quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A pintura do entardecer

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto, 30/12/2015


Estava chegando no escritório, depois de subir a íngreme escada Santos Dumont, quando o espetáculo do entardecer se anunciou pelas janelas, emoldurado a sul e oeste. Uma aquarela finíssima e delicada.
 
Bela pintura, imemorial e primitiva, criada para embelezar a vida de quem habita o planeta. Saí à varanda e comecei a fotografar com a emoção provocada pelo deleite estético.
 
O fotógrafo é um imitador. Nada faz além de registrar aquilo que outro criou. Neste caso, o autor é Deus. A Ele se devem todos os direitos autorais. E um grande agradecimento, nestas últimas horas do ano.
 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O apito do trem noturno

Jorge Adelar Finatto
 
trem da extinta Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Canela. photo: jfinatto
 
O trem noturno passava altas horas. A casa toda tremia. A casa da tia ficava perto dos trilhos. No pátio havia os cinamomos em flor. E o seu perfume iluminava as noites de novembro.
 
O noturno soltava o apito de aviso, "limpa trilho", porque havia naquela altura uma passagem cruzando a estrada de ferro. Onde aquele trem ia parar ao amanhecer? eu me perguntava. Em São Borja, em Santa Maria, em São Francisco de Paula? Ou quem sabe na gare distante da estrela Antares? O certo, porém, é que vinha das bandas de Porto Alegre.
 
Às vezes, de uma janela acesa alguém olhava em direção à casa da tia, verde, larga e comprida, no alto da colina. O observador era um passageiro que perdeu o sono talvez. O que veria? Nada além das poucas luzes dos postes. A cidadezinha inteira dormia. Nela não havia sequer estação de trem.
 
Eu ficava acordado até a hora do noturno passar. Os outros habitantes da casa ressonavam.

Viajar de trem pelo meu país foi um dos meus sonhos de guri. Mas o governo acabou com os trens de passageiros no Brasil. Uma entre tantas decisões inexplicáveis, à luz do bom senso, que atrasaram por décadas a Terra de Vera Cruz.

Acredite: este país continental não tem trens de passageiros. As poucas exceções são os metropolitanos, muito ruins por sinal e de itinerário reduzido, nas cercanias de algumas capitais.

Um dia, para amenizar a saudade, embarquei num comboio em Lisboa. Era por volta de 16h de um dia de inverno. Ao anoitecer ele ingressou na Espanha. Não dormi a noite toda. Da minha janela acesa, não queria perder nenhuma das estações.

Uma mistura de melancolia e ternura eu senti ao atravessar de madrugada as pequenas cidades. Ao amanhecer, na fronteira com a França, houve troca de trem em direção a Paris, onde desembarquei em torno de 15h.

Foi uma viagem sentimental por cidadezinhas esquecidas no mapa. Como aquela da casa da tia, por onde passavam trens que nunca paravam.