sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O sonho da primavera

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto


Essa a visão de Passo dos Ausentes. O frio polar dos últimos dias prolonga o inverno no coração da primavera. As árvores floriram, os pássaros cantam, a bela estação começou, mas aqui nos Campos de Cima do Esquecimento o intruso insiste em não desocupar a sala. Uma indelicadeza.
 
Tem feito entre quatro e nove graus Celsius durante a tarde. Essas temperaturas contrastam com o cheiro doce das flores. À noite, ontem de madrugada, fez menos três graus. Mas a sensação era de menos 8 ou 10. Foi uma das noites mais frias do ano, ao menos pra mim.

Um homem, uma mulher não podem passar o dia na frente do fogão a lenha ou da lareira. O trabalho e as obrigações da vida reclamam nossa presença. Então é preciso sair do ninho. Só saio com o intimorato e nunca suficientemente louvado capote, afundado no calor da lã. E com o boné para evitar o contato do telhado com garoas e nevoeiros. O problema dos óculos: opacos.

Um peixe sonhando no aquário.

photo: j.finatto

O inverno é um general farroupilha teimoso, que não quer abandonar os territórios perdidos para as alegres e coloridas tropas da primavera. Às vezes me pego sonhando viver num lugar solar como a Bahia. Mas temo que o inverno vá junto com seu arsenal de tempestades, raios, relâmpagos, trovadas e gelos. Melhor não envolver os baianos nisso.

Não sou contra o inverno, por favor. Gosto, até porque, em Passo dos Ausentes, não se tem outra escolha. Hoje pela manhã o gramado amanheceu branco. Bonito (olhar da janela). Enquanto isso, ouço a Sonata para violino e piano, segundo movimento, intermezzo, de Poulenc (Très lent et calme), que vai abrindo caminho de luz em meio à neblina.

Um sentimento de beleza vem das orquídeas nos vasos, troncos e galhos. Rara visão. Motivo para esperar que a primavera conquiste de vez o espaço que por direito lhe pertence.

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A misteriosa expedição da Nasa a Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2011/08/misteriosa-expedicao-da-nasa-passo-dos.html
 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Raios riscam a escuridão e assustam o silêncio

Jorge Adelar Finatto


Imagem: site da Secretaria Nacional de Defesa Civil:
http://www.defesacivil.gov.br/desastres/recomendacoes/raio.asp
 
 

As nuvens são fábricas de raios.

Escutei no rádio que entre a noite de domingo e a madrugada da segunda-feira caíram sobre o Rio Grande do Sul 5.344 raios devido às tempestades. Existe um órgão estatal encarregado de verificar a eletricidade na atmosfera que apura o fenômeno. Junto com os raios veio chuva de granizo com algumas pedras do tamanho de um ovo.
 
Conforme se noticiou, o Rio Grande do Sul é o 4º estado com maior incidência de raios no país, 5 milhões, 180 mil descargas por ano.
 
Em Passo dos Ausentes, raios, trovões, relâmpagos nos afligem o ano inteiro.  Quando o tédio é muito lá no céu, as autoridades celestes mandam uns raios sobre nossas cabeças, mesmo em dias de sol e pouca nuvem, só pra ver o pessoal levar um susto e não esquecer quem manda.

Os ateus passam mal aqui nos Campos de Cima do Esquecimento, porque não conseguem explicar, através da razão, as coisas fora do entendimento que nos acontecem. Não bastassem as angústias normais da vida de todo vivente (de onde venho, para onde vou?), eles ainda têm de engolir em seco o que está além das aparências.
 
Não sei como os técnicos do governo fazem pra contar as descargas elétricas. Os dados divulgados são minudentes: 5.344 raios, em poucas horas, nem mais nem menos.

Haverá o cargo público de contador de raios? Acho que não. Ofício assim tão perigoso e barulhento, quem havia de querer? Sei lá.
 
O que sei é que há mais mistérios entre o risco do relâmpago e a escuridão das almas do que supõe a nossa vã sabedoria.