terça-feira, 15 de julho de 2014

Leitores da China

Jorge Adelar Finatto

Muralha da China. autor. Nicolas Perrault III. fonte: Wikipédia


O mundo é um lugar pequeno e ficou ainda menor com o advento da internet. A informação que antes se levava meses para conseguir, hoje é instantânea, com crescente grau de confiabilidade das fontes. 

Um toque no computador e conhecemos ambientes culturais nunca imaginados. A movimentação nas vias da rede é intensa e infinita. É difícil perceber por que as viagens começam e por que terminam.

Por exemplo, nos últimos 6 meses um fato chamou a minha atenção: o elevado número de acessos ao blogue provenientes da China. Iniciou lá por fevereiro e se estendeu até este mês de julho, quando praticamente desapareceu.
 
Não costumo me interessar por estatísticas, mas às vezes acompanho a viagem dos leitores a partir dos países de origem.

Quando os viajantes da China se tornaram diários e numerosos na minha estação de trem, fiquei a pensar quem seriam. Brasileiros vivendo naquele país, talvez? Estudantes chineses de português? Portugueses ou hablantes da nossa língua desterrados? Chineses que usam o tradutor do blogue? Vai saber.
 
Após 6 meses as visitas da China se encerraram, salvo um ou outro gato pingado. Entraram quietos e saíram calados. De qualquer modo, não causa espanto. Eventos deste tipo são relativamente comuns. Outros semelhantes já aconteceram com diferentes correntes migratórias.

Imagino os esforços dos leitores daquele antiquíssimo país para chegar a estas bandas dos Campos de Cima do Esquecimento. Começam por atravessar a Muralha da China e ainda encontram pelo caminho o abismo do Oceano Atlântico. Ninguém merece.

Resumo da ópera, raro leitor: nessa vidinha de blogue, num dia temos companhia, noutro ninguém aparece e falamos com as paredes. Como uma barbearia ou café de cidade do interior. Eu, o barbeiro e o dono do café sabemos bem o que é isso.
 
Se fosse pensar em números, tinha desistido há muito tempo. Não é isso que me move.

Na verdade não ando atrás de leitores. Gosto de partilhar a página com um leitor, o leitor, esse que está aqui e agora. Não um número, mas uma pessoa. Essa é a razão de ser do blogue.

O resto são nuvens.
 

domingo, 13 de julho de 2014

O bálsamo alemão

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto. Memória


Lá na velha casa da minha infância, todas as dores do mundo curavam-se com óleo de rícino e bálsamo alemão.
 
O óleo de rícino tinha um cheiro e um gosto insuportáveis, a gente se escondia para não tomá-lo. Mas a fuga era em vão. Os adultos eram implacáveis. Uma hora tínhamos de sair do esconderijo e ingerir o líquido nauseante.

Isso acontecia uma, duas vezes ao ano. Atribuía-se ao óleo poderes de limpar o aparelho digestivo. O resultado era imediato nos intestinos.

O bálsamo alemão tinha um cheiro forte característico que, pra mim, era agradável. Usava-se para tratar as vias respiratórias, mas acho que também era utilizado como protetor geral do organismo.

O avô alemão, com quem vivi até os 6 anos, recorria sempre a uma dose do bálsamo toda vez que um mal-estar se apossava de alguém da família. É um medicamento caseiro muito antigo que veio com os imigrantes da Alemanha para o Brasil.

Eram panacéias para os males do corpo. Um ou outro salvava o doente em sua penação.

O mundo era mais simples, as doenças também. Morria-se de velho, na minha visão de guri. Não havia enfermidades incuráveis, só mal-estares passageiros. Acreditava-se nisso e aí residia talvez o segredo de uma existência mais leve e feliz.

Havia também os chás, cujos aromas impregnavam a casa. Cidreira, cidró, macela, funcho, maçã, camomila, hortelã, limão, laranja e mil outros. A farmácia caseira era um arsenal invencível. A doença e a morte passavam longe dela, respeitavam seus cânones, sua tradição, seu poder.

Quando algum novo membro da família vinha ao mundo, era um grande acontecimento. Desde os primeiros momentos, beneficiava-se dessa medicina de fundo de quintal comum em todas as famílias.

Nascia-se, em geral, em casa mesmo, com jurisprudência de parteira. Eu também vim à luz pelas mãos de uma parteira, dona Noca. Nascer era simples assim.

A menina que me deu o primeiro beijo, essa forma particular de nascimento, disse que ia contar ao avô que nós íamos nos casar. Amar, viver, ser gente não eram coisas do outro mundo.

E, no fundo do pátio, passava o Arroio Tega cantando suas canções.