sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Um verão cordial

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


As hortênsias estão floridas em volta da casa. Isso, em meados de fevereiro, alto verão, é raro. O sol violento de dezembro em diante costuma castigar as hortênsias e outras flores, e é comum restarem secas ao final de janeiro. Este ano não foi assim. Plantas e flores estão bem vivas.

Um verão cordial, portanto. A brandura das temperaturas faz pressentir os primeiros acenos do outono  que começa em 20 de março. Tem chovido cordialmente, também, afastando-se a hipótese de seca. Plantações prometem, reservatórios não se ressentem.

De modo que, ao menos nisso, estamos bem. Não vou falar da lentidão brutal da vacinação contra a covid-19, da impiedosa disseminação do vírus nas últimas semanas, do triste aumento das mortes, da insubordinação de parte da população contra normas básicas de prevenção, do sofrível desempenho das autoridades ao lidar com a crise.

Não vou falar do modo patético como alguns indivíduos, que deveriam dar exemplo, lidam com esta realidade, promovendo aglomerações, não usando máscara, subestimando a gravidade do que está acontecendo, ao invés de estimularem os cuidados necessários. 

Eu nunca vi nada parecido com o que está acontecendo no Brasil. A situação geral piorou muito. Não se veem horizontes por perto. E não apenas devido à pandemia. Parece que os nossos piores defeitos enquanto sociedade resolveram aflorar ao mesmo tempo.

Como estava dizendo, as flores e plantas estão vivas em volta da casa, e resistem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Saudade dos dias que virão

 Jorge Finatto

Contraforte dos Capuchinhos. foto: jfinatto


VAMOS para meados de fevereiro, quase um ano depois que isso tudo começou. As primeiras doses de vacina começaram a ser aplicadas em janeiro, mas a aplicação segue tão lenta aqui no Brasil que não sabemos se estaremos vivos quando a nossa vez chegar. Enquanto isso, tome confinamento longe da família, dos amigos, da antiga vida.

É preciso paciência, é preciso não enlouquecer enquanto se aguarda. É preciso esperar, também, pela apuração de responsabilidades dos que subestimaram os efeitos da pandemia e, assim agindo ou se omitindo, contribuíram para o mau gerenciamento da crise sanitária que resultou na maior disseminação do vírus, na enorme pressão sobre serviços de saúde, nos milhares de mortos (233.588 até o dia de hoje).

Sinto saudades não do tempo de antes da pandemia, mas dos dias que virão (um dia virão). Me vejo caminhando nas ruas do bairro outra vez, indo ao café na frente da praça para conversar com o atendente sobre o tempo e futebol, e para beber um cappuccino folheando livro ou revista.

Saudade de comprar jornal na banca da esquina, pão no balcão do armazém, de ir ao barbeiro como nos velhos tempos (meu Deus, quanto tempo!).  

De tanta saudade das coisas do futuro, chego a sentir um nó no peito. Mas corto por aqui essas visões. Não dá para enfartar agora em que esse amanhecer surge - tímido embora - no horizonte.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Memória do vento

 Jorge Finatto

photo: jfinatto. Canela

Não posso

fechar a porta 

às histórias

que o vento traz


o mundo esquecido

a vida pequena

seres e coisas

que têm em mim

a eternidade

possível

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Do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

4 rosas

 

photo: jfinatto, jardim da casa

sábado, 23 de janeiro de 2021

Da amorosa arte de guardar peixes e flores*

 Jorge Finatto

photo: Henrique do Valle, 1979
autora: Ana Maria Lopes de Almeida Bastos


Te chamei porque queria que guardasses
meus peixes e flores
agora que vou viajar.

Conhecerei novas terras, outras pessoas
e isso me enche de tanta alegria
que nem sei como expressar.

Prometo que te trarei presentes
e que te contarei tim tim por tim tim
tudo que passei.

Mas até eu voltar, dá uma força,
cuida bem dos meus peixes e flores. 

Henrique do Valle


Há trinta e dois anos trago comigo os peixes e as flores de Henrique do Valle. Em 1981, pouco antes de morrer, ele me confiou um envelope com trinta e um poemas datilografados em folhas de caderno. Escreveu à mão na primeira: "Estive aqui mas não havia ninguém. Espero que aproveites estes textos".

Chovia muito naquela tarde. Ele deixou o envelope na porta e foi embora. Nunca mais o vi.

Eram tempos estranhos aqueles. Trazíamos no peito o sol dos vinte e poucos anos. Em nossa volta, porém, a realidade era sombria e maniqueísta: civis e militares, comunistas e patriotas, Arena e Mdb, direita e esquerda, bons e maus. Não havia meio-termo. A Semana de Arte Moderna de 1922 era ainda o grande acontecimento da literatura brasileira nas salas de aula.

O Brasil era preto e branco, cinema mudo sem Carlitos, cidade morta.

O poema inaugural do envelope falava dos peixes e das flores que o poeta cultivava em seu mundo espiritual. Era talvez o que tinha de mais precioso na vida. A breve existência do Henrique foi toda dedicada à escrita. Foi a maneira que ele encontrou - possivelmente a única - de suportar a passagem pelo mundo.

A entrega do envelope foi um gesto simbólico. A metáfora da preparação de uma longa viagem - a última - que o levaria para muito longe, para bem depois dos moinhos, vales e montanhas estelares. Só entendi isso depois que ele partiu.

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* Primeira parte do meu depoimento no livro Henrique do Valle, Obra Reunida, organizado por Paulo Seben e publicado pelo Instituto Estadual do Livro em 2014. É uma publicação de resgate da obra deste grande poeta que morreu aos 22 anos (21 de março,1958 - 28 de fevereiro,1981). Um livro precioso.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Um certo Terêncio Horto

Jorge Finatto


O escritor Terêncio Horto.* Autor: André Dahmer


O ESCRITOR DESCONHECIDO, frustrado, amargurado e massacrado pela indiferença em torno de seu trabalho certamente encontrará um aliado na figura incansável e batalhadora de Terêncio Horto. Ele é a prova viva de que um autor não deve desistir jamais da luta diante da folha em branco e do pouco caso de editores e leitores.
 
Nós, esforçadas criaturas que escrevem em solitários cubículos, formamos uma invisível e numerosa família. Com poucas exceções, vivemos confinados na caverna do anonimato. Mas somos teimosos, nada de desespero. Pelejamos mesmo nas piores condições. A dura lida nos constrói.

Olhemos o exemplo do irmão Terêncio. Lá na sua clausura, qual isolado monge sentado diante da velha máquina de datilografia, ele não se entrega ao fracasso; luta de sol a sol, nuvem a nuvem, quadrinho após quadrinho, para dar ao mundo os frutos suculentos do seu duro ofício.


O Senhor Horto e seu amigo imaginário. Autor: André Dahmer
 
Terêncio Horto é desses assinalados pelas musas e pela tragédia de escolher a escrita num ambiente grosseiro e de poucas luzes como o nosso. Alcançou algum reconhecimento, mas não perdeu a rebeldia. Faz parte de uma geração de escritores em vias de extinção. 

A esmagadora maioria deles passou a vida sem ser notada pelos leitores, pela crítica, pela mídia e pelos vizinhos dos prédios onde moram. Nunca receberão jabutis, quatis, sagüis, sambaquis e outros importantes galardões literários nacionais. Entanto, lutam a terrível luta de trazer à luz as páginas fadadas ao fundo sombrio de injustas gavetas. 
 
Não apenas escreve bem o Senhor Horto; possui notável poder de observação (notaram o ponto-e-vírgula ali atrás? isto é estilo, senhores!). A sua visão de mundo está impregnada do caos da vida com seus intervalos (raros) de poesia e humanismo. 

Os temas são os mais diversos, desde remotas (e dolorosas) memórias de infância até intrincadas questões de fundo filosófico e outras, não menos tormentosas, inerentes às relações humanas. Nada escapa de sua pluma corajosa e vertical: internet, brigas de família, humilhações, desilusões, sexo, cultura, cinismo, encontros marcantes e alguns nem tanto, amizade, amor, cumplicidade, arte, literatura.
 
O Senhor Horto. Autor: André Dahmer
 
Horto não poupa a si nem ao restante da humanidade de sua ironia e de seu humor corrosivo. Porém, não perde de vista certa dose de ternura e empatia diante da tragicomédia da existência.

O escritor Horto. Autor: André Dahmer
 
Li com prazer e sentimento de vingança este Vida e Obra de Terêncio Hortoe me reconheci em muitas de suas páginas (ri muito, chorei um pouco). O livro já faz parte do meu manual de sobrevivência na selva literária. De forma direta injeta ar fresco e claridade no ambiente de boçalidade do mundo das letras e das artes, além de aliviar a barra pesadíssima do cotidiano. Só resta agradecer ao quadrinista e escritor André Dahmer por nos ter revelado esse grande autor e pensador brasileiro. Com especial destaque para as ótimas ilustrações.

O escritor Horto. Autor: André Dahmer
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*Vida e obra de Terêncio Horto. André Dahmer. Ilustrações do autor. Editora Schwarcz S.A., São Paulo, 2014. 
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Texto revisto, publicado antes em 16.10.2017 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Noites do hospital

 Jorge Finatto

photo: jfinatto



O câncer colocou-o pra  flutuar numa nuvem de morfina.

Na sala de cirurgia, gente vestida de branco, teto alto, máscaras, luz chapada sobre seu corpo.  Uma vaga claridade entrava pela janela fechada. Um sono longo e induzido. O corte, o sangue, aparelhos. A urgente luta pela vida.

Tinha passado muitos anos ilhado em gabinetes, mergulhado em processos, decifrando histórias, conflitos, decidindo destinos. Enquanto habitava a ilha, o Guaíba fluía sonoro do outro lado da janela.

O rio e seus barcos. O rio e seus peixes. O rio e os admiradores do pôr do sol. O rio e a promessa de viagens nunca feitas.

Os sonhos há muito tinham batido em retirada. Quando foi a última vez que teve tempo para si, para a família e amigos? Não lembrava mais.

Pensava nessas coisas nas noites do hospital, deitado na cama, quando a dor cedia. Voava na nuvem gris, entre brancos aventais e a parafernália eletrônica.

Depois ficou tudo pra depois.

Passou a olhar o mundo com outra mirada. Nada valia mais do que estar vivo, vivo simplesmente.

O risco de desaparecer fez com que se voltasse, sem mais demora, para o que havia de mais precioso na Via Láctea: o pequeno planeta dos seus afetos. 
Somos um sopro de Deus, pensou. 

Sentia-se por um fio, como um astronauta fora da nave-mãe.
 
Precisava de uma chance pra refazer laços perdidos, dar abraços, agradecer, pedir desculpas.

Precisava sobreviver e chegar do outro lado daquele rio sem margens. 
Uma oportunidade foi tudo que pediu a Deus. 

Naquela noite não dormiu até ver o sol clarear a janela do quarto de hospital. Era o primeiro dia da nova vida. Não podia desperdiçar um segundo sequer.

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Texto revisto, publicado em 26 agosto 2015.
 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Conversando com Deus

 Jorge Finatto

photo: jfinatto. Vale do Quilombo


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem me dera. Mas talvez a voz Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. 

Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro, uma pessoa? Há algo espiritual que não se explica pela razão nem pelo acaso.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, penso que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração e o sofrimento humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Creio que, sim, Deus gosta de boas conversas. Imagine como deve ser solitário não ter com quem dialogar... Se Ele nos criou à sua imagem e semelhança, como está escrito na Bíblia (Gênesis 1:26), deve estar disponível para um bom bate-papo. Mas precisamos saber e querer ouvir também.

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Texto revisto, publicado em 6 de agosto, 2019.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

La que "Nunca tuvo novio"

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


La que Nunca tuvo novio. A melodia nostálgica, suave e doce deste tango de 1930 (Augustín Bardi e Enrique Cadícamo) me levou a encontrar a mulher que nunca teve namorado, que triste!

E a vi horas sem fim na janela, olhando a calle desierta, onde algum moço passava de vez em quando, e ela então sonhava. Mas o moço apenas passava diante de sua janela, todos os moços passavam e se iam para outras moças em outras calles.

Ela morava com a mãe, cuidava da casa e dos sobrinhos. Numa calle com casas coloridas e flores humildes nas janelas, num bairro distante.

Uma ruazinha perdida em Buenos Aires, um lugar escondido de Deus, um ermo esquecido ao sul do planeta. Igual a tantos no mundo. Lá ela morava.

Aos sábados, la que nunca tuvo novio se enfeitava com um vestido florido que ela mesma fizera e se ia pelas ruas do barrio com a sombrinha lilás doendo sob o sol. Olhava as vitrines, conversava na praça com as vizinhas, tomava refresco do vendedor ambulante. Saboreava algodão doce. Esperava.

Depois voltava sozinha pra casa por ruas estreitas. Assim passaram-se os anos. As amigas de infância se casaram, depois as filhas delas. A vida passou. E as vizinhas diziam: la que nunca tuvo novio. Pobrecita!

Essas coisas eu vi e senti enquanto ouvia o tango portenho. Caminhei pela calle triste da pobre moça que nunca teve namorado.

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Texto revisto, publicado em 24 de janeiro de 2015.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Enchendo o saco de Deus

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


AS BARBARIDADES que o ser humano faz todos os dias. Seremos nós um ato falho da criação? Fico pensando nessas coisas que me perseguem desde os tempos do Dilúvio.

Está escrito em Gênesis 6: 5-8: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempo. E Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração."

"De modo que Jeová disse: "Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até  a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito." Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová."

O Dilúvio veio, choveu durante quarenta dias e quarenta noites, destruiu tudo, salvo Noé, sua família e os animais que levou junto na famosa arca. A vida recomeçou.

A solidão e a tristeza de Deus me comovem. Não se sentirá Ele muito sozinho, sem ter com quem conversar, em tempos de tanta maldade e incompreensão como agora? Terá o Criador alguém com quem desabafar nas horas difíceis?
 
Refiro-me àqueles dias em que Ele olha para a Terra e assiste ao deplorável espetáculo que continua sendo apresentado por homens e mulheres. Como se sente um Pai ao ver os filhos nos descaminhos da perversidade, do puro egoísmo, sem falar na solene indiferença ao sofrimento dos outros? Deve ser muito doloroso.

Espero que Deus perdoe a minha intromissão em seus assuntos de foro íntimo. Ainda mais partindo da milionésima parte de um grão de areia como eu.

O pensamento é o parque de diversões de filósofos, poetas e outros seres inúteis. Essa gente que passa os dias obstinada em encher o saco de Deus como se o Criador não tivesse mais o que fazer.

Eu aqui nessa puta solidão a querer falar da solidão do Todo Poderoso. Tem gente que não se enxerga.
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

A propósito do Troféu Apolinário Porto Alegre 2020

 Niamara Pessoa Ribeiro

Graduada em Letras e Especialista em Teoria Literária. Porto Alegre.


Niamara Pessoa Ribeiro


Caro amigo Finatto.


Um brinde ao seu sucesso pelo Prêmio Troféu Apolinário Porto Alegre 2020, da Academia Rio-Grandense de Letras. 

A homenagem da Academia ao seu talento não surpreende, mas sim enaltece e envolve a todos os leitores na alegria de ver o que o seu coração e o seu intelecto já sabem, quando, com todas as entranhas, o senhor elabora as letras do alfabeto, que surgem novas em suas mãos.

Também não surpreende a distinção ao seu livro, pois observei que “Navegador”, incluso no título de sua premiada publicação, já prenunciava o destino de que estamos falando.

Comecei a comparar o que é dito de certos símbolos e suas prováveis dicas herméticas ... assim ... divagando ...

Cristo, “Pastor” (do rebanho humano).

Maçons, “Pedreiros” (buscando construir sociedades igualitárias).

São José, “Carpinteiro” (entalhando modelos de qualificação humana).

Apóstolos, “Pescadores” (de almas).

Deus ultérrimo, “Pai” (Modelo original ao qual retornaremos).

E... “Navegador”... Mestre Supremo, designação abrangente, ocultando função além-náutica...

E o senhor, Navegador do fazer literário, já no título da obra prognosticou a vitória do Barco de Papel.

Parabéns pela merecida homenagem. Parabéns, Navegador, Mestre Supremo na segurança com que conduz as palavras ao longo de ondulações, ventos, da imensidão do mar de ideias e sentimentos.

Navegador preciso, o senhor e seu Barco nos conduzem mais além.

E vamos navegar, pois o senhor, Doutor Finatto, autor/comandante, se mostra preciso, mesmo atravessando águas da vida nas quais precisão alguma acena para os que saem da imobilidade terrena para se alçar sobre a líquida mobilidade de águas perigosas e atraentes.

Esses são os navegadores que vão a distâncias e de lá nos trazem o fruto de suas observações.

Esses são os bravos navegadores que nos permitem ser maiores por meio de seus barcos repletos de poéticas criações.

Creio representar a voz coletiva de leitores ao dizer o quanto sou grata pelo fato de o senhor aportar suas naves em nossos ancoradouros.

Os grandes navegadores se lançam aos mares, e os mais corajosos o fazem pela filosofia poética, arrojando-se em barcos de papel. O senhor é um deles. Sabe dominar esses mares.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras 2020

 Jorge Finatto


O livro Navegador de barco de papel conquistou nessa segunda-feira, 14 de dezembro, o Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras 2020, na categoria crônica, recebendo o Troféu Apolinário Porto Alegre. 

Em cerimônia virtual, foram divulgados os vencedores do concurso que destacou, também, as categorias romance, narrativa curta, tese acadêmica ou dissertação, poesia e livro infantil.

Sensibilizado e muito feliz pelo reconhecimento, agradeci à notável instituição cultural que é a Academia Rio-Grandense de Letras, fundada em 1901. Trata-se de um grande estímulo para seguir neste difícil caminho da literatura.

Dediquei o prêmio aos poetas e escritores que, através do trabalho solitário e silencioso, contribuem para a humanização da nossa sociedade. 

A bela capa e as ilustrações do livro foram concebidas por Clara Finatto, minha talentosa filha.

Agradeço de coração a honrosa distinção.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Em busca da rosa

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Não suspiro
pelo tempo
que passou

não planejo
navegações
em solitário
através do oceano

não almejo a fuga
até a constelação
de Rio Erídano

tudo isso
eu fiz
e foi em vão

quero ficar
contigo
íntimo como
um segredo

como gotas
de chuva
sobre a rosa

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Os sintomas da alegria

 Jorge Finatto

photo: jfinatto



Acordou com uma insuportável vontade de viver. Foi no tempo da peste covid-19. Abriu a janela do quarto e recebeu no corpo o ar fresco do amanhecer. Respirou fundo. Olhou o Contraforte dos Capuchinhos ao longe. Suspirou, fechou os olhos. 

Descobriu que as velhas mágoas e dores já não doíam como antes. Passaram porque tudo tem que passar. Porque o perdão é talvez  o melhor dos remédios. 

A peste também haveria de passar.

Sentiu uma terrível vontade de agradecer. Estava vivo, respirava e olhava as montanhas junto à janela. A morte, esse injusto evento, nunca teria a palavra final. Era apenas uma mudança de capítulo. Uma passagem para algo desconhecido e, provavelmente, melhor. 

A vida é um milagre que germina do encontro de dois ermos. O tempo não é inimigo, antes um aliado. Uma estrada. Uma estrela em movimento na escuridão. Há beleza até nas marcas que o tempo esculpe na face. 

Existe um universo inteiro de perguntas. Mas as respostas essenciais não estão disponíveis.

Somos parte do mistério. 

Somos o mistério.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Açores

 Jorge Finatto

No meio da noite oceânica de Angra do Heroísmo, um passeio pela rua deserta. Onde se ouvem as histórias do mar e a conversa de velhos fantasmas de marinheiros em navios afundados.


Sé de Angra do Heroísmo. Açores.
photo: jfinatto


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Navegações

 Jorge Finatto

photo: jfinatto



Não existem chegadas
e partidas definitivas
rijos itinerários nascidos
na rota turbulenta
dos abismos


o que há é esta
necessidade de navegar
que começa não sei
em que rio 
ou fundão
e depois se expande


um dia toda busca
cristaliza
e se pode, enfim,
recolher as velas
no porto do outro
mundo


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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990. 

sábado, 21 de novembro de 2020

Mais um negro

                                                                                                                                               Jorge Finatto

Dor, indignação, revolta, vergonha. São alguns sentimentos que nos invadem diante da terrível morte de João Alberto Freitas, 40 anos, pai de quatro filhos, por espancamento praticado, segundo amplamente divulgado, por seguranças no estacionamento do supermercado Carrefour em Porto Alegre. O fato, ocorrido na quinta-feira, 19/11, véspera do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é revelador, mais uma vez, da intolerável violência existente na sociedade brasileira, que atinge visceralmente os segmentos mais vulneráveis da população.

O homem que foi morto era negro (mais uma vítima). O que justifica bater numa pessoa até a morte? Como pode semelhante agressão acontecer no ambiente de um supermercado? Por certo o processo judicial irá esclarecer os fatos e suas circunstâncias e aplicará a lei. Todavia, a aplicação da lei penal não tem o condão de devolver a vida à vítima. Tampouco consegue desfazer o incomensurável trauma causado aos familiares, amigos e à sociedade em geral.

O tema do racismo vem à tona em meio à perplexidade. Negar a existência de racismo, no Brasil e no Rio Grande do Sul, é negar a luz do Sol. Basta atentar para a posição em que a população negra está colocada, ainda sem igualdade de acesso aos bens da vida que outros grupos sociais possuem. 

O tratamento discriminatório é uma triste realidade. Os negros foram deixados à margem e à míngua durante os últimos quatrocentos anos. O racismo é, em si, uma forma perversa de marginalização e de negação da dignidade da pessoa humana. Um sistema de opressão econômica, social e política que estrutura a sociedade.

Joaquim Nabuco afirmou que a luta pela liberdade, no Brasil, não se esgotaria com o fim da escravidão (que ocorreu com a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888). Ela se prolongaria por muito tempo no combate aos efeitos do regime abominável. A realidade brasileira insiste, todos os dias, em dar razão ao notável abolicionista pernambucano.

Sendo de natureza estrutural, estando impregnado no funcionamento da sociedade, e se reproduzindo ao longo de séculos, é necessário lutar contra o racismo a cada dia. Por isso, têm razão os que sustentam que não basta não ser ou não se considerar racista, é preciso ser antirracista, praticando atitudes contra este monstruoso e detestável sistema de opressão. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A segunda onda à vista

 Jorge Finatto

A má notícia deste final de ano é que a pandemia, depois de arrefecer um pouco nos últimos três meses, parece que volta a intensificar-se. A julgar pelos números recentes, estão aumentando a transmissão e a ocupação de leitos e UTIs de hospitais em várias cidades e Estados do Brasil. O número de óbitos permanece elevado. 

Em suma, a primeira onda mal começava a diminuir e uma segunda vaga anuncia-se pela fresta sombria das estatísticas. O sistema de saúde ainda não se recuperou e torna a sofrer grande pressão.

O agravamento demonstra que os cuidados diminuíram. Muita gente quer ter vida social como antes e faz aglomeração. Esquecem-se de que só houve melhora quando se adotaram cuidados básicos como uso de máscara e distanciamento. Um coisa é sair para trabalhar e estudar. Outra é querer viver sem os limites necessários enquanto não se vence o vírus. 

Não há mais paciência com esta doença. Ela desmontou a vida de milhões de pessoas em todos os cantos. Há quase nove meses trancado, com pouquíssimas saídas à rua (só em caso de necessidade), sinto-me, como todos, mareado, exausto.

A falta de um plano do governo federal para enfrentar a grave crise de saúde pública, a ausência de lucidez e sensibilidade para lidar com a situação, colaboraram muito para o tamanho da tragédia que se abateu sobre o Brasil: 166.743 mortos até agora.* 

Ao invés da construção conjunta de ações para mitigar a pandemia, com os entes da federação e a sociedade, preferiu-se negar-lhe o poder de destruição, optando-se por politizar a doença. Comportamento absolutamente incompreensível à luz da razão. 

Enquanto isso, só nos resta redobrar os cuidados e esperar pela vacina. E rezar pedindo proteção a Deus, rogando-lhe por generosas doses de resiliência pra suportar tudo isso.

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*Estadão:

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-transmissao-da-covid-no-brasil-volta-a-passar-de-1-diz-imperial-college,70003518266

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Por quem choras, Maria Filipa?

 Jorge Finatto 

photo: jfinatto. Amsterdam
 

Por quem choras, Maria Filipa?

Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?

Estás sentada à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam.

Me olhas com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.

Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
 
Devia ter me jogado nas águas turvas da tarde de domingo. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.

Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez dizer e receber um pouco de consolo.

A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes do mundo, me olhaste.
 
Da minha solidão eu te acenei.
 
Foi tudo que fiz, um gesto na garoa fina. Por um instante tuas lágrimas diminuíram e pude perceber que teus olhos me seguiram. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde as mãos pálidas repousavam.

O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
 
Entre dois cais, entre dois nadas.
 
photo: j.finatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 16 outubro, 2012.

domingo, 8 de novembro de 2020

Pela construção de pontes, não de muros

 Jorge Finatto

Joe Biden. photo: Reuters

O povo dos Estados Unidos acaba de dar um presente ao mundo: a eleição de Joe Biden.
Isto significa, entre outras possibilidades, fortalecimento da democracia, antirracismo, multilateralismo, respeito às diferenças, tolerância, preservação do meio ambiente, busca de negociação entre opostos, preocupação com as pessoas.
E uma certeza: aos quase 78 anos não se tem muito tempo nem direito de insistir em velhos erros, preconceitos, vaidades, arrogâncias e truculências.
É hora de celebrar a esperança. Chega de tanta escuridão lá como aqui (o exemplo americano há de chegar ao Brasil em 2022).
Pela construção de pontes, não de muros.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Drummond 118

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


O jovem leitor afeiçoou-se ao poeta. Compartilhou com ele, mais do que palavras, a viva vida que elas expressam. E como diziam coisas as palavras do bardo itabirano!

Havia entre poeta e leitor uma secreta cumplicidade. Um andar juntos pelo mundo. Uma troca de confidências, alegrias, queixas, protestos, malquereres, desertos, amores e esperanças. O invisível amigo percorria com o moço os duros caminhos da vida

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) será sempre o lúcido, o lírico, justo enlace razão-emoção, construtor de versos indeléveis na língua universal da poesia. Enquanto houver livros e leitores, Drummond será sinônimo de altíssima poesia e claro pensamento.

O ser-no-mundo, às vezes cambaio, às vezes indescritivelmente só, mas sempre comprometido com a vida em sua humana jornada.

O poeta não se esquivava e respondia as cartas que lhe chegavam todos os dias. Generoso, sabia colocar-se, não acima, mas ao lado do leitor que o procurava ávido por um contato, mínimo que fosse. Respondia com incomum e delicada atenção.

Quando escreveu, na resposta, o nome do missivista interiorano, manuscrito com tinta azul na folha branca (que o tempo esmaeceu), retirou-o do anonimato, reconheceu-lhe a existência, tratou-o como um semelhante. 

Sensível ao outro, ele sabia que o poema só existe quando desvelado aos olhos do cúmplice leitor. A carta que dele recebi é, para mim, verdadeira relíquia literária e sentimental guardada no cofre do coração. 

Drummond fez um imenso bem à minha alma, aos meus dias de juventude e aos dias que vieram depois. Neste 31 de outubro, em que se comemoram seus 118 anos de vida (vida estendida no numeroso testamento da palavra), renovo a emoção de abraçá-lo com amor de leitor. Afeto que o tempo não apaga.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O processo

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


SOU habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

_______

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

sábado, 24 de outubro de 2020

O jardineiro amoroso

 Jorge Finatto

photos: jfinatto

                    Omnia humana brevia et caduca sunt.*

Cultivarás o teu jardim.

Não cobiçarás o jardim do próximo.

Aprenderás que o jardim perfeito não existe, só na tua imaginação.

As flores que habitam teu jardim não te pertencem. 

Elas nasceram para embelezar o mundo.

Não deixes que o orgulho de jardineiro te faça esquecer que o tempo das flores, como o teu, se esfuma entre os dedos. 

O jardineiro amoroso cultiva beleza e perfume à margem da eternidade. 

Aceita o outono e suas folhas secas, sem desespero nem remorso. 

Sabe que tudo é transformação.

E a morte é só passagem para outros jardins.

____ 

*As coisas humanas têm vida curta e são transitórias.