terça-feira, 28 de março de 2017

O machado e o sândalo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


COISAS QUE CARREGAM UM POUCO de mim: o apito do trem chegando na estação, o apito do navio deixando o cais de Porto Alegre, o som da caixinha de música com bailarina girando. O sorriso da antiga namorada dizendo: que bom que vieste.
 
O galo canta de manhã cedo, eu chegando na casa do avô depois de muito tempo. O abraço. O bule de café, o leite quente, o pão feito em casa, o queijo, o salame, a chimia, a nata. A mesa posta na varanda. Na parede o quadro com a inscrição: o machado fere o sândalo que o perfuma. Vida ingrata. Vida boa.
 
A carreta do velho de capote preto e chapéu cinza passando na Rua São João. A garoa de abril turvando a janela da mansarda. Tudo vivo, pulsando, distante.

Um dia todas as memórias serão presente. Não haverá oblívio nem saudades. Um dia o machado compreenderá que ferir quem só lhe faz bem é maldade pura, e maldade destrói também quem a faz.  Um dia o sândalo poderá viver e perfumar sem medo de ser cortado. E as pessoas se olharão nos olhos.
 

quinta-feira, 23 de março de 2017

The mysterious Mr. F

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Para ser lido ao som de Koto Song, de Dave Brubeck
 

A man walks in the wind
A man walks in the beach
A man and his shadow
A man and his dark solitude
A man and his luminous hope...

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Koto Song, Dave Brubeck:
https://www.youtube.com/watch?v=pvB_ZNtOb4E
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Visitante

Jorge Finatto

outono. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

sábado, 18 de março de 2017

Senhor do tempo

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto

SER DONO do próprio tempo é um privilégio de poucos. É algo raro. E também assusta, às vezes, porque é preciso saber o que fazer com o tempo. Embora a vida seja curta, os dias são sempre longos. Mas eu vejo como um enorme presente que a vida nos oferece. Chegar com saúde a esse estágio é uma felicidade que vem de Deus. Quantos, infelizmente, não conseguem?

A literatura e a fotografia, que eram atividades quase clandestinas, passaram à ordem do dia. Poder dialogar com os habitantes das praças, ainda que em silêncio, é um luxo. Enfurnar-se em sebos e livrarias, sem medo de perder a hora, beira a maravilha.

Ler e escrever em paz, fazer um bom café às três da madrugada, dormir perto do amanhecer. Escutar os pássaros depois de acordar, nas árvores da redondeza. Fazer o contrário do que sempre se faz, sem culpa. Fazer o que sempre se quis. Tudo isso uma beleza. Mas é, antes de tudo, uma conquista de décadas de trabalho e compromisso. Agora eu vou contar quantos cocos tem esse coqueiro em Arraial d'Ajuda.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Passos e traços

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
NADA ALÉM de alguns rastros na areia. Nos idos de março, a comunidade de veranistas rareia. Antes era uma multidão de passos em todas as direções, uns sobre os outros, a perder de vista. Depois vieram os ventos de março e foram apagando, um a um, os traços, levando-os para outros espaços.
 
No próximo verão, outros rastros, outros pés, outros passos se desenharão diante do mar, marcando reencontros e o calor de abraços.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto

O que é da praia, em março, já sem rastros? Solidão sob o sol.
 
Sem a presença dos teus passos, o mar recolhe os braços.

photo: jfinatto


sábado, 11 de março de 2017

Kant à beira mar

Jorge Finatto 

Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto
 

TODO VIVENTE devia ter uma rede baiana e uma água de coco pra se aconchegar. O mundo seria outro. Não haveria tanta maldade, nem tanta tristeza, nem tanta grossura.
 
A filosofia, na Praia do Mucugê, aqui em Arraial d'Ajuda, é outra. Do outro lado do Atlântico tem a África. Do lado de cima do mar, o céu azul-infinito. Daqui da cadeira de praia, vejo a linha do horizonte com seu bordado de nuvens.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Por todo canto, lonjuras, palmeiras, coqueiros, gente sossegada olhando o movimento dos barcos e das ondas.

Kant, se tivesse vivido em Arraial, escreveria que o imperativo categórico é suco de cupuaçu, mar quebrando na praia e caipirosca.

Praia do Mutá, Bahia. photo: jfinatto

Praia do Mutá. photo: jfinatto

Devir é quando o sol se levanta, no fim do oceano, a cada amanhecer.
 
Sartre, por seu lado, teria ensinado que o inferno não é o outro, mas a sombra que ele projeta em nosso pedaço de areia.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Ortega y Gasset conceberia que eu sou eu e minha praia. Não existe filosofia nem felicidade longe daqui. Fora deste lugar habita o caos.
 
O resto, bem, o resto se vê depois. 

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Saudade da Terra Brasilis

Jorge Finatto

índios em Porto Seguro. photo: jfinatto

DIZEM QUE quando Cabral chegou nestas terras, em 22 de abril de 1500, o lugar era um paraíso. E decerto era. Como não seria? Ainda hoje percebem-se, em Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e arredores, vivos sinais de natureza (fauna e flora) e a resiliente presença do homem autóctone, o índio (atualmente o Pataxó), que vão resistindo, a duras penas, à multissecular invasão de seu território.

Nesta região, os treze navios da esquadra cabralina aportaram depois de Cabral avistar e dar nome ao Monte Pascoal (a cerca de 62 km ao sul de Porto Seguro). A Carta de Pero Vaz de Caminha, dando notícia do "descobrimento" a El Rey Dom Manuel, é um documento precioso do ponto de vista histórico e literário. Nela está presente a visão eurocêntrica do Novo Mundo. É o início da colonização e dos graves equívocos que começariam logo em seguida.

A palavra descoberta encoberta, no mínimo, um imenso eufemismo: já havia seres humanos habitando o lugar, povos indígenas com sua rica cultura e um modus vivendi em profunda integração e equilíbrio com a natureza.

Os navegadores portugueses encontraram um continente já povoado (com imensas áreas ainda por ocupar) e harmonioso (a Terra Brasilis, antes da chegada do europeu), até então livre de doenças terríveis trazidas do Velho Continente e da tentativa de dominação pela religião e pela força bruta. (Em Santa Cruz Cabrália foi rezada a primeira missa, em 26 de abril de 1500).

As cidades aqui do sul da Bahia são velhas como o Brasil e, como ele, muito jovens. Afinal, o que são 517 anos de história para uma nação ainda em formação?

Igreja N.S. da Conceição, Santa Cruz Cabrália, Bahia. photo: jfinatto
 
De qualquer modo, é tempo suficiente para praticamente exterminarem os povos indígenas, os habitantes originais, com quem temos tanto a aprender. A natureza, com este mar incrível e seus rios, persevera nos campos, florestas e sertões, mas não se sabe até quando. Um triste exemplo é o modo de ocupação e devastação da Amazônia. Uma ocasião sobrevoei a floresta e fiquei impactado com a fumaça das queimadas que vinha lá de baixo numa enorme extensão. 

A Terra Brasilis nunca mais seria a mesma depois de 1500. Mas é preciso ser claro: nos últimos 200 anos a destruição da natureza e a falta de perspectivas para os índios e o restante da população são obra autoral de brasileiros. Em conluio com forças do atraso e da corrupção dentro e fora da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Porto Seguro

Jorge Finatto

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá!
Dorival Caymmi
 
De passagem por Porto Seguro, sul da Bahia, colhi estas imagens. Elas comprovam que Caymmi tem razão, é preciso conhecer e viver a Bahia.
 
fotos: jfinatto
 
 
 
 
 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abóboras, figos, galos e infância

Jorge Finatto
 
fotos: jfinatto, 02 de março, 2017

UM DOS ENCANTOS de vagabundear pelas estradas da serra, além da visão afundada dos cânions e abismos, é parar nas tendas de beira de estrada. Elas oferecem ao freguês toda sorte de verduras, legumes, frutas, doces, compotas, pães, etc. E são uma dádiva para os olhos.
 
 
Viajando ontem a Porto Alegre, parei numa delas, na altura de Nova Petrópolis. Comprei um cesto de uvas que impregnou a caminhonete com aquele cheiro divino.
 
Mas também levei uma abóbora de pescoço e morangas, sim, belas e nédias morangas verdes e cor-de-laranja (ou cor-de-abóbora...). Também peguei melões e figos, que nesta época estão no auge da doçura.
 
 
Pra completar a cena interiorana, do outro lado da estrada, numa sombra, um galo cantou várias vezes. Era uma tarde ensolarada, por volta de 16h, e ele queria era soltar a voz.
 
Deus, como tudo isso traz de volta a infância...
 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Essa alegria toda

Jorge Finatto

desfile do Boi Tolo, Rio - Marcia Foletto / O Globo 
 
Tanto riso, oh, quanta alegria
mais de mil palhaços no salão
 
Zé Keti, em Máscara Negra, marchinha de carnaval
 
ESSA ALEGRIA toda nos blocos de rua do carnaval e penso que é bom que assim seja, as pessoas se divertindo numa festa coletiva como não há igual. Alegria num tempo de absoluta aflição e poucos motivos para festejar.
Um dia considerei o carnaval uma festa para alienados. Não acho mais. Todo mundo precisa de um instante de fuga da realidade. O que são a literatura e a arte senão isto, uma busca desesperada de alheamento do real?
A vida a frio é muito difícil. O ser humano precisa de sonho e invenção. O carnaval revela o lado lúdico, faceiro, brincalhão e tribal de que tanto precisamos.
O problema não está na “alienação” dos festins de carnaval. O nosso desastre é não conseguirmos essa mesma união para mudar o que precisa ser mudado no país, a fim de que todos possam ser um pouco mais felizes durante o ano inteiro.
Não é sendo tristes que vamos melhorar o Brasil. A alegria é transformadora. Viva, pois, a festa, abaixo a melancolia! E que, na volta à realidade, encontremos forças para transformar as coisas, dentro e fora de nós.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto

 
E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará no coração?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador do casarão abandonado na Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instante que não se deixa apagar. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher que não se perdeu graças ao registro.
 
Pequena eternidade que não se esvaiu no oblívio.

Plaza Constitución. 13/02/2015. photo: jfinatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 14 fev. 2015.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O escritório no rodamoinho

Jorge Finatto
 
Campos de Cima do Esquecimento. photo: jfinatto


O ESCRITÓRIO é nave. Navega em mar revolto entre os dias e as estrelas. Presente, passado, futuro. Tempo, perpétuo pêndulo. Perdido, vivido, esquecido. Tempo de passagem, tempo de viagem, tempo de espera, tempo de fugazes eternidades. Lugar de achados incríveis. Semeadura, rota escura, colheita. Os bons momentos, esses que se vivem fora dos calendários, quando o tempo para e nos libertamos do açoite da ampulheta. A vida é tudo misturado. Rodamoinho.

Escritório onde habita o eremita e o doido aventureiro. O texto não é a vida em si, mas uma bela imitação. O mundo possível no interior do caos. Enquanto a nave navega, atravessa distâncias impossíveis, reconcilia ausências, a palavra se tece como um fio azul, se desprende do novelo e vai pelo espaço entre as estrelas até mergulhar na escuridão do cosmos, no sem fim do pensamento-coração. O escritório é álbum de recordações de um tempo que já não volta. Caderno onde se anunciam dias de explorar caminhos e contar histórias. Urgente amanhecer.
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encher o saco de Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes*
                        Heitor Saldanha

 
AS BARBARIDADES que o ser humano faz todos os dias contra os semelhantes (?). Seremos nós um ato falho da criação? Fico pensando nessas coisas que me perseguem desde os tempos do Dilúvio.

Está escrito em Gênesis 6: 5-8: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempo. E Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração.

"De modo que Jeová disse: "Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até  a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito." Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová."

O Dilúvio veio, chovendo durante quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo, salvo Noé, sua família e os animais que levou junto na famosa arca. A vida recomeçou.

A solidão e a tristeza de Deus me comovem. Não se sentirá Ele muito sozinho, sem ter com quem conversar, em tempos de tanta maldade e incompreensões como agora? Terá o Criador alguém com quem desabafar nas horas difíceis?
 
Estou me referindo àqueles dias em que Ele olha para a Terra e assiste ao deplorável espetáculo que continua sendo apresentado por homens e mulheres.

Como se sente um Pai ao ver os filhos nos descaminhos da perversidade e do sofrimento, sem falar na solene indiferença ao outro? Deve ser profundamente doloroso.

Por isso gosto muito do poema de Heitor Saldanha em epígrafe, que bem resume essa perplexidade. Um texto dilacerante, dos mais belos já escritos por um poeta.
 
Espero que Deus perdoe a minha intromissão em seus assuntos de foro íntimo. Ainda mais partindo de um grão de areia como eu.

O pensamento é o parque de diversões de filósofos, poetas e outros seres inúteis. Essa gente que passa os dias obstinada em encher o saco de Deus como se o Criador não tivesse mais o que fazer.

Eu aqui nessa puta solidão cósmica a querer falar da solidão do Todo Poderoso. Tem gente que não se enxerga.
 
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*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, p. 49. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974.