sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Partir ou ficar

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

2018 foi um dos anos mais difíceis. Acredito que a maioria dos brasileiros está exausta com tudo que se passou de ruim nos últimos tempos. Milhares foram embora e tantos outros continuam indo todos os dias em busca de uma vida melhor em outro país.

A sensação que se tem é de que não há saída nessa escuridão. E a vida não acontece no futuro, mas hoje, agora. É preciso tomar decisões, comer, vestir, sustentar filhos, buscar um lugar ao sol, ser um pouco feliz. E o nosso país, infelizmente, só tem produzido sombra na vida das pessoas.
 
Ninguém mais suporta notícias de corrupção e gestão ruinosa. O Brasil virou o país do não, principalmente do não à esperança. Há um imenso cansaço.
 
Seu eu fosse jovem, possivelmente buscaria outros horizontes. Entendo a busca dessas pessoas. Mas mudar de país não deixa de ser um salto no escuro. O mundo todo está em convulsão. As crises humanitárias ocorrem em diferentes partes, são milhões à procura de um lar, de um trabalho, de paz para viver. Por outro lado, aumenta a xenofobia nas nações mais desenvolvidas.
 
Seja como for, nem todos podem recorrer ao aeroporto para resolver suas vidas. A maior parte da população terá de tentar melhorar as coisas aqui mesmo, cobrando honestidade, competência e medidas concretas daqueles que assumirão o governo a partir de 1º de janeiro de 2019.

Se o novo governo for honesto como se espera, os problemas mais graves serão resolvidos. Mas mudar o Brasil não é tarefa para um só homem ou para um só governo.
 
Tornar o país um lugar para todos e não para poucos privilegiados é trabalho enorme pela frente. Começa pela cabeça de cada um, pelo próprio coração. Mudando maus hábitos e maus sentimentos. Respeitar as leis, cumprir as obrigações, sem "jeitinho" ou embustes, olhar o próximo como irmão e não como inimigo... Quem sabe não é assim que construiremos um lugar decente para viver. 
  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os últimos mistérios do mundo

Filipe Penaverde

túmulo de Rilke em Rarogne, Suíça. photo: jfinatto

Iniciamos hoje a publicação da coluna "Os últimos mistérios do mundo" do senhor Filipe Penaverde. O blog não se responsabiliza por opiniões estapafúrdias do escritor ausentino.


EU TAMBÉM já fui escritor mimoso, eu também já fui candidato ao Prêmio Nobel. Os meus dois leitores amontoavam-se com sofreguidão na porta da única livraria de Passo dos Ausentes, disputando cada novo livro de versos com meu nome estampado na capa.

Naqueles quandos eu tinha de reservar um dia inteiro na semana para atender a insaciáveis jornalistas do Correio Ausentino e da Rádio Ausência.

Esgotado com a faina literária, viajava a Paris. Da janela do meu humilde estúdio, avistava os barcos que iam e vinham pelo Sena enquanto centenas de flashes fustigavam meus olhos exaustos de tanto frenesi em torno de minha obra.

Os sinos de Notre-Dame feriam de melancolia meus moucos ouvidos.

Os convites para jantares e palestras pseudo artístico-intelectuais acumulavam-se sobre minha escrivaninha sem que pudesse atendê-los. A vida social e cultural de um escritor bem sucedido é fatigante na Cidade Luz.

Um dia cansei da celebridade. Retirei oficialmente a candidatura a Nobel de Literatura. Dizem que houve frisson na Academia Sueca. Esses suecos sempre tão suscetíveis.

Hoje vivo na pasmaceira de Passo dos Ausentes. Ninguém me procura e, se procura, não me acha. Desisti da vida literária. Só me importam os livros e os versos que construo em surdina. Passo maior parte do tempo na mansarda. Vivo esse entrementes na casa do entretanto.

Converso com meus fantasmas conversas de antigamente. Falares de tempos mortos.

O que mais sinto é falta de Cléria, não vou negar. Ela sumiu no mundo cansada de me esperar das noitadas de autógrafos. Dizem que foi viver em Rarogne, aquilo sim um fim de mundo onde o gato perdeu as botas. Dizem que passa as tardes lendo poemas de Rilke, sepultado ali ao pé da igrejinha.

Eu aqui, em osso e carne, nesses confins, sem Nobel, sem Paris, olhando a vida da mansarda. Esperando a volta de Cléria. Enquanto ela me trai com o fantasma sedutor de Rilke.

A vida é uma esculhambação.
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Filipe Penaverde é poeta e secretário da Sociedade Literária, Filosófica, Artística, Histórica, Geográfica, Astronômica, Antropológica, Musical e Antropofágica de Passo dos Ausentes. Ex-candidato ao Prêmio Nobel.