim seja, as pessoas se divertindo numa festa coletiva como não há igual. Alegria num tempo de absoluta aflição e poucos motivos para festejar.
Um dia considerei o carnaval uma festa para alienados. Não acho mais. Todo mundo precisa de um instante de fuga da realidade. O que são a literatura e a arte senão isto, uma busca desesperada de alheamento do real?
A vida a frio é muito difícil. O ser humano precisa de sonho e invenção. O carnaval revela o lado lúdico, faceiro, brincalhão e tribal de que tanto precisamos.
O problema não está na “alienação” dos festins de carnaval. O nosso desastre é não conseguirmos essa mesma união para mudar o que precisa ser mudado no país, a fim de que todos possam ser um pouco mais felizes durante o ano inteiro.
Não é sendo tristes que vamos melhorar o Brasil. A alegria é transformadora. Viva, pois, a festa, abaixo a melancolia! E que, na volta à realidade, encontremos forças para transformar as coisas, dentro e fora de nós.