![]() |
| photo: jfinatto, jardim da casa |
a vida de todos os dias, a que eu sempre quis {textos e imagens: Jorge Finatto}
Jorge Finatto
![]() |
| photo: Henrique do Valle, 1979 autora: Ana Maria Lopes de Almeida Bastos |
Eram tempos estranhos aqueles. Trazíamos no peito o sol dos vinte e poucos anos. Em nossa volta, porém, a realidade era sombria e maniqueísta: civis e militares, comunistas e patriotas, Arena e Mdb, direita e esquerda, bons e maus. Não havia meio-termo. A Semana de Arte Moderna de 1922 era ainda o grande acontecimento da literatura brasileira nas salas de aula.
O Brasil era preto e branco, cinema mudo sem Carlitos, cidade morta.
O poema inaugural do envelope falava dos peixes e das flores que o poeta cultivava em seu mundo espiritual. Era talvez o que tinha de mais precioso na vida. A breve existência do Henrique foi toda dedicada à escrita. Foi a maneira que ele encontrou - possivelmente a única - de suportar a passagem pelo mundo.
A entrega do envelope foi um gesto simbólico. A metáfora da preparação de uma longa viagem - a última - que o levaria para muito longe, para bem depois dos moinhos, vales e montanhas estelares. Só entendi isso depois que ele partiu.
______
* Primeira parte do meu depoimento no livro Henrique do Valle, Obra Reunida, organizado por Paulo Seben e publicado pelo Instituto Estadual do Livro em 2014. É uma publicação de resgate da obra deste grande poeta que morreu aos 22 anos (21 de março,1958 - 28 de fevereiro,1981). Um livro precioso.
Jorge Finatto
![]() |
| O escritor Terêncio Horto.* Autor: André Dahmer |
![]() |
| O Senhor Horto e seu amigo imaginário. Autor: André Dahmer |
![]() |
| O escritor Horto. Autor: André Dahmer |
![]() |
| O escritor Horto. Autor: André Dahmer |
Jorge Finatto
![]() |
| photo: jfinatto |
Jorge Finatto
| photo: jfinatto. Vale do Quilombo |
Jorge Finatto
![]() |
| photo: jfinatto |
Jorge Finatto
![]() |
| photo: jfinatto |
Niamara Pessoa Ribeiro
Graduada em Letras e Especialista em Teoria Literária. Porto Alegre.
| Niamara Pessoa Ribeiro |
Caro amigo Finatto.
Um brinde ao seu sucesso pelo Prêmio Troféu Apolinário Porto Alegre 2020, da Academia Rio-Grandense de Letras.
A homenagem da Academia ao seu talento não surpreende, mas sim enaltece e envolve a todos os leitores na alegria de ver o que o seu coração e o seu intelecto já sabem, quando, com todas as entranhas, o senhor elabora as letras do alfabeto, que surgem novas em suas mãos.
Também não surpreende a distinção ao seu livro, pois observei que “Navegador”, incluso no título de sua premiada publicação, já prenunciava o destino de que estamos falando.
Comecei a comparar o que é dito de certos símbolos e suas prováveis dicas herméticas ... assim ... divagando ...
Cristo, “Pastor” (do rebanho humano).
Maçons, “Pedreiros” (buscando construir sociedades igualitárias).
São José, “Carpinteiro” (entalhando modelos de qualificação humana).
Apóstolos, “Pescadores” (de almas).
Deus ultérrimo, “Pai” (Modelo original ao qual retornaremos).
E... “Navegador”... Mestre Supremo, designação abrangente, ocultando função além-náutica...
E o senhor, Navegador do fazer literário, já no título da obra prognosticou a vitória do Barco de Papel.
Parabéns pela merecida homenagem. Parabéns, Navegador, Mestre Supremo na segurança com que conduz as palavras ao longo de ondulações, ventos, da imensidão do mar de ideias e sentimentos.
Navegador preciso, o senhor e seu Barco nos conduzem mais além.
E vamos navegar, pois o senhor, Doutor Finatto, autor/comandante, se mostra preciso, mesmo atravessando águas da vida nas quais precisão alguma acena para os que saem da imobilidade terrena para se alçar sobre a líquida mobilidade de águas perigosas e atraentes.
Esses são os navegadores que vão a distâncias e de lá nos trazem o fruto de suas observações.
Esses são os bravos navegadores que nos permitem ser maiores por meio de seus barcos repletos de poéticas criações.
Creio representar a voz coletiva de leitores ao dizer o quanto sou grata pelo fato de o senhor aportar suas naves em nossos ancoradouros.
Os grandes navegadores se lançam aos mares, e os mais corajosos o fazem pela filosofia poética, arrojando-se em barcos de papel. O senhor é um deles. Sabe dominar esses mares.
Jorge Finatto
O livro Navegador de barco de papel conquistou nessa segunda-feira, 14 de dezembro, o Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras 2020, na categoria crônica, recebendo o Troféu Apolinário Porto Alegre.
Em cerimônia virtual, foram divulgados os vencedores do concurso que destacou, também, as categorias romance, narrativa curta, tese acadêmica ou dissertação, poesia e livro infantil.
Sensibilizado e muito feliz pelo reconhecimento, agradeci à notável instituição cultural que é a Academia Rio-Grandense de Letras, fundada em 1901. Trata-se de um grande estímulo para seguir neste difícil caminho da literatura.
Dediquei o prêmio aos poetas e escritores que, através do trabalho solitário e silencioso, contribuem para a humanização da nossa sociedade.
A bela capa e as ilustrações do livro foram concebidas por Clara Finatto, minha talentosa filha.
Agradeço de coração a honrosa distinção.
Jorge Finatto
![]() |
| photo: jfinatto |
Acordou com uma insuportável vontade de viver. Foi no tempo da peste covid-19. Abriu a janela do quarto e recebeu no corpo o ar fresco do amanhecer. Respirou fundo. Olhou o Contraforte dos Capuchinhos ao longe. Suspirou, fechou os olhos.
Descobriu que as velhas mágoas e dores já não doíam como antes. Passaram porque tudo tem que passar. Porque o perdão é talvez o melhor dos remédios.
A peste também haveria de passar.
Sentiu uma terrível vontade de agradecer. Estava vivo, respirava e olhava as montanhas junto à janela. A morte, esse injusto evento, nunca teria a palavra final. Era apenas uma mudança de capítulo. Uma passagem para algo desconhecido e, provavelmente, melhor.
A vida é um milagre que germina do encontro de dois ermos. O tempo não é inimigo, antes um aliado. Uma estrada. Uma estrela em movimento na escuridão. Há beleza até nas marcas que o tempo esculpe na face.
Existe um universo inteiro de perguntas. Mas as respostas essenciais não estão disponíveis.
Somos parte do mistério.
Somos o mistério.
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
Jorge Finatto
Dor, indignação, revolta, vergonha. São alguns sentimentos que nos invadem diante da terrível morte de João Alberto Freitas, 40 anos, pai de quatro filhos, por espancamento praticado, segundo amplamente divulgado, por seguranças no estacionamento do supermercado Carrefour em Porto Alegre. O fato, ocorrido na quinta-feira, 19/11, véspera do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é revelador, mais uma vez, da intolerável violência existente na sociedade brasileira, que atinge visceralmente os segmentos mais vulneráveis da população.
O homem que foi morto era negro (mais uma vítima). O que justifica bater numa pessoa até a morte?
Como pode semelhante agressão acontecer no ambiente de um supermercado? Por
certo o processo judicial irá esclarecer os fatos e suas circunstâncias e
aplicará a lei. Todavia, a aplicação da lei penal não tem o condão de devolver
a vida à vítima. Tampouco consegue desfazer o incomensurável trauma causado aos
familiares, amigos e à sociedade em geral.
O tema do racismo vem à tona em meio à perplexidade. Negar a existência de racismo, no Brasil e no Rio Grande do Sul, é negar a luz do Sol. Basta atentar para a posição em que a população negra está colocada, ainda sem igualdade de acesso aos bens da vida que outros grupos sociais possuem.
O tratamento discriminatório é uma triste
realidade. Os negros foram deixados à margem e à míngua durante os últimos
quatrocentos anos. O racismo é, em si, uma forma perversa de marginalização e
de negação da dignidade da pessoa humana. Um sistema de opressão econômica,
social e política que estrutura a sociedade.
Joaquim Nabuco afirmou que a luta pela liberdade, no Brasil,
não se esgotaria com o fim da escravidão (que ocorreu com a Lei Áurea, de 13 de
maio de 1888). Ela se prolongaria por muito tempo no combate aos efeitos do regime abominável. A realidade brasileira insiste, todos os dias, em dar razão ao
notável abolicionista pernambucano.
Sendo de natureza estrutural, estando impregnado no funcionamento da sociedade, e se reproduzindo ao longo de séculos, é necessário lutar contra o racismo a cada dia. Por isso, têm razão os que sustentam que não basta não ser ou não se considerar racista, é preciso ser antirracista, praticando atitudes contra este monstruoso e detestável sistema de opressão.
Jorge Finatto
A má notícia deste final de ano é que a pandemia, depois de arrefecer um pouco nos últimos três meses, parece que volta a intensificar-se. A julgar pelos números recentes, estão aumentando a transmissão e a ocupação de leitos e UTIs de hospitais em várias cidades e Estados do Brasil. O número de óbitos permanece elevado.
Em suma, a primeira onda mal começava a diminuir e uma segunda vaga anuncia-se pela fresta sombria das estatísticas. O sistema de saúde ainda não se recuperou e torna a sofrer grande pressão.
O agravamento demonstra que os cuidados diminuíram. Muita gente quer ter vida social como antes e faz aglomeração. Esquecem-se de que só houve melhora quando se adotaram cuidados básicos como uso de máscara e distanciamento. Um coisa é sair para trabalhar e estudar. Outra é querer viver sem os limites necessários enquanto não se vence o vírus.
Não há mais paciência com esta doença. Ela desmontou a vida de milhões de pessoas em todos os cantos. Há quase nove meses trancado, com pouquíssimas saídas à rua (só em caso de necessidade), sinto-me, como todos, mareado, exausto.
A falta de um plano do governo federal para enfrentar a grave crise de saúde pública, a ausência de lucidez e sensibilidade para lidar com a situação, colaboraram muito para o tamanho da tragédia que se abateu sobre o Brasil: 166.743 mortos até agora.*
Ao invés da construção conjunta de ações para mitigar a pandemia, com os entes da federação e a sociedade, preferiu-se negar-lhe o poder de destruição, optando-se por politizar a doença. Comportamento absolutamente incompreensível à luz da razão.
Enquanto isso, só nos resta redobrar os cuidados e esperar pela vacina. E rezar pedindo proteção a Deus, rogando-lhe por generosas doses de resiliência pra suportar tudo isso.
______
*Estadão:
https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-transmissao-da-covid-no-brasil-volta-a-passar-de-1-diz-imperial-college,70003518266
Jorge Finatto
| photo: jfinatto. Amsterdam |
| photo: j.finatto |
Jorge Finatto
![]() |
| Joe Biden. photo: Reuters |
Jorge Finatto
![]() |
| photo: jfinatto |
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |