sábado, 22 de dezembro de 2012

A estação de Passo dos Ausentes

Jorge Adelar Finatto 


photo: j.finatto



O trem está imóvel na gare deserta. Por ali os passageiros são invisíveis. De vez em quando o apito perdido da locomotiva pode ser ouvido no roçar do vento nas folhas dos plátanos. Durante o dia o silêncio monta guarda na estação abandonada. Nenhum bulício de viagem na plataforma vazia, nenhuma respiração.
Juan Niebla, 85 anos, ocupa um banco no interior do terceiro vagão e toca seu bandoneón nas terças, quintas e quando lhe dá na telha. Naquele vagão, funciona hoje o Café dos Ausentes. O músico cego relembra os tempos em que recebia os viajantes com música.

A cidade então não era o território de fantasmas que hoje é. Gente chegava, gente partia, gente chorava, gente sorria. Havia vida nas casas, nas poucas ruas, na praça e na estação.
A cidade ficou ilhada em si mesma no dia em que acabaram com o transporte ferroviário. Muitas viagens ficaram interrompidas, muita gente foi embora em busca de um futuro melhor.
Da estação de trem de Passo dos Ausentes se saltava rumo ao universo.
- Eu estou aqui esperando a próxima composição de passageiros. Quando chegar, quero estar no meu posto, tocando o bandoneón. Para isso fui contratado em 1943. Essa estação ainda vai ter vida de novo um dia – diz Niebla.
Pode ser. Provisoriamente o presente está oco. Mas nada, nenhum homem, nenhum governo e nenhuma barbaridade como o fim da ferrovia conseguem enterrar as coisas boas que foram um dia e muito menos matar o amanhã.

Há algo que pulsa nas ruínas silenciosas dessa cidade, algo que insiste em sobreviver, um sentido de permanência na memória e no afeto dos poucos que ficaram.
Em certas madrugadas, ouve-se ao longe o ruído das rodas de aço sobre os trilhos avançando em direção à cidade. De súbito as luzes da estação se acendem. 

A velha locomotiva treme sobre os dormentes, expele fumaça pela negra chaminé, apita como se tivesse recém chegado de uma longa viagem. Ninguém consegue entender o que acontece. Ninguém ousa se aproximar, todos observam à distância.

Escuta-se um burburinho de sombras na plataforma. As vozes se misturam, vultos se projetam nas janelas.
Num instante as luzes da estação se apagam novamente. O silêncio da noite toma conta do lugar outra vez.
O vento toca as flores das magnólias. Um gato volta a dormir no banco da gare vazia.
__________________

O tecido da tua ausência:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/12/o-tecido-da-tua-ausencia.html
 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Passos de algodão

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto. Alziro em pessoa
 

Depois de longa e sentida ausência, ele retornou ao convívio das tardes no escritório. Conheço meu amigo de outros invernos.

Partiu em fevereiro sem dizer nada, tão ao seu estilo, e me deixou aqui todo esse tempo sem poder ouvir sua voz cava, sem poder ver sua plumagem luminosa, seus olhos redondos e espertos.

Sempre sinto falta do olhar de banda e da maneira estrambótica de aterrissar num só pé na varanda do escritório.

Alziro tem temperamento forte e, às vezes, um certo mau humor o acompanha quando o tempo está pra chuva.

Ele voltou com suas cores vivas para amenizar o inverno. Eu andava mesmo precisado de sua companhia. Não que ele converse muito, é até meio calado. No fundo, nem é isso o mais importante.

A silenciosa presença do amigo, sabê-lo perto, partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança.

Providenciei hoje a reposição de pedaços de banana no pratinho dos pássaros, fruto mais do seu gosto.

Em certos dias, Alziro deixa a cerimônia de lado, entra no escritório, em passos de algodão, e ensaia uma pequena incursão no ambiente. Olha o teto, os lustres, a mesa, os livros, os quadros, as plantas e relógios, tudo com silenciosa atenção. Faço que não percebo para deixá-lo à vontade.

Do mesmo jeito que chega, o meu amigo sai e vai embora. Como sempre, não se despede e nem diz quando voltará, apenas alça o improvável voo adunco e parte rasgando o ar.

O que importa, diz o coração, é que a velha e boa amizade está rediviva. Se tudo der certo, talvez ele retorne amanhã ou quem sabe depois. Só espero que não me falte tão cedo, porque meu inventário de ausências já vai longo na vida.

Amar traz consigo, sempre presente, o risco de perder.

__________________

Texto publicado em 24 de agosto, 2010.
 jfinatto@terra.com.br