domingo, 8 de novembro de 2015

O concerto do sabiá-laranjeira

Jorge Adelar Finatto

sabiá-laranjeira. foto de Dario Sanches, São Paulo, 2006
fonte: Wikipédia
 
O mundo está povoado de barulhos. Principalmente o mundo das cidades grandes. A incômoda orquestra de automóveis, caminhões, motos, britadeiras, máquinas, etc., é fonte de constante mal-estar. Viver no interior é uma maneira de fugir disso e de outros demônios, como estresse, poluição, violência.
 
Nas cidades pequenas vive-se melhor. Que o digam os sabiás-laranjeira. Quando vou a Porto Alegre, ouço vizinhos reclamando que os sabiás estão acordando e cantando muito cedo na nossa rua e arredores.

De fato, a cantoria inicia por volta das 2h30min. No começo se ouve o canto solitário de um, depois se junta outro e outro e mais outro, até que se forma um coro de muitas vozes em direção ao amanhecer. É bonito.
 
Um pesquisador, num programa de televisão, disse que, nas pequenas cidades, eles começam a cantar só lá pelas seis da manhã. Segundo afirmou, o canto do sabiá é uma forma de atrair a fêmea. Devido ao barulho das cidades grandes, eles se veem obrigados a cantar no inicio da madrugada, único jeito de ser ouvidos pelas companheiras.

Portanto, antes de reclamar dos pássaros, devemos fazer o mea-culpa. Nós conseguimos desregular até o horário do canto dos sabiás com nossos barulhos. E ainda reclamamos.
 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Anônimo amigo

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Tem um homem desesperado
que passa há séculos
na frente da minha porta

nunca conversamos
mas nossos olhos
se entendem

algum dia marcharemos juntos
rumo aos cata-ventos do sol

__________

Poema do livro Claridade, Jorge Finatto, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.