domingo, 14 de agosto de 2016

A sombra da esfinge

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 14.8.2016
 

COMO ELE NUNCA teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro, nem ouro, nem diamante, nem qualquer outra, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros de sua idade. Na rua e na escola, as pessoas faziam perguntas, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço, uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu pela vida. No dia dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos seus sonhos e pesadelos.

Um dia descobriu que muitas outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que, na realidade, não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.

Os sem pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o mundo funcionar. São pais e mães de seus filhos.

Na verdade não chegava a ser um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação social. Sim, falta o pai afetivo em grande parte das famílias brasileiras. Às vezes, havendo pai, é como se não existisse, por falta de aptidão para o papel.

Por causa disso, muita gente é seqüelada, inclusive eu - ele pensa enquanto caminha com o filho pela mão, na praça do bairro, na tarde de domingo.
 
Pra ele, agora, todo dia é dia dos pais.
 
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Texto revisto, publicado em 16 de maio, 2013. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Livro da solidão (parte I)

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Solidão
não é
uma ilha

solidão
são muitas
ilhas

solidão
amarela
do girassol

solidão
verde
da couve-flor

solidão
indecente
do corpo

solidão
unânime
dos juízes

solidão
na fila
do amor

solidão
na fila
do pão

solidão
na fila
do emprego

solidão
na fila
da justiça

solidão
na fila
da fila

solidão
decomposta
do morto

solidão
batom vermelho
da garota de programa

solidão
manta de lã
na mansarda

solidão
mais real
do presídio

solidão
do radinho
de pilha

solidão
atrás
da porta

solidão
atrás
da janela

solidão
atrás
do óculos

solidão
em ascensão
no elevador

solidão
no fundo
do espelho

solidão
na tarde
de inverno

solidão
de quem ficou
na estação

solidão
do avião
sobre o mar

solidão
todas as cores
do domingo

solidão
do espanto
de existir

solidão
de quem diz
tchau

solidão
de quem ouve
adeus