quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Viagem a Jungfrau (e a uma cidade secreta)

Jorge Finatto
 
montanha e vale de Jungfrau, Suíça*
 
Como em toda véspera de viagem, há uma ansiedade diante do desconhecido, embora a mala esteja pronta e tudo ou quase tudo esteja planejado. A sequência dos movimentos, como em uma sinfonia, ou num bom samba, está descrita nas páginas brancas do calepino. Mas há espaço para o inesperado e algum improviso.
 
Há algo que escapa ao controle numa viagem, felizmente. Na verdade, o controle é mais ilusório que real. E nisso muitas vezes residem as descobertas e alegrias do viajante. O avião levanta voo à noite. Depois de 11h35min pousa em Zurique. Zurique do Cabaret Voltaire onde nasceu o Dadaísmo há 100 anos, movimento artístico que hoje retorna.
 
Então fui ontem à livraria buscar leitura para as horas entre nuvens até a Suíça. Resolvi comprar outro livro de Oliver Sacks, tal a impressão que me causou seu Gratidão aqui comentado esses dias. Desta vez pesquei da estante O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Relatos de casos curiosíssimos envolvendo o cérebro humano. Nos ensaios o autor transcende o fato médico, dando-lhe feição literária. Acima de tudo, uma visão humana de pacientes e seus dramas. Para Sacks, o doente é sempre um ser humano e não uma coisa.
 
Levo também Como curar um fanático, de Amós Oz. E a indefectível Coruja (ex-máquina fotográfica, quase um ser humano).
 
No caminho uma parada na montanha de Jungfrau, perto da cidade de Interlaken, onde se situa a mais alta estação ferroviária da Europa Ocidental, a 3.571 metros de altitude.
 
E a visita a um amigo que vive numa cidadezinha alpina quase secreta, cuja população é de 156 almas! Ele me pergunta se eu viveria num lugar assim. Mas é claro. Nada de muito diferente para quem vive em Passo dos Ausentes.
 
Carrego na bagagem olhos de observador ávido e um coração disposto a sentir. Deus vai junto, claro.
 
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*site da photo:
 

sábado, 23 de janeiro de 2016

O salto no perau

Jorge Finatto

photo: jfinatto

A história de voar pendurado num guarda-chuva é muito antiga nos Campos de Cima do Esquecimento. Começou muito antes do livro e do filme de Mary Poppins.

Criou-se entre nós uma modalidade de voo que só existe nessa região do mundo: o salto de guarda-chuva no perau. Acontece há séculos no mês de novembro, com a chegada dos ventos de Finados com sua capacidade de sustentação de objetos voadores.

Os praticantes do salto não são poucos. Dirigem-se ao Belvedere da Ausência com suas umbrelas construídas por mestres na arte de fazer guarda-chuvas flutuantes.

Os umbreleiros verificam então as varetas, a lubrificação das junções, a higidez do material, o tecido e a segurança da estrutura. É necessário apresentar também um atestado de saúde. Uma vez aprovados piloto e objeto, segue-se a  apresentação ao supervisor de rampa para o pulo.

Depois, é só aguardar a autorização e lançar-se no espaço com as duas mãos seguras ao cabo. A flutuação é pra ser suave e dura cerca de 20 minutos até o Campo dos Girassóis no Vale do Olhar. No transcurso o piloto percorre 1,5 km precipício abaixo. Dizem - eu nunca experimentei, não sou louco - dizem que  a visão de quem faz o trajeto é maravilhosa, inesquecível.

Numa aldeia com poucas opções de lazer como a nossa, o salto no perau é certamente uma das atividades mais cultivadas. Além disso, é imemorial o apreço dos ausentinos pelos chapéus-de-chuva. 
 
Entre nós, um guarda-chuva fechado é sinônimo de mau agouro. É como uma pintura de Van Gogh virada contra a parede. É a Gioconda, de Leonardo, sem o famoso sorriso. É Dom Quixote indo sozinho pela estrada sem o Sancho.
 
Ninguém deve andar pela vida sem a proteção física e filosófica de uma umbrela. Nos dias de chuva e tristeza, porque chove e estamos tristes; nos de sol, porque faz sol e viver é o melhor que existe.