quarta-feira, 6 de junho de 2012

Histórias do fim do mundo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Nas antigas noites da Rua São João, os habitantes colocavam cadeiras na calçada.  Conversavam sobre o passado maravilhoso e o fim do mundo que estava próximo. Era uma maneira talvez de suportar o vazio daquela vida onde nada acontecia. 

Uns diziam que o mundo ia acabar em fogo. Um incêndio de proporções planetárias calcinaria os seres e todas as coisas.

Outros afirmavam que tudo ia terminar em água. Uma chuva, fininha no início, iria aumentando de volume até que ondas gigantescas mergulhariam a Terra em trevas de profundeza, onde nem os peixes sobreviveriam.

Do que Miguel observa e sente, o mundo ao redor está ruindo sem gritos nem estrondos. Como uma escultura de areia abandonada no vento da praia.

Um dia percebeu que continentes de memória e afeto desapareceram com os moradores que, como ele, emigraram para outras cidades.

Atlântidas à deriva num mar de esquecimento.

A passagem voraz do tempo erigiu ausências no coração de Miguel. Ele próprio está fora de contexto. Como uma fotografia que alguém recortou.

Em certas noites de insônia, ele acende a lamparina para espalhar claridade na escuridão da rua da infância.

As portas e janelas estão cerradas. Os habitantes da Rua São João flutuam no espaço. Ninguém mais sai para ouvir as histórias do fim do mundo embaixo das estrelas cadentes.

Às vezes, uma porta se abre vagarosamente. Um menino surge. Toma a mão de Miguel e anda a seu lado pela rua noturna onde ninguém mais vive.

Até que a aurora vem e o menino desaparece. Miguel segue seu caminho, deixando atrás a rua perdida. 

domingo, 3 de junho de 2012

Textos rasgados

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Um dia desses fiz uma incursão por papéis escritos há muito tempo. Estavam dentro de envelopes num canto do armário. Sem remorso, rasguei quase todos. Não havia ali muito a salvar.

Não significa que aquelas páginas foram inúteis. Ao contrário, considero indispensáveis como exercício da expressão escrita. Com seus defeitos, abriram caminho para outras tentativas e acertos.

Não tenho o dom do texto instantâneo. Preciso de um tempo para reler e reescrever. As palavras necessitam respirar para se acomodar entre si. Como abóboras na carroça.

Por isso, gosto de deixar um pouco na gaveta para criar certo distanciamento.

Escolher entre o que fica e o que deve ser rasgado não é fácil. Começa que o criador está envolvido emocionalmente com a sua criatura e é cruel descartar um filho (pais sempre acham os filhos bonitos).

Neste processo, o rigor excessivo é tão prejudicial quanto a autocomplacência. A arte está em encontrar o equilíbrio.

A busca da perfeição (que não existe) pode levar a enganos como a poda demasiada dos ramos dessa árvore, a autocrítica impiedosa. Essa atitude não deixa espaço para a criação.

É difícil e sinuoso o percurso da escrita, mas nisso está também a sua beleza.

A última palavra é sempre do autor. Mas a opinião de alguém em quem confiamos, com "bom olho", ajuda muito na revisão e seleção de textos.

Escritores importantes estão aí para provar que não existe um tempo certo para começar a escrever e publicar. Cada um tem seu tempo. Entre os grandes autores que surgiram para a literatura já na idade madura, encontramos José Saramago e Cora Coralina.

O que não se pode, em qualquer caso, é desanimar. Temos de acreditar que ainda vamos conseguir escrever aquilo que queremos da forma mais bela. E isso acontecerá talvez na próxima página ou na manhã seguinte.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios.

Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se reuniam para o café da tarde.

Até os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou descalço sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios, o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

________________

Texto publicado em 1º de julho, 2010.