quinta-feira, 5 de junho de 2014

Os buquinistas de Paris

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Catedral de Notre-Dame

Jamais me senti solitário nas margens do Sena.*
Ernest Hemingway

Um passeio interessante, em Paris, pra quem gosta de livros, é sair a pé pelas margens do Sena. Gosto de Paris no outono e começo a caminhada na altura da Notre-Dame em direção ao Museu do Louvre, com tempo para ir parando nas bancas de livros dos buquinistas (bouquinistes), os conhecidos vendedores de livros usados.

photo: j.finatto

Eles são muitos e estão instalados ao longo dos muros nas margens do rio, com suas bancas de cor verde. Dizem alguns que estão ali desde o século XVIII.

photo: j.finatto

Os alfarrabistas da beira do Sena fazem parte do cartão-postal da cidade. Seu pequeno comércio de livros velhos, cartazes e souvenirs habita a paisagem parisiense e se apresenta ao olhar atento ou distraído de qualquer pessoa, nativo ou turista.


photo: j.finatto

Em geral são gentis e há até aqueles que gostam de uma conversa à toa, dessas que fazem a gente se sentir em casa. Outros não toleram aproximações e censuram com veemência quem pára para tirar uma fotografia do local.

photo: j.finatto

O que se procura no buquinista? Ora, vamos ali buquinar, verbo que, no Aurélio, significa procurar livros em sebo, catar obras literárias, muitas delas fora de comércio. Uma busca que, às vezes, rende preciosidades. Um bouquin (livro) raro, talvez.

photo: j.finatto

Numa caixa encontrei e comprei um pequeno e encantador exemplar do livro Une Saison en Enfer (Uma estação no inferno), de Arthur Rimbaud, publicado em 10 de fevereiro de 1945, pela Mercure de France, trigésima primeira edição.
 
As 90 páginas estão já um tanto amarelecidas, mas em bom estado. A capa está coberta por um delicado e fino plástico incolor. O antigo proprietário tinha um carinho especial pelo volume. Sabe-se lá as estantes que percorreu até chegar no caixote verde. Um achado.

photo: j.finatto

Por essas e por outras, vale a pena passar uma tarde na beira do Sena, sem pressa, intercalando a missão de explorador literário com um cappuccino e uma baguete, na mesa de um aconchegante café, na calçada de preferência, se não fizer muito frio.
 
Como diz Hemingway, não dá pra se sentir só nas margens do Sena.

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*Paris é uma festa. Ernest Hemingway. Tradução de Ênio Silveira. Editora Bertrand Brasil, 15ª edição, 2011, Rio de Janeiro.
Texto revisto, publicado antes em 03 de maio, 2012.

terça-feira, 3 de junho de 2014

As frentes frias

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Vale do Olhar. 02/6/14
 

Em meio à difícil e, ao mesmo tempo, gratificante faina do pensar, sentir, ler, escrever, photografar, parei um momento para ouvir música instrumental. Foi a conta de ser feliz por um momento. Sentei na cadeira de palha perto da janela, fechei os olhos e deixei o mundo girar.

Uma vez, há muitos anos, perguntaram à atriz Tônia Carrero se ela se considerava uma pessoa feliz. Eu estava de passagem pela sala, um segundo, quase saindo de casa rumo à obrigação daquela tarde.

O programa de variedades televisivas não tinha para mim qualquer interesse, fosse pelo conteúdo, fosse pelo horário (início da tarde).  Enquanto bebia o último gole do cafezinho, ouvi de Tônia a seguinte resposta, mais ou menos assim: Eu sou feliz algumas vezes durante o dia.

Fiquei com aquela declaração da atriz na cabeça, dizendo pra mim mesmo que acabara de ouvir uma sábia síntese existencial. Ora, se até Tônia Carrero tem seus momentos de não-felicidade, o que dizer de nós, meros mortais, distantes dos palcos iluminados desta vida.

Isso foi o mesmo que dizer: dificuldades existem para todos, toda gente pode ser feliz em algum momento.

Em outra feliz percepção filosófica da condição humana (ou insight de livre-pensador, pouco importa) sentenciou o cantor e compositor Odair José ao cantarolar como quem não quer nada (dizendo muito): Felicidade não existe; o que existe na vida são momentos felizes.

Pois bem. Os passarinhos estavam comendo suas frutas na varanda do escritório. O Vale do Olhar, à distância, entre as montanhas, respirava azuis e verdes.
 
Parei para sentir, imaginar e viajar nas estradas da música e da paisagem. Fazia um frio danado na segunda-feira, o frio glacial que faz nos últimos 20 dias em Passo dos Ausentes, e que vem lá do fim do mundo, um frio polar enregelante que ajuda a pagar antecipadamente os pecados, os malfeitos, a limpar a ficha diante do Eterno.

Porque tem uma hora que o cristão precisa parar, sentar, ouvir música. Precisa sair do mundo, visitar pensamento e sentimento. Ser o espírito que, afinal, também se é.

A hora em que se necessita ficar longe de toda gente barulhenta, de todo ruído. Sim, sob pena de padecer eternamente, sem remissão, longe da inadiável transcendência, da doçura, do perdão.

Que não nos falte nunca a capacidade de voar sem levantar os pés do chão.

Porque há uma hora na vida que se tem de esquecer o absurdo, e sentar numa tarde de outono para olhar o vale e ouvir música, que é um jeito muito particular de habitar o sublime.