quinta-feira, 16 de agosto de 2012

As borboletas de Fukushima

Jorge Adelar Finatto

borboleta com mutação (abaixo). Agência EFE

As borboletas que vivem nas áreas próximas à Usina Nuclear de Fukushima, no nordeste do Japão, estão sofrendo mutações genéticas.

A radiação liberada no ambiente durante o acidente ocorrido na usina, em março de 2011, em razão do terremoto e do tsunami que assolaram o país, está alterando as formas das asas e antenas das borboletas, entre outras mudanças. A notícia foi publicada no Scientific Reports desta semana.
A incidência das mutações se dá em borboletas que comem alimentos contaminados pela radiação e naquelas cujos pais já foram atingidos por alterações genéticas.

Cresce no Japão e no mundo a consciência de que precisamos partir urgentemente para o uso de energias limpas, como eólica e solar, deixando para trás a atômica e a que resulta da queima de combustíveis fósseis.

O risco de acidentes nucleares coloca em constante perigo a existência dos seres vivos em nosso planeta. Não precisa muito: um erro humano, um evento da natureza ou um desastre por qualquer motivo são suficientes para causar irreparáveis danos genéticos, quando não a extinção da vida.

As borboletas, ao natural, têm vida brevíssima, duram em média de duas a quatro semanas. Algumas mariposas vivem apenas um dia.

Além das horas que destinam a coisas prosaicas como prover suas necessidades e fugir de predadores, pouco tempo resta às borboletas para viver e ser feliz.

O tempo das borboletas de Fukushima ficou ainda menor, depois que a radiação lhes impregnou o corpo frágil. Sabe-se lá as dores que sentirão com as mutações, para não falar da decepção de se sentirem diferentes das outras.
As mutilações genéticas das borboletas dizem respeito a todos nós. A brevidade da nossa própria existência recomenda todo o cuidado possível com a vida em geral. Precisamos compartilhar com os outros seres o milagre de estar vivo.
___________________

Sobre o tsunami no Japão em março de 2011:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/03/hokkaido-ilha-do-coracao.html

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Stefan Zweig

Jorge Adelar Finatto

Stefan Zweig. Arquivo Casa Stefan Zweig


A abertura ao público da Casa Stefan Zweig, na cidade de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro, no mês de julho último, deve ser saudada como um importante acontecimento para o Brasil e para os leitores de todo o mundo.

Trata-se de um centro cultural e museu, no imóvel onde viveram, entre setembro de 1941 e fevereiro de 1942, o escritor de origem judaica Stefan Zweig e sua mulher Lotte, até o suicídio de ambos em 23 de fevereiro de 1942.

Apaixonado pelo Brasil, que conhecera em 1936, o autor, nascido em Viena em 1881, foi morar em Petrópolis, fugindo do nazismo e do fascismo que jogaram a Europa e o mundo num túnel de estupidez, maldade e destruição. Antes, havia vivido um período na Inglaterra e outro nos Estados Unidos. 

Entusiasmado com o novo país, escreveu Brasil, um país do futuro. A obra que deixou é extensa e plural, abrangendo vários gêneros, da poesia ao romance, passando por ensaios e memórias, entre outros escritos.

O que motivou o suicídio do casal, segundo se afirma, foi a depressão causada pelos horrores da guerra e a desesperança com o rumo da política e com o futuro da cultura de língua alemã. Sentiram-se incapazes de recomeçar um nova existência.

Há poucos dias li o livro 24 horas na vida de uma mulher¹, em que Zweig narra a história de um dia na vida de uma mulher inteligente e culta. Ela se envolve com um homem jovem que perde tudo na mesa de jogo e pensa em se matar. Trata-se de um pequeno e precioso volume de 112 páginas, em que o escritor penetra na alma dos personagens, deles extraindo a beleza, a humanidade, o êxtase e o abismo que cada um carrega dentro de si.

Diz-se que era um dos livros preferidos de Freud. Não admira que assim fosse, tal a maneira como o autor percorre os meandros da psique humana e os caminhos da criação. Em certo trecho do livro, Sweig diz aquilo que, no fundo, acho que todo escritor gostaria de dizer ao leitor:

"Foi bom poder lhe contar tudo isso: sinto-me mais leve, e quase contente... obrigada por isso."²

Ele foi amigo de grandes intelectuais de seu tempo, como o poeta belga Émile Verhaeren, seu primeiro grande mestre, Rainer Maria Rilke, Theodor Herzl, Walter Rathenau, Maxim Gorki, James Joyce, Arthur Schnitzler, Joseph Roth, Romain Rolland e Sigmund Freud, entre outros.

Para os que, como eu, pouco conhecem a obra e a vida de Stefan Zweig, recomendo uma visita ao rico site oficial da Casa³, no link indicado abaixo. Nele se tem acesso a importantes informações, imagens e textos do e sobre o escritor, como a impressionante declaração que deixou escrita a propósito do seu suicídio:


Declaração

Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim e meu lar espiritual, a Europa, se autoaniquila.

Mas depois dos sessenta anos precisa-se de forças descomunais para começar tudo de novo. E as minhas se exauriram nestes longos anos de errância sem pátria. Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal, o bem mais precioso sobre a terra.

Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.

Stefan Zweig
Petrópolis, 22. II. 1942

Trad. André Vallias


_________________

¹ 24 horas na vida de uma mulher. Stefan Zweig. Editora L&PM, Coleção Pocket, vol. 589, Porto Alegre, 2011.
² idem, p. 106.
³Casa Stefan Zweig. Site oficial: http://www.casastefanzweig.org/sec_textos_list.php