sexta-feira, 1 de julho de 2016

Violência na praça

Jorge Finatto
 
porto de Porto Alegre, vista parcial. photo: jfinatto

No sábado (25 de junho), fui ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, para o lançamento de um livro. Não costumo freqüentar o Casco Velho da cidade, perto do porto, por uma razão bastante triste: tenho medo de ser assaltado (o que seria de menos) e levar um tiro de bandidos que atuam na região.

A Praça da Alfândega e suas cercanias constituem cartão-postal da capital do Rio Grande do Sul, lugar histórico, berço social e cultural da cidade. Não por acaso ali estão órgãos importantes como o Margs e a Casa de Cultura Mario Quintana.

Naquelas ruas e passeios vi gente como Mario Quintana, Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu, Rubem Braga, Carlos Reverbel, Paulo Hecker Filho, Jorge Amado, José Cardoso Pires, entre tantos. Na praça se realiza, anualmente, na primavera, a Feira do Livro de Porto Alegre.

No entanto, nos últimos 30 anos o lugar vem se degradando, transformando-se na coisa lamentável que é hoje: uma área desumanizada e muito perigosa.
 
A motorista de táxi que me levou recomendou cuidado na travessia da praça até o museu. Disse que naquele trecho ocorrem diversos assaltos a cada dia, e que isto não espanta mais ninguém.
 
Fiquei uns 50 minutos no Margs, comprei o livro e fui embora. Com receio fiz o percurso de volta até encontrar um táxi numa rua próxima. Policiamento não vi nenhum. Encontrar policiais nas ruas é coisa raríssima em Porto Alegre.

O problema nem é ser despojado dos poucos bens materiais, mas perder a vida, como infelizmente tem acontecido diariamente nas ruas. Porque aqui os bandidos não se contentam mais em subtrair o patrimônio das vítimas, querem também a sua vida.

O mais perverso é que internalizamos o medo e perdemos a liberdade e a alegria de andar pela cidade. Difícil manter a saúde mental num ambiente assim. E desta forma vamos vivendo (?) no Brasil.
 

domingo, 26 de junho de 2016

Só, pero no mucho

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Eu caminhava pela rua na noite de verão. Era numa praia do sul*, soprava uma leve brisa do mar. Muita gente nas ruas, casais de mãos dadas, casas com amplas varandas, pessoas conversando em cadeiras preguiçosas. Eu ia só, dando uma volta no quarteirão. De repente senti um solidão danada em meio a toda aquela beleza. Me deu um nó na garganta. Não sabia o motivo, afinal tudo estava bem.
 
Tive a viva impressão de estar só no universo, mesmo estando cercado de pessoas, num lugar de descanso e convivência. Havia uma paz sólida diante do mar. E eu numa solidão cósmica. Mas não era uma solidão triste. A vontade de chorar que eu sentia não era por estar sozinho. Mas por participar, de alguma maneira, da vida. Simplesmente isso.

Eu pertencia àquele grão de pólen chamado Terra, perdido na bruma de estrelas, com seus seres, suas histórias, seus destinos. Aí pensei nos poetas, músicos e em todos esses que fazem de sua solidão um hino de amor à vida para que outros dela possam participar com mais encanto e verdade. Sim, eu estava vivo.
 
A sensação de pertencer à raça humana me enchia de felicidade. As pessoas com suas diferenças, seus dramas, seus sonhos, seus defeitos, suas culpas, seus mortos, suas incríveis qualidades, suas mãos dadas, sua incontornável solidão.

Então segui caminhando pela rua e depois outra e mais outra e outra. Até que desapareci na paisagem. Feliz, sufocando de felicidade, cheio de gratidão por ser um a mais no cenário, andando numa noite de verão.
 
Infinitamente só e acompanhado, irmão das estrelas, dos que conversam nas varandas, dos que andam de mãos dadas, dos que caminham sozinhos pelas ruas, irmão de todos os seres que respiram no mundo. Parte de tudo isso, membro da grande família das coisas criadas. 
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