domingo, 1 de junho de 2014

Estamos aí

Jorge Adelar Finatto
 
Os Cariocas. foto de Renata Massetti. a partir da esq: Neil,Severino,Elói,Fábio
 
 
Tem coisas que não se perdem. Não desaparecem no tempo. Vivem dentro de nós. Nos fazem bem e por isso queremos que fiquem sempre por perto. Viram sentimento.
 
O simples fato de existirem torna a vida melhor. Faz mais leve o nosso sofrer. Empurra a tristeza e a fuligem das horas pra depois.
 
Essas impressões me vêm após ouvir o cd Estamos aí, do conjunto Os Cariocas. Comprei na semana passada numa livraria em Porto Alegre. Coloquei pra tocar aqui em Passo dos Ausentes, nas tardes do escritório. Uma revelação.
 
Em sua décima formação, Os Cariocas são uma jóia da nossa música. O grupo vocal e instrumental gravou pela primeira vez em 1948. Severino Filho (1ª voz, piano e teclado) é o único que esteve em todas as formações. Os outros são: Elói Vicente ( 4ª voz, solos, violão e guitarra elétrica), Neil Teixeira (3ª voz, baixo elétrico e baixo acústico) e Fábio Luna (2ª voz, bateria, percussão e flautas). 
 
A maravilha deste trabalho, lançamento da Biscoito Fino, nos vem através de divinas harmonizações, em arranjos que beiram a perfeição (considerando que ela, a sempre buscada perfeição, não existe em nenhuma forma de arte).
 
Delicado, sofisticado, o disco é um sopro de renovação no ambiente musical do Brasil. Renovação? Sim, renova ao trazer uma releitura de notável qualidade de canções clássicas. São elas: Madame quer sambar (Joyce Moreno, Roberto Menescal e Carlos Lyra), Eu e a brisa (Johnny Alf), Januária (Chico Buarque), Que maravilha (Jorge Ben e Toquinho), Marina (Dorival Caymmi), Vera Cruz (Milton Nascimento e Márcio Borges), A noiva da cidade (Francis Hime e Chico Buarque), A felicidade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), O amor em movimento (Chiquito Braga e Ronaldo Bastos), Estamos aí (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck).
 
O disco conta com a participação de convidados especiais como Chico Buarque, Chiquito Braga, Felix Junior, Francis Hime, Hernane Castro, João Carlos Coutinho e Leny Andrade. 
 
Impressiona, desde logo, a felicidade que a gente sente ao ouvir Os Cariocas. Algo como andar de bicicleta pelas faixas do arco-íris. Percebemos que é isso que eles também sentem ao tocar e cantar. São de tirar o fôlego os arranjos.

Eles conseguem, por exemplo, fazer uma interpretação requintada e diferente de Que maravilha. Pra não falar de Januária, com Chico cantando com um fio de voz quase a capela. E o que dizer do sentimento em Vera Cruz? Todos os arranjos do disco são brilhantes e inesquecíveis.
 
No meio de uma realidade tão triste, pesada, violenta e trágica como a brasileira, onde linchamentos diários convivem com alta corrupção, Os Cariocas vêm nos lembrar que um outro Brasil existe, um país de alma encantadora (embora encabulado e em absoluta minoria neste momento).
 
O Brasil das pessoas trabalhadoras, sensíveis, criativas e honestas, que dão o seu melhor naquilo que fazem. Pessoas simples (a grandeza está na simplicidade), capazes de nos emocionar e nos tirar do fundo do buraco negro em que estamos vivendo.

Só por isso (ou por tudo isso) este disco merece figurar entre os mais importantes editados no Brasil nos últimos anos.
 
Os Cariocas nos devolvem um pouco do muito que perdemos em poesia, beleza, sossego e esperança num tempo melhor e mais feliz (pra todos) aqui na Terra de Vera Cruz.

Eu não acreditava que isso ainda fosse possível. Mas, com sua arte, Os Cariocas mostram que sim, ainda dá pra sonhar com o paraíso.
 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Camafeu sentimental

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. reflexos

Uma fotografia há muito tempo na gaveta é um achado. Ele já esteve nesse lugar. Nem sabe mais quando.
 
Uma velha casa de madeira entre pinheiros e plátanos. Um córrego esperto cantando ali perto. Pode ouvi-lo agora claramente. Na janelas laterais, floreiras com gerânios de variadas cores. O som côncavo do sino de bambu na varanda.
 
Lá dentro, em volta de uma grande mesa, pessoas se reúnem para o café da tarde. Um alarido de véspera de primavera. Deve ser início de setembro. O menino olha aqueles rostos iluminados.
 
O cheiro de pão feito em casa, no fogão de ferro, se espalha pela casa.

Em volta daquela mesa, retratos na parede. Dentro dos retratos o tempo parou. Em volta da casa, o mundo gira em lentas rotações.

O aroma de jasmim invade o ambiente. No quintal, caminha-se entre laranjeiras, caquizeiros, ameixeiras, romãs, pitangueiras, mamoeiros, parreiras, abacateiros.
 
O cinamomo florido abre os galhos perto do poço, o banco pintado de branco embaixo.

Há muito tempo ele não visitava a casa ancestral.

As buganvílias exalam azul e branco no jardim.

O gato dorme entre novelos de lã na cadeira de balanço.

Um dia recortado no tempo. Pessoas vivendo sem medo da separação. Cálida alegria.

A fotografia, camafeu sentimental.

Deve ter sido assim, num lugar assim, num tempo assim, ele foi feliz um dia, sem saber o que era felicidade.
 
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Texto revisto, publicado antes em 7, setembro, 2011.