sábado, 1 de setembro de 2012

Camafeu sentimental

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

Deve ter sido assim
num lugar assim
num tempo assim

ele foi feliz um dia
sem saber o que era
felicidade

Uma fotografia guardada há muito tempo na gaveta é um achado. Ele já esteve nesse lugar. Nem sabe mais quando. Uma velha casa de madeira entre pinheiros. Um córrego esperto cantando ali perto. Pode ouvi-lo agora claramente. Na janelas laterais, floreiras com gerânios de variadas cores.

Lá dentro, em volta de uma grande mesa, pessoas se reúnem para o café da tarde. Um alarido de véspera de primavera. O menino olha aqueles rostos iluminados. O cheiro de pão feito em casa, no fogão de ferro, se espalha por tudo.

Em volta daquela mesa, retratos na parede. Em volta da parede, o mundo gira em lentas rotações.

O aroma de jasmim invade o ambiente. No quintal, caminha-se entre laranjeiras, ameixeiras, romãs, pitangueiras, mamoeiros, parreira, abacateiros. O cinamomo florido abre os galhos perto do poço, o banco pintado de branco embaixo.

Há muito tempo ele não visitava a casa da infância.

As buganvílias exalam azul e branco no jardim.

O gato dorme entre novelos de lã na cadeira de balanço.

Um dia recortado no tempo. Pessoas vivendo sem medo da separação. Cálida alegria.

A fotografia, camafeu sentimental.

Deve ter sido assim, num lugar assim, num tempo assim, ele foi feliz um dia, sem saber o que era felicidade.
 
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Texto publicado em 7, setembro, 2011.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O peixe da boca vermelha

Jorge Adelar Finatto
  photos: j.finatto
 

photo: j.finatto


A caminhada polifônica destina-se não apenas ao exercício do corpo como à indispensável atenção às coisas do espírito.

A observação dos seres vivos e da paisagem, a aproximação estética e sensorial da mãe natureza, a respiração do ar limpo e fresco das manhãs (ou tardes), na montanha, a descoberta de inefáveis epifanias durante o percurso, tudo isso faz parte da polifonia andante.
 


Andava eu nas cercanias do Lago da Neblina, em Passo dos Ausentes, prevenido com a invencível Coruja, a vetusta máquina fotográfica que me acompanha.

Os gansos desistiram de acusar a minha presença. Sabem que sou apenas um caminhante que está só de passagem, um sujeito inofensivo, que anda a bordo de um chapéu de palha branco, com grossas e estapafúrdias lentes nos óculos, catando o invisível.

Um indivíduo assim não oferece risco à fauna e à flora, quiçá a si mesmo.

Nas margens e dentro do lago existe vida pulsante. Estava eu olhando o vazio (essa maneira de encontrar, talvez, o inesperado) quando ouvi um vago rumor na água.


Foi quando me apareceu o amigo (ou amiga) dessas fotos.
 

Um peixe branco, a boca pintada de vemelho, com traços coloridos espalhados pelo corpo, cerca de 1 metro de comprimento, passou a navegar perto de mim. Tive a impressão de que sabia da sessão de fotos, ao menos não poupou poses e movimentos.

Chegou-se mais para a beira, mas não tão próximo que não pudesse ativar um plano emergencial de fuga caso isso fosse necessário. Não foi.
 
 
O peixe da boca vermelha quis dizer alguma coisa com sua presença, e acho que conseguiu. Encheu de beleza a tarde e o meu coração.



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Texto publicado em 25 de janeiro, 2011.