domingo, 30 de dezembro de 2012

O cemitério de Père-Lachaise em Paris

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Père-Lachaise, Paris
 
 
Um leitor pergunta-me, por e-mail, o que, afinal, um escritor genial como Balzac ia fazer no cemitério de Père-Lachaise em Paris. Refere-se ao post de ontem (29/12/12), no qual escrevi que o grande romancista francês costumava freqüentar aquele lugar para meditar e realizar no local o que denominou "estudos de dor".


photo: j.finatto.Túmulo de Proust com carta e vaso de flor

Admirou-se, também, o raro leitor, pelo fato de eu ter passado um dia - um domingo - pesquisando, anotando e fotografando no tal cemitério: "O que pode haver de tão interessante num lugar assim? Não revelará esse gesto certa tendência mórbida do temperamento do cronista?", arrematou.

photo: j.finatto. Túmulo de Oscar Wilde em reforma, acima e em baixo (e os beijinhos)


photo: j.finatto

Não posso falar por Balzac, mas acredito que, atento observador como era, capaz de ir a minudências que passam despercebidas da maior parte dos mortais, as horas vividas no cemitério serviram-lhe de precioso material existencial e reflexivo para escrever sua obra.

Nada como a morte para chamar-nos à vida.

Uma certa melancolia ancestral habita o meu sangue, admito. Esse é um traço anímico de quem nasceu em Passo dos Ausentes como eu. Ninguém vem ao mundo impunemente aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, entre gélidas névoas.


photo: j.finatto. Túmulo de Balzac

Mas ainda não chego ao ponto de fazer excursões a cemitérios por causa disso. Longe de mim! A morte é, entre os fatos naturais, o que me causa maior aversão e desgosto. Não existe entre mim e ela amizade ou encantamento possível.

Visitar cemitérios, portanto, não é um passeio que, de regra, me agrade, pelo contrário. Além disso, procuro sempre evitar tais visitas, pois, como diz aquele sábio ditado popular: "quem não é visto não é lembrado".


photo: j.finatto. Túmulo da escritora Colette

Uma visita ao Père-Lachaise tem valor cultural. É um giro pela história da arte e da cultura. E uma visão impressionante da transitoriedade de tudo nesse mundo. O destino final de todos os esforços, caprichos, alegrias, dores, sacrifícios, preocupações e vaidades.

Ali estão os túmulos de alguns dos principais artistas, escritores, filósofos e cientistas que marcaram a trajetória humana. As inscrições tumulares dão alguma notícia do que fizeram. Na portaria, o interessado pode pegar um impresso com o mapa das sepulturas contendo informações sobre os ilustres falecidos.

Também é possível observar a reação das pessoas diante da morte de personagens famosos (e outros nem tanto, os estudos de dor, de que nos fala Balzac). Cartas, bilhetes, livros, flores, velas, objetos diversos são colocados nos túmulos.

Mas nenhum dos habitantes do Père-Lachaise é alvo de tamanha manifestação de afeto como Oscar Wilde, cujo túmulo foi coberto por marcas de beijos com batom ao longo do tempo. Sobre o assunto escrevi Oscar Wilde: o beijo proibido.*


photo: j.finatto. Père-Lachaise

Estão também sepultados no Père-Lachaise, entre outros: Chopin, Édith Piaf, Yves Montand, Proust, Jim Morrison, Paul Éluard, Sarah Bernhardt, Maria Callas, Isadora Duncan, Allan Kardec, Camus, Molière, Champollion, Modigliani, Pissarro, Dalacroix, Max Ernst e por aí vai. É um panteão a céu aberto. Vale a pena uma visita.


photo: j.finatto. Père-Lachaise
 
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Oscar Wilde: o beijo proibido:
 http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/12/beijo-proibido.html

Fotos de novembro de 2011.
Texto revisto, publicado antes em 30.12.12.
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

O texto de sábado

Jorge Adelar Finatto 

Pintura sobre fotografia de Balzac. Ano da foto: 1842.
Autor da foto: Louis-Auguste Bisson.
Fonte: Wikipédia.

 
4 horas da manhã e o texto de sábado ainda não chegou. As palavras fogem. Na ausência delas costumo ler, folhear um livro de pintura, ouvir música. Mas a essa hora não faço nem uma coisa nem outra. Espero a aurora.

4 horas, nenhuma palavra. Queria ter algo parecido com a volúpia de Honoré de Balzac (1799 - 1850), escrever com aquela exuberância, aquele vigor, aquele entusiasmo, aquela memória incrível e o fôlego sem fim.

Balzac escrevia pra pagar dívidas. Não fossem esses atrapalhos mundanos, não teria nos legado, talvez, A Comédia Humana (17 volumes). Os credores do escritor francês, sem o saber, deram ao mundo um gênio.

Claro, isso é uma redução talvez leviana, mas não é de todo despropositada. Balzac é um dos maiores autores que a humanidade conheceu,

No fim da adolescência, li as Ilusões Perdidas, sétimo volume da Comédia. Descobri um escritor absoluto, capaz de reconstruir e substituir a vida com palavras (na minha visão de então). Autor de uma obra que só o mistério do gênio pode explicar. Ao ler Balzac, nos perguntamos como um só homem foi capaz de escrever obra tão grandiosa, com tantos detalhes, realismo, imaginação e beleza.

Em algumas precisas linhas, a descrição do monumental escritor na palavra definitiva de Paulo Rónai: "Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência da inata vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes. Ouvimos-lhe a voz retumbante e a palavra fácil, a gargalhada grossa e a respiração ofegante."*

Visitando Père-Lachaise, o grande cemitério de Paris, hoje espécie de panteão a céu aberto onde estão os grandes de França, no qual se fazem visitas guiadas ou pessoais, como eu fiz, tirei essa foto do túmulo em precário estado do escritor. Esse cemitério foi um dos lugares de meditação de Balzac, que o considerava admirável para fazer "estudos de dor".

photo: j.finatto. Cemitério Père Lachaise, Paris.

Queria escrever um texto para postar no sábado. Menos, muito menos que um simples texto de Balzac, claro. Sempre penso no sábado como um dia especial, bom pra fazer coisas de que mais se gosta, entre as quais ler, um livro ou pelo menos uma página de blogue.

Apetece ler algo bom nesse dia diferente. Mas onde andará o texto que não vem para a página? Onde estão escondidas essas palavras que não afloram?

A essa hora faz muito silêncio, ainda mais que o tempo está nublado e úmido. Em breve os pássaros urbanos lançarão as primeiras notas do seu canto. Em Porto Alegre sinto falta das montanhas e dos pássaros de Passo dos Ausentes, do nevoeiro que cobre o Vale do Olhar e dos amigos que lá estão.  

Vou ver o sol nascer daqui a pouco na varanda do apartamento.  Enquanto isso mastigo umas fatias de pão torrado, tomando café.

Trato de recolher essas poucas palavras, antes que se dispersem no vento.

A luz amarela estica-se pouco a pouco sobre o Guaíba e o arvoredo, acordando os barcos e os ninhos. E os vivos para a vida.

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A Comédia Humana, volume I, Honoré de Balzac. Tradução de Vidal de Oliveira. Precedido de A vida de Balzac, de Paulo Rónai. Trecho extraído da pág. 12. Editora Globo, 2ª edição, revista, 1989, São Paulo.