sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A música espiritual de Myriam Alter

Jorge Finatto
 
Myriam Alter*

FAZ ALGUNS ANOS  encontrei o disco Where is there (2007) da compositora e pianista belga Myriam Alter. Desde então está entre meus álbuns favoritos. Não me canso de ouvir. Parece que as músicas nunca são as mesmas.

Trata-se de artista de talento original e brilhante. Há algo de espiritual e misterioso em sua obra. As melodias dialogam com a interioridade de quem as ouve.
 
As músicas de Myriam são refinadas, líricas e sedutoras ao mesmo tempo. Com elas viajamos por desconhecidas esferas e para dentro de nós mesmos. O jazz se faz presente em sua arte, mas existem outras influências.

Há uma aura de estranhamento nessas adoráveis e por vezes hipnóticas composições. Piano, contrabaixo acústico, sax, acordeom, flauta, bateria, entre outros, criam uma  infinita dança de notas que se entrelaçam no ar.
 
A artista não produz em grande quantidade, no que faz muito bem. Ao contrário, prima pela qualidade. No site oficial encontrei seis discos. No youtube há peças de tirar o fôlego, como as dos discos If (2002) e CrossWays (2015). A inspiração e a construção altamente elaborada andam juntas em seu trabalho.

Não sei onde Myriam Alter vai buscar seus sons de diamantes e galáxias distantes. É um segredo. Mas o que importa é que, no retorno, ela nos entrega o melhor e mais profundo de sua viagem às estrelas e ao fundo do coração.

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Myriam Alter, site oficial:
http://www.myriamalter.com/
Myriam Alter, "If":
https://www.youtube.com/watch?v=-s5HNoooXEA 
*Myriam Alter: Cross Ways
http://jazzdagama.com/cds/myriam-alter-cross-ways/ 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O calepino de Dante

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Venezia


O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.
 
O VENTO geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode as placas na rua, portas, janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo.
 
Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua. Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.
 
Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

photo: jfinatto. Venezia

Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.

Neste território pequenino existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.

Canal veneziano. photo: j.finatto

Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.

Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.

Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.

(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)

O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.

O medo de morrer não encontra asilo nessa hora quase solene.
 
Nem tudo é solitude nesses caminhos.

Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.

Um tempo de busca-vida, este.

Esta página, notícia do invisível.
 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 10/12/12.