segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sótão, porão e assombração

Jorge Adelar Finatto
 
Vale do Olhar. photo: j.finatto
 
Leitores costumam perguntar se os textos que escrevo sobre Passo dos Ausentes têm um fundo de realidade ou são apenas páginas mal ajambradas de ficção.
 
Suspeitam que os Campos de Cima do Esquecimento são um território mítico, habitado por seres imaginários que brotam de uma mente que funciona aquecida à beira do fogão a lenha e que se deleita no estranhamento.

Passo dos Ausentes é um lugar abandonado ao sul do mundo, que nem sequer está no mapa do Rio Grande do Sul. Somos poucos. Somos invisíveis. Temos uma história que começa com a destruição dos Sete Povos das Missões.

Algumas famílias de índios guaranis e uns poucos jesuítas fundaram o povoado. As casas eram de pau a pique e barro, cobertas com capim-santa-fé. Vieram fugindo do massacre movido contra os missioneiros por espanhóis e portugueses, em 1756, durante a Guerra Guaranítica, de tristíssima memória.

Depois dos fundadores aqui chegaram pessoas de outras etnias (africanos, judeus, árabes, ciganos, etc.), todas tendo em comum uma história de violência e perseguição.
 
Quem se importa com isso, raro leitor? Nem o governo tampouco, que se nega ao reconhecimento político da cidade (por sem-razões que maltratam a inteligência e a sensibilidade das pedras).

E assim vamos vivendo. Os jovens cedo vão embora em busca de um futuro. Os vetustos resistem. A solidão nos devora e nos une. Mas não perdemos tempo com lamentações, porque amamos a vida assim mesmo com suas trampas e lágrimas.

A cidade existe e, apesar de tudo, nela ninguém passa necessidade, pelo contrário. Os serviços básicos nos orgulham. A estação de trem está abandonada desde 1950. Mas nela está localizado o famoso Café da Ausência onde se toma o melhor café colonial da serra gaúcha.

A Sociedade Filosófica, Literária, Histórica, Geográfica, Artística, Antropológica, Astronômica, Geológica, Esportiva, Recreativa e Antropofágica é nosso órgão de governo e deliberação.

Não temos aviões, mas temos alguns balões e até dirigíveis. Lampiões de gás alumiam as ruas esquecidas. Somos poucos.

As nuvens são nossas testemunhas.

Ingmar Bergman esteve aqui em 1958 após filmar Morangos Silvestres. Fez amigos, como não? Ficou três meses. Dizem os mais velhos que chorou na hora de partir, do mesmo modo que Oscar Wilde, conforme aqui já relatado. Disse que ia voltar, mas isso não aconteceu.

A casa que o cineasta sueco ocupou, com a frente voltada para o Contraforte dos Capuchinhos, está como ele deixou. Com vários de seus pertences, inclusive a câmera que ele utilizava e três latas de filmes filmados nessas montanhas. Ninguém toca em nada. É patrimônio espiritual.
 
Quem dera tudo isso não passasse de um delírio de uma mente carcomida pela invenção! Uns transportes d'alma, como diz o nosso poeta Farandolino Brouillon. Mas não, ai de nós.
 
Ficção, estimado leitor, é o que se vive na duríssima realidade.
 
Passo dos Ausentes, território de gentes e voláteis falantes, perdido nas álgidas alturas dos Campos de Cima do Esquecimento. Esta é a cidade. Somos invisíveis.

Os fantasmas andam sobre os telhados, sentam nas soleiras das velhas casas. Caminham pelas ruas e praças com suas roupas antigas, suas mantas, seus olhares distantes, seu silêncio. Aqueles que gostam de ler e filosofar passam as tardes no Café da Ausência, conversando entre si sem dizer palavra e mirando o Vale do Olhar.
 
Este é o mundo onde vivo e escrevo, raro leitor. Recolho as histórias dos seres que povoam esse pequeno universo. Sou apenas o confidente de um mundo em extinção e seus habitantes.

Escritos disparatados em que almas do outro mundo conversam com os vivos, afirmam com galhofa os doutos e os de pouca fé. Pois é o que eu digo: todas essas criaturas pertencem ao mundinho que é, afinal, toda a Terra.
 
Sou apenas o interlocutor, o escrevedor, a antena torta que capta essas vibrações. Se não resgatar esse mundo da sombra e do oblívio, quem o fará?
 
O único personagem de ficção que povoa essas histórias é o autor dessas mal traçadas.

O inverno é feito de espessas neblinas, vultos, remorsos, folhas secas, memórias. E esperança. Sim, esperança. E uma pitada de canela no chá de maçã.

O que não está escrito não existe. É o que me dizem as estrelas no seu quintal de infinito, é o que eu sinto vivendo no farelo das horas. Como se alguém se importasse com essas migalhas.
 
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Texto publicado em 26 de junho, 2014. 
Histórias de Passo dos Ausentes. Registro na Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura, Escritório de Direitos Autorais, nº 663.190.

domingo, 21 de dezembro de 2014

No tempo do Cine Vogue

Jorge Adelar Finatto
 
Retratos de Ingmar Bergman. fonte: site oficial*
 
Teve um tempo em Porto Alegre que assistir a filmes de Ingmar Bergman (1918 - 2007) era uma religião. O diretor sueco era o pastor de almas de muita gente por aqui, principalmente estudantes, intelectuais,  perdidos na vida e trânsfugas em geral.
 
Era na época da ditadura civil-militar. Eu andava pelos 19 anos em 1976. O general Geisel era o presidente de plantão com o apoio de parcela da sociedade civil brasileira e parte da imprensa. Os direitos e garantias individuais estavam fora da ordem jurídica. Ter ideias e opiniões diferentes dos que ocupavam o poder configurava crime do pensamento. Sim, muito parecido com o "1984", de George Orwell.
 
Nos regimes em que a escuridão vigora, as nuances são proibidas e qualquer sutileza é vista como inimiga. Todos são suspeitos (de alguma coisa) até prova em contrário. Era assim.

O Cinema Vogue, na Avenida Independência, era, como os demais de então, um cinema de rua. Tinha uma programação especial, considerada "cabeça". Um território de resistência em meio à repressão, assim como os bares da Esquina Maldita. 
 
A delicadeza era uma ilha deserta a mil milhas do continente.

O nórdico Ingmar Bergman não tinha nada a ver com a ditadura no Brasil. Não sabia que era o pastor daquelas almas abismadas em voos interiores e travessias espirituais.

Não sendo possível mudar a realidade, muitos buscavam outras claridades. Havia um mundo intangível a ser descoberto, onde os donos do poder e os emissários da morte não entravam.
 
Apesar da pobreza material em que eu vivia, e do escasso tempo para os assuntos do espírito, apreciava os itinerários bergmanianos através da consciência, da memória e, sobretudo, do inconsciente. A manhã seguinte aos filmes de Bergman era sempre o cru desafio da luta pela sobrevivência.

O Brasil de então era e, sinto dizê-lo, ainda é um lugar onde reina uma grande violência social baseada na exclusão e na indiferença. O acesso às coisas da arte continua um privilégio para poucos.

O país conseguiu livrar-se da ditadura, mas não logrou o mesmo com a corrupção, responsável direta pelo atraso e pelo sofrimento da maioria. A dita esquerda tomou o poder central, mas as práticas continuam as mesmas, e em algumas situações pioraram muito como evidenciam os escândalos de grossa corrupção dos últimos anos.
 
Devo dizer, também, que gostava de filmes de Teixeirinha e Mazzaropi, que assistia em outras salas tidas como menos cult, do povão. Havia um grande preconceito das classes média e alta, principalmente entre universitários, em relação a esses filmes brasileiros. Uma coisa idiota como todo preconceito.
 
Essas lembranças me vêm porque andei revendo Morangos Silvestres (1957) e Fanny e Alexander (1982), duas obras-primas do grande cineasta. Me lembrei de mim e de nós. Da vida que foi e da que poderia ter sido. Da vida que passou, tempo finito.

Olhei com esperança para a vida que é e para a que vem vindo logo ali.
 
Viver pode até ser difícil para quem leva o coração entre as mãos, sem omiti-lo nas suas ações e decisões. Mas é infinitamente melhor do que ser mais um a roubar, a dar porrada, a pisar na cabeça dos outros, a destruir a vida alheia, a não ter valores.
 
Muita gente se perdeu no caminho em sinistras direções. Eu inventei tempo para a poesia e a arte em minha vida e tentei/tento compartilhar isso. Foi e é uma maneira de não me perder e de não enlouquecer em meio a uma realidade tão absurda, desumana e violenta como a do nosso país.

Ave, sentimento.
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Site Oficial de Ingmar Bergman:
Os direitos humanos em Cuba:
Texto publicado em 12 de agosto, 2014.
 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O guardião da cidade-fantasma

Jorge Adelar Finatto
 
Shigeru Nakayama. photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Airão Velho é uma cidade em ruínas, nas margens do rio Negro, perdida na floresta amazônica. Nasceu em 1694 como Santo Elias do Jaú, primeira povoação daquela região ribeirinha, no atual Estado do Amazonas. Algumas décadas depois da fundação, portugueses mudaram-lhe o nome para Airão Velho.
 
Cidades-fantasma não são propriamente raridades no Brasil. Nós que vivemos aqui em Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento, sabemos bem o que é isso.
 
Não é por essa razão que Airão Velho virou notícia na Folha de São Paulo por esses dias*. Após o auge, durante o período do ciclo da borracha (final do século XIX, inícios do XX), foi gradativamente se esvaziando.

Na década de 1960, os últimos moradores partiram por falta de opção econômica e se estabeleceram a 100 km do local, na hoje Novo Airão, distante 120 km de Manaus.

O que restou da antiga cidade é cuidado pelo imigrante japonês Shigeru Nakayama, 65 anos, que vive ali sozinho num casebre há 13 anos.
 
Ele sobrevive da pesca e de uma horta que cultiva nas cercanias do rio Negro, sem nenhuma ajuda do Estado no trabalho de conservação. As ruínas e objetos que fizeram parte da vida da comunidade são poucos e Shigeru assumiu a missão de dar-lhes guarida, antes que desapareçam:
 
- Não quero abandonar isso aqui, tenho paixão por esse lugar, disse ele ao enviado especial da Folha, jornalista Lucas Reis.
 
A história do guardião remonta ao ano de 1964, quando desembarcou no Brasil, aos 16 anos, em Belém do Pará, com os pais e mais três irmãos. Vinham de Fukuoaka, no Japão. Um dia foi convidado por uma integrante da família Bezerra (importante em Airão Velho), ex-moradora, para cuidar das ruínas. Ele aceitou a tarefa e começou a recolher remanescentes históricos, formando um pequeno museu em sua casa. Na época de finados, limpa o cemitério. A patroa morreu em 2012, mas ele continua firme, cuidando e preservando o lugar.
 
photo: Bruno Kelly (Folhapress)
 
Segundo Shigeru, o local é conhecido internacionalmente e recebe turistas, principalmente estrangeiros, além de pesquisadores. "Não restou quase nada, mas tem muita história", afirmou a Lucas.
 
Conforme a reportagem, sobraram poucas coisas: uma casa de comércio, uma residência, o cemitério, uma escola, restos da igreja construída em 1702.

O pedido de tombamento está sendo examinado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tomara que a resposta não tarde e seja positiva.
 
A matéria da Folha, revelando o zelo do japonês em plena floresta amazônica, traz a idéia de que o mundo é quintal de todos, independente da nacionalidade e do lugar onde a pessoa resolve viver. Shigeru cuida daquele torrão brasileiro como se tivesse nascido lá. É uma relação de amor com a terra, com a memória dos que lá viveram, com a história da velha e extinta cidade.
 
Aquilo que para muitos seria motivo de insuportável solidão, para o imigrante é razão de realização e orgulho.
 
Essa história demonstra que o que vincula um indivíduo a um lugar é o sentimento e o compromisso que tem em relação a ele.

A consciência de pertencimento é coisa de coração e mente, não de papéis oficiais. São atitudes como a de Shigeru Nakayama que fazem a diferença entre a conservação e a destruição da Amazônia (e do próprio planeta).
 
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Folha de São Paulo, edição digital de 29/12/2013. Reportagem do enviado especial Lucas Reis com fotos de Bruno Kelly (Folhapress):
Texto publicado em 02 de janeiro, 2014.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pastéis de Belém, Farta Brutos, marialva, etc.

Jorge Adelar Finatto
 
mapa no Museu da Marinha, Lisboa. photo: j.finatto

A tarde de chuva me levou ao bairro de Belém, em Lisboa, para degustar mais uma vez os famosos Pastéis de Belém e beber a costumeira taça de café com leite. Como sempre, a casa estava muito movimentada. Como sempre, o atendimento é dos melhores. Como sempre, turistas de vários países, a malta brasileira em bom número.
 
Os Pastéis de Belém só se encontram neste lugar, em nenhum outro, assegura o funcionário. O que se vende nas outras pastelarias são pastéis de nata, esclarece, sem desfazer deles. São diferentes apenas. Eu acho os de Belém mais refinados.
 
photo: j.finatto, 12.02.2014
 
Caminhei, depois, à extensão do Mosteiro dos Jerônimos onde estão os restos mortais de Fernando Pessoa, Vasco da Gama e outros grandes da história portuguesa. Fui em direção ao Museu da Marinha, que visitei há quase um mês. No trajeto, mulheres de vestidos compridos vendem lenços coloridos aos passantes.
 
A exposição de barcos verdadeiros, muitos deles históricos, fez a minha alegria de bicho das águas. Voltei hoje pra procurar uma lembrança na lojinha náutica que existe ali ao lado. Encontrei um pequeno sino dourado de convés de navio que vai para o convés do meu escritório em Passo dos Ausentes.
 
Na segunda-feira jantávamos com amigos portugueses no Farta Brutos, restaurante de cozinha tradicional portuguesa no Bairro Alto. Entre os freqüentadores históricos, Jorge Amado, José Cardoso Pires, José Saramago, só pra mencionar alguns. Sentamo-nos à mesa preferida de Saramago, na qual existe uma placa recordando o freguês ilustre, Prêmio Nobel de Literatura de 1998.
 
Farta Brutos. photo: j.finatto, 10.02.2014

A conversa ia animada com garfadas no prato de bacalhau, o vinho tinto celestial (cujo nome não sei porque foi escolha do amigo, me distraí e não reparei no rótulo). Até que ao falar em livros, literatura, escritores, pintores, fadistas, etc., surgiu no meio a palavra marialva, que esses ouvidos nunca tinham ouvido. Fulano era um marialva, alguém disse.
 
Pelo rumo da prosa, marialva é o indivíduo namorador, rabo-de-saia, amigo da noite, boêmio. Não é uma delícia?

Um dado interessante mencionado por Francisco Oliveira, proprietário do restaurante. Aquele edifício foi um dos que escaparam da destruição durante o grande terremoto que destruiu parte de Lisboa em 1º de novembro de 1755.
 
Uma notícia de hoje, mais uma que ilustra a crise que o país atravessa: 21 licenciados moram nas ruas de Lisboa. Gente que fez curso universitário e não encontra saída (profissional, pessoal). É duro.
 
A crise está em toda parte.
 
O mundo dos grandes navegadores portugueses era pequeno e se conquistava numa caravela.

Hoje é infinito e ninguém se entende.
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O barbeiro de Fernando Pessoa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.pt/2011/03/o-barbeiro-de-fernando-pessoa.html
Texto publicado em 12 de fevereiro, 2014. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O barco abandonado

Jorge Adelar Finatto
 
Bote Abandonado, 1850. Frederic Edwin Church.
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid. photo: j.finatto
 
Tive vontade de entrar no barco da pintura e sair por suas águas em viagem. Ou melhor, continuar a viagem, já que amanhã é dia de levantar âncora e ir adiante. Hoje foi dia de visitar o Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. Terminei a visita ao acervo permanente que comecei e não completei em 2007. Nos próximos dias começa no museu uma exposição de Cézanne que promete.
 
O Bote Abandonado do pintor americano Frederic Edwin Church (1826-1900) mexeu comigo.

Acho que vi nele transfigurado um momento de grande solidão do artista. Ou a minha própria solidão. Ou as duas. Sei lá. É uma solidão de menino triste, olhando o outro barco lá adiante com gente dentro, conversando e passeando. Sentimento, sentimentos.
 
Faz um frio seco, em contraste com os quase 35ºC de quando saí de Porto Alegre. Estou hospedado numa rua chamada Calle de Los Libreros. Se disser que escolhi a dedo o lugar, estarei desprezando o acaso, que foi quem de fato me trouxe a este hotel. Bem, o fato é que, mesmo estando a menos de 100 metros da Gran Vía, aqui é silencioso.
 
E a ruazinha é cheia de livrarias, um paraíso para qualquer bibliófilo. Encontrei dois livros do poeta catalão Salvador Espriu (1913-1985), uma descoberta recente e rara de que já falei no blog.
 
São edições bilíngües, catalão-espanhol. Um dos livros intitula-se La Piel de Toro, Editorial Lumen, Barcelona, 1983, tradução ao espanhol por José Agustín Goytisolo. A maioria das páginas ainda está grudada, vou procurar uma espátula ou abra-cartas para abri-las.
 
Há os seguintes versos de um poema, numa folha livre, que dizem:
 
Pouco a pouco saíam
do porto esguias barcas
de esperança.
 
Sim, que sejam carregadas de esperança as barcas que partirem do nosso porto.

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Os passos do andarilho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.es/2013/12/os-passos-do-andarilho.html
Texto publicado em 03 de fevereiro, 2014.
 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Milonga del Ángel

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto
 
 
Habitamos entre nuvens. Os ventos nos açoitam nos Campos de Cima do Esquecimento em sua louca debandada em direção ao fim do mundo.

Juan Niebla fez o convite para ouvi-lo tocar seu bandoneón. Estamos agora na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. O concerto intitula-se Milonga del Ángel, música de Astor Piazzolla, leitmotiv da nossa reunião.
 
Talvez porque hoje é sábado, e domingo é um dia agonizante, celebramos a vida escutando músicas que tocam fundo nosso coração.

Niebla é cego, guardião da memória da cidade junto com Don Sigofredo de Alcantis, o filósofo.

Estamos no Café dos Ausentes que é o que restou da velha estação. Fechamos os olhos, escutamos  a melodia que emana dos dedos magros e ágeis de Juan.

As mãos do cego apalpam o invisível, ressuscitam sonhos e emoções.

Iniciamos a nossa charla após o concerto, como de costume.
Diz Niebla:

- Imaginem uma cidade espiritual, em que os ancestrais vagueiam em silêncio pelas casas e ruas, vivem nos antigos retratos, nas cartas guardadas no fundo de gavetas, sobrevivem na memória dos poucos que ficaram. Isso é Passo dos Ausentes.

- Para onde nos levam os caminhos entre as estrelas, Juan? - indaga Don Sigofredo, piscando o olho em minha direção.

- Não pense que não percebi a piscadela, quimérico amigo. Nunca duvide das antenas deste velho morcego. Mas já que pergunta, na verdade não sei aonde levam aqueles caminhos. Tu és o filósofo, quem sabe nos iluminas com algumas respostas, esforçado tradutor do intangível.

- Sou só um músico cego numa estação de trem abandonda esperando o comboio fantasma que vai levar-me um dia por trilhos desconhecidos. Por enquanto sou música e sou fraterno encontro e estamos todos vivos, graças a Deus.

- Também ando pela vida à procura de respostas -, continuou Niebla. - Ouçamos o que nos disse o nunca suficientemente lembrado poeta e filósofo Hölderlin, no seu Fragmento de Hipérion*:

"Interrogo as estrelas e elas permanecem mudas. Interrogo o dia e a noite, mas eles não respondem. De mim mesmo, se me interrogo, entoam apenas sentenças místicas, sonhos sem interpretação".

A solidão é o que mais nos une nesses encontros. Estamos sós na beira dos penhascos. Caminhamos para o oblívio.

Acreditamos em anjos, nos reunimos, nos consolamos. Entre nuvens.

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* Hipérion ou O Eremita na Grécia. Friedrich Hölderlin. Tradução, notas e apresentação por Marcia Sá Cavalcante Schuback. Forense, Rio de Janeiro, 2012.

Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público, ocupa o cargo desde 1940, na estação de trem abandonada da cidade. Tem 89 anos, é cego desde os 15.

A cidade perdida: as origens:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/cidade-perdida-as-origens.html 
 
Texto publicado em 18 de janeiro, 2014. 

sábado, 13 de dezembro de 2014

O epitáfio de Rilke

Jorge Adelar Finatto
 
túmulo de Rilke. Rarogne, Suíça. photo: jfinatto
 
Concluí ontem os Estudos Rilkeanos, em Sierre e arredores, na Suíça, cátedra que eu mesmo criei e da qual sou, até o momento, e provavelmente serei no futuro, o único aluno.

Pela tarde, com a neve cobrindo os tênis, depois de descer do trem vindo de Sierre, andava eu no pequeno cemitério da cidadezinha de Rarogne, na frente da igreja, atrás do túmulo e do famoso epitáfio do poeta. Rilke (1875-1926) foi sepultado em 02 de janeiro de 1927 ao lado da igreja e não entre os outros túmulos, por sua própria escolha (morreu em 29 de dezembro de 1926 numa clínica em Valmont, cercanias de Montreux).
 
Velha igreja de Rarogne, Suíça, ao lado da qual Rilke está enterrado
photos: j.finatto, 27.01.2014

O poeta tomou todas as providências relacionadas com sua morte, para a qual se preparava fazia algum tempo, porque sofria de leucemia, doença, naquela época, fatal, ao contrário de hoje.

Ele gostava muito de estar na velha igreja silenciosa situada na encosta dos Alpes em Rarogne. Amava o ar e a luz daquele ambiente. Determinou que o túmulo ficaria ao lado da igreja, com uma deslumbrante mirada dos alpes e dos vales a seus pés.

Na frente da igreja está o cemiteriozinho. O lugar se localiza a cerca de 400, 500 metros acima dos telhados. Lá se chega por uma estrada íngreme, a pique, entre casas perdidas no tempo.
 
Túmulo de Rilke. photo: j.finatto
 
Por duas ou três vezes escorreguei e quase fui ao chão entre as sepulturas. Desnecessário dizer que não havia mais ninguém na rua naquela hora, salvo um ou outro vulto, tal o frio e a neve que doía na cara. Mas Deus é pai e protegeu esse pobre cristão do pior, que podia ser cair lá de cima.
 
A capela e o cemitério estão bem no alto e, ainda assim, não ficam nem perto da metade do caminho até o topo das montanhas que se erguem em ambos os lados do vale, na cordilheira que vai ao infinito. Os Alpes, mais ou menos como o Contraforte dos Capuchinhos em Passo dos Ausentes, não têm fim...
 
photo: j.finatto
 
Em Rarogne se fala o alemão e depois o francês. Eu não encontrava o túmulo, não havia jeito. Não tinha ninguém, aparentemente, na igreja e nem na casinha ao lado que pudesse dar uma informação. Li e não entendi o mapa fixado na parede. O cérebro naquela altura estava congelando com o resto do corpo. Até que surgiu uma criatura pela estrada montanha abaixo. Saí do cemitério e fui em sua direção.
 
photo: j.finatto
 
O bom homem se assustou ao constatar que eu saíra das catacumbas. Fiz sinal para que se acalmasse, eu ainda era um ser vivente. Conseguiu entender o que eu queria e, num francês com forte acento germânico, me indicou onde estava o túmulo, isolado, ao lado da igreja.
 
Enfim, está aí o registro, com o epitáfio-poema belíssimo e misterioso.
 
Epitáfio de Rilke. photo: j.finatto
 
Rosa, ó pura contradição,
volúpia,
de ser o sono de ninguém
sob tantas
pálpebras.*

Do muito que vi e aprendi nesses dias rilkeanos compartilharei oportunamente com os leitores.

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*Tradução de Manuel Bandeira, em sua Antologia Poética, Livraria José Olympio Editora, 7ª edição, Rio de Janeiro, 1974.
O poeta Rilke e o menino: um encontro:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/01/o-poeta-rilke-e-o-menino-um-encontro.html
Rilke na gelada e pacata Sierre:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/01/rilke-na-gelada-e-pacata-sierre.html
 
Texto publicado em 28 de janeiro, 2014. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A carreta cósmica

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

O mundo visto de cima de um carro de boi é diferente. Não é o mesmo que se vê de uma bicicleta, um ônibus, metrô, barco, automóvel, balão ou avião.

O andar da carreta é outro, diverso é o seu olhar.
 
Em Passo dos Ausentes, havia muitos carros de boi antigamente, que aqui também chamamos carreta. Era meio de transporte de pessoas e de carga por estradas de chão batido e caminhos pedregosos.
 
A velocidade do mundo era menor. Naqueles dias, os tempos eram longos e as conversas também. Dava para experimentar o sabor de cada fruto, associá-lo a um nome e a uma estação do ano.
 
Havia tardes de chuva mergulhadas no silêncio, na leitura, no cochilo, na imaginação.

Olhos negros e claros cismavam nas janelas. Que mundo era esse lá fora, como seria a vida amanhã? A preparação dos doces caseiros espalhava delicados cheiros pela casa.
 
Andar de carreta era uma maneira diversa não só de deslocamento como de observar e interpretar a existência.

O homem que vê a vida tendo a carreta como ponto de mirada não é o mesmo que se movimenta em máquinas velozes.
 
Nos Campos de Cima do Esquecimento ainda se encontram carretas. Faz algum tempo encontrei uma em bom estado, no Vale do Olhar, construída no distante 1953. Resolvi comprá-la e coloquei-a no jardim.

Ela aparece na foto, tendo ao fundo, ao centro, Monsieur Jardin du Bonheur, o espantalho que faz a alegria dos passarinhos. As aves fazem ninhos nos seus bolsos e no chapéu de palha.*

O meu carro de boi está sempre pronto pra partir. Em certos dias, quando a vida perde a graça, eu subo nele e vou dar uma volta pelo cosmos com Monsieur Jardin.

O sobe e desce entre as nuvens, a gente sacudindo lá dentro, a evolução do vôo pela atmosfera e depois uma esticada até o infinito.

Voamos entre as estrelas, passeamos perto da Lua, paramos em Órion para ver a chuva dos meteoros cintilantes.

Aproveito para visitar os amigos que partiram em suas carretas de luz e nunca mais voltaram. Conversamos e rimos juntos. Depois eu me despeço e volto pra casa.

Ao retornar da viagem, sinto o coração pulsar outra vez.
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Texto publicado em 25 de março, 2014. 

Mário Cesariny


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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Os 10 mais lidos em 2014

Jorge Adelar Finatto

Recordar é viver, já dizia o filósofo (?). Se a recordação é das boas, vive-se duas vezes.

Pensando nisso, a partir desta sexta-feira (12/12) serão publicados os 10 textos mais lidos no blog em 2014. Será uma crônica/artigo por dia, com a respectiva ilustração. O primeiro texto será A carreta cósmica.
 
A idéia é reunir um pouco do que mereceu a atenção dos leitores da página elétrica.

Um resumo do nosso convívio diário.
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O sonho do eremita

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Estávamos ontem à tarde no Café da Ausência falando da vida. Depois de tocar Adiós Nonino, de Astor Piazzolla, no seu bandoneón, Juan Niebla teceu algumas lembranças. Atrás dos óculos escuros, olhando um ponto indefinido a frente, como quem olha o pôr-do-sol no mar, contou:

- Sei que tem muita gente festejando a chegada do sol no hemisfério sul. Não lhes tiro a razão. Um banho de mar apetece, uma cerveja gelada. Conversas até tarde na varanda. Não faço isso há bem uns cinqüenta anos.
 
- Acontece que fui me invernando com a cegueira, fui me restando à beira do fogão a lenha, fui me silenciando nessas montanhas. Quase um eremita, um eremita tocador de bandoneón.
 
- Eu gosto de frio, de neblina, de coisas antigas. Acho que todos nós gostamos. Querem me ver feliz? Então basta abrir uma dessas cartas escritas há muito tempo para ouvir as notícias. Guardo comigo no baú de família uma carta escrita em 1915 pelo tio Alberto, que lutou na 1ª Guerra Mundial pelo exército francês. Às vezes peço para Don Sigofredo relê-la pra mim.
 
- Ele escreveu a carta com um toco de lápis de grafite muito negro numa trincheira. Foi num intervalo da carnificina. Contava aos irmãos que estava escuro e chovendo. Tinha acendido um pedaço de vela para escrever. Via clarões de relâmpagos nos campos. Pedia desculpas por não poder voltar para o Natal. Tinha perdido o melhor amigo morto com um balaço na cabeça. O sangue do companheiro ainda estava no seu uniforme.
 
- Não sabia se voltaria a Passo dos Ausentes, o que mais queria e sonhava todas as vezes que conseguia cochilar. Fazia frio, chovia e a lama cobria os caminhos. Ele sentia-se um eremita naquela solidão. A guerra era uma coisa terrível e sem o menor sentido. Havia homens bons que mereciam voltar para suas famílias nos dois lados da trincheira. Mandava beijos carinhosos a todos e muitas saudades.
 
- A carta foi encontrada no bolso do casaco, ele não teve tempo de mandar. O governo francês enviou-a para a família depois que a guerra acabou junto com seus objetos pessoais. Acompanhou um ofício de reconhecimento pelos serviços do jovem tenente que morreu em combate nos últimos dias de 1915.
 
- Com o tempo o coração vai invernando. As massas polares invadem a alma. Esse mundo não tem porta nem janela. É uma grande caverna na escuridão. Por isso eu gosto de sentir o vento que vem do Contraforte dos Capuchinhos, sentado na poltrona perto da janela, enrolado no capote do tio Alberto. Eu sei que depois das montanhas vêm as falésias e o oceano. Do outro lado, debaixo de uma cruz singela, cochila o tio Alberto entre seus camaradas, sonha com o retorno aos Campos de Cima do Esquecimento.
 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Uma fada no front

Jorge Adelar Finatto

Rio Guaíba e Porto Alegre. photo: j.finatto

 
Mas também não avisam nada! Foi por acaso que eu notei: a primavera chegou. Olho pela janela e vejo um céu esbranquiçado e murcho. Na água cinzenta do rio arrasta-se uma chata de carvão. E um débil mormaço faz a cidade quase feia. Ah, mas não tem importância. Leio no cabeçalho do jornal: terça-feira, 26 de setembro de 1939. Assim, pois, a primavera chegou, e é de meu dever digirir-lhe as saudações de praxe.
                                                 Rubem Braga, Uma fada no front *

Esses dias falei sobre o livro O lavrador de Ipanema, seleção de crônicas de Rubem Braga (1913-1990), abordando seu amor à natureza e publicado em 2013, em primorosa edição. Agora pesquei na estante, no fim de semana que passou, para reler, Uma fada no front, antologia de crônicas que ele escreveu  no período de julho a outubro de 1939, quando viveu em Porto Alegre. Os textos foram escritos originalmente para o jornal Folha da Tarde.

A edição que tenho é a primeira, de 1994, e teve organização e introdução do jornalista gaúcho Carlos Reverbel, amigo do autor. Conforme conta Reverbel, Rubem Braga chegou a Porto Alegre viajando num vapor, como era costume naquela época. Ao descer no cais da cidade, foi preso juntamente com Reverbel, que o aguardava. A prisão ocorreu por ordem de Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas durante o regime ditatorial do Estado Novo (1937-1945).

Devido à intervenção do proprietário da Companhia Jornalística Caldas Júnior, Breno Caldas, junto ao interventor do Estado, Cordeiro de Farias, a ordem de prisão foi ignorada e ambos foram libertados passadas algumas horas. Breno Caldas contratou Rubem Braga para ser redator do Correio do Povo e para escrever uma crônica diária na Folha da Tarde. A primeira crônica foi publicada na edição de 11 de julho e a última, em 28 de outubro, num total de 91 textos. Desses, Reverbel selecionou 40 para Uma fada no front.

Interessante observar como o jovem Rubem Braga se parece com o velho no modo de escrever. É o mesmo escritor. O cronista tinha na ocasião apenas 26 anos, havia passado por algumas redações e publicado seu primeiro livro, O conde e o passarinho. Na altura já era um escritor no domínio do ofício. As mudanças de vida que vieram depois serviram para ampliar sua visão das coisas, tornando-o mais experiente. Mas o escritor de mérito já estava presente no jovem de 26. Não se tratava mais de uma promessa.

Também chama a atenção a facilidade com que o escritor se apropria em tão pouco tempo da vida de Porto Alegre, do jeito da cidade, seus habitantes, seu rio. Isto sem deixar de lado o que se passava no país e no mundo. Pelo contrário, estava atento a tudo. Na Folha escreveu sobre o início da 2ª Guerra Mundial tão logo eclodiu, com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista em 1º de setembro de 1939. Infenso ao totalitarismo, dentro e fora do Brasil, repudiou o nazismo e tudo que representava. Sempre ou quase sempre judicioso nos juízos que fazia:

Deus encheu meu coração de um frio desprezo pelo nazismo e de um cálido amor pela Alemanha. (idem)

A Porto Alegre da época contava 400 mil almas. Uma cidade em que as pessoas ainda possuíam reservas de tempo, de bom humor e disposição para o convívio e o encontro. Um lugar onde os habitantes se cumprimentavam.

Nas crônicas porto-alegrenses de Rubem Braga, encontramos os bondes, a rua da Praia, uma figueira velha, manacás, bambus, jacarandás, Itapoã, Belém Velho, Petrópolis, Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa, o abandono dos índios guaranis, artistas e escritores locais como Carlos Scliar, Telmo Vergara e Erico Verissimo, entre outros temas. A obra trata com lucidez os problemas sociais e o indivíduo no meio deles.

O livro vale por isso e muito mais. É difícil não sentir empatia pelo escritor nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, desde as primeiras linhas. Ele tem o dom de fundir a crônica diária de jornal com o mais intenso e despojado lirismo. Foi, ao lado de Alvaro Moreyra, o mestre da crônica literária no Brasil.

Voltemos à rua da Praia. Voltemos, que hoje é sábado e faz sol. A tarde vai ser linda. Eu, por mim, voltarei. Eu me plantarei no meio da rua, vagarei para cá e para lá. Vagarei triste e vagamente aflito, sem ganhar sorrisos, mas ao mesmo tempo satisfeito porque haverá sol e haverá mulheres lindas andando ao sol e essa coisa boba e simples me comove e me faz bem, muito mais bem que a música e os versos e qualquer outra coisa do mundo. (idem)
 
 A crônica de Rubem Braga convida o leitor a passear por seus aposentos interiores, suas alamedas e pátios. Mesmo quando o autor parece triste, suas palavras passam esperança e um desejo de que tudo dê certo. Nas páginas de Uma fada no front ninguém sai ileso de poesia.
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* Uma fada no front. Rubem Braga, 154 pp. Seleção e introdução de Carlos Reverbel. Iustrações de Joaquim da Fonseca. Editora Artes e Ofícios, Porto Alegre, 1994. Os excertos são das páginas 87, 31, 112, respectivamente.

O lavrador de Ipanema:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/11/o-lavrador-de-ipanema.html 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Mar azul em volta da casa

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
Quem disse que no alto da serra não tem mar? As hortênsias fizeram um mar azul em volta de casa. Começaram a chegar em novembro, foram ganhando corpo e forma.

Refinaram as cores e agora é isso que se vê. Estão grandes e ostentam mil nuances entre o claro azul e o roxo, sem esquecer o encanto da hortênsia cor-de-rosa.

A hortênsia é uma mulher da meia-idade, bonita e discreta, que faz sonhar quando passa com sua sombrinha na tarde de sol.

photo: j.finatto

O mundo em ruínas e eu aqui a falar de hortênsias, dirá, talvez, o raro leitor. Peço desculpa pela evasão. Mas eu não sei o que dizer diante de tanta barbaridade.

Não vou meter minha colher torta no caldeirão apenas pra mostrar que estou contrariado e envergonhado com o triste teatro humano. De fato, o espetáculo é de fazer chorar, começando pela Terra de Vera Cruz.
photo: j.finatto

Sou só um singelo cronista de cidade do interior que não consegue domesticar sequer os próprios fantasmas. Perdoai.
 
As cores da hortênsia mudam a cada dia, na medida em que a planta amadurece. O sol intenso não é bom para a delicada inflorescência. Como existem muitos plátanos no entorno da casa, eles formam como que um guarda-sol protetor.

photo: j.finatto
 
Uma insolação suave é tudo de que necessitam e gostam as hortênsias. São exuberantes sem ser vulgares. Guardam uma discrição que vem de seus ancestrais do Japão e da China.
 
Nunca as hortênsias floriram tanto como neste ano por estas bandas. Nunca o azul foi tão azul e tão vívidas suas variações.  
 
photo: j.finatto

A presença das hortênsias nos remete a uma espécie de paz rural que se traduz em conforto espiritual.
 
As hortênsias embelezam e dissipam as trevas do ambiente. É bom abrir as janelas e encontrá-las, é bom tê-las por perto e navegar pelo mar azul de suas ondas.