quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A pele cor-de-rosa da chuva

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 

O ser humano tem direito constitucional de andar nas nuvens.

A sentimental algaravia.
 
Ah, um dia livre pra sair por aí. O que ela mais gosta.

As horas difíceis, cotidianas, que a vida tem. Poucos momentos de gozo. Vida bonsai. Um ermo. Os medos, medo.
 
Um dia se deu conta que. Olhou no espelho, estranhou. Quem é essa? Deus!
 
Vivia no austero, no precavido jeito.

Desde que ele se foi, enfim. Adeus, adeuses. Casa abandonada. Depois só quireras, uns fanicos de dar dó, uns cacos. Ninguém mais.
 
Dia feriado, sábado, domingo, aniversário: nenhum fio de luz embaixo da porta, escuridão completa. Ninguém vem, ninguéns.

Coração solitário no meio dos corvos vorazes.
 
Noites em claro, sede. Janela sobre a cidade vazia. Invoca rezas antigas, banho de madrugada, copo dágua gelada, dorme diante da tv.
 
A solidão pintada na cara. Ocos dias de se viver. Só durezas.
 
Ah, bem-vindo, vento de abril. Na chuva sente-se protegida, agasalhada. Sai a divagar caminhos molhados. Os longes habitam a sua alma.

Peixes coloridos soltos no ar.

Sopram presságios no voo de algodão das gaivotas.
 
Moças saltam das janelas, invadem as ruas como ela. Anêmonas. Saias flutuam. Sombrinhas navegam no vento.
 
A esperança. Ninguém pode viver sem, nem ela nem. Se a solitude fosse um abraço.

Instantes migalhas de vida são. Breves eternidades.

Venham os dias, pois. Os novos caminhos.
 
Felicidade é relâmpago. Farândola no coração.

A pele cor-de-rosa da chuva.

Outono, outonos.
 
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Texto publicado em 9 de abril, 2010. 
 

domingo, 9 de setembro de 2012

A despedida

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Sentimental e reservado, ele não era de muita conversa. Um tanto melancólico talvez. Parecia sentir saudade de um mundo que um dia foi de alegria e companheirismo entre seus irmãos siameses. Devia ser um lugar perto do mar, com bastante peixe, alimento predileto.
 
Quando ainda era um gato bebê, nunca se viu mais chorão. Chegou aqui em casa no inverno, faz cinco anos. O único jeito de parar de chorar era deixá-lo entrar embaixo dos cobertores. Aí se acalmava, queria contato físico, calor humano (não tinha outro gato para se aquecer).
 
O Bacana tornou-se um adolescente calado, não gostava de reuniões e ruídos. Preferia o silêncio e o recolhimento do escritório a qualquer outro ambiente da casa. Era doce e cálido.

Apreciava também o muro do quintal. E gostava de sentar-se no quiosque em meio a vasos de flores, de onde podia admirar o Contraforte dos Capuchinhos, na lonjura, com suas montanhas azuis.

Caminhava em silêncio pela casa como só os gatos sabem fazer.
 
Às vezes, subia no teclado do computador, com o motorzinho de popa fazendo o rom-rom característico. Queria atenção. Só sossegava quando era acariciado, após alguns minutos.

Nessas ocasiões, sentava na estante perto da janela ao lado do volume encadernado de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Depois descia a escada escarpada, ia para o pátio, silente e esguio como uma sombra.

No final de agosto, teve uma doença que o levou embora. Primeiro foi para a clínica veterinária onde ainda havia esperança (não muita) em sua recuperação. Até que veio o telefonema anunciando a morte.

Ficou o silêncio de seus passos pela casa.

Perdi os olhos azuis e a meiga presença do Bacaninha.

Falta um gato no escritório.