quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Encontro macabro

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: j.finatto


Na verdade, eu não devia ter feito a primeira pergunta: "Como vai teu pai?" O amigo de infância, que não via há muitos, muitos anos, respondeu que o pai tinha morrido. Constrangido, perguntei, então, pela mãe, uma senhora querida, que me acolhia com gentileza. "A mãe também morreu, foi logo depois do pai."
 
Desconfortável, resolvi indagar por alguém muito mais jovem, a irmã, que certamente estaria viva e com saúde. "A Fernanda? Morreu no ano passado, uma doença fulminante, deixou marido e dois filhos."

A situação tornou-se insustentável. Notei que ele franzia a testa a cada resposta e me olhava fixamente, como a estudar minha reação diante da hecatombe.
 
Para amenizar, doce ilusão, perguntei se estava casado. "Sim, casei mas me separei. Tivemos um filho. Um menino, que morreu com um aninho."

Devastado, não consegui continuar a conversa. Lamentei sinceramente as perdas, desejei-lhe felicidades, despedi-me, atravessei a praça, fui embora o mais rápido que pude.

Aquele encontro foi um desastre. O curioso é que não senti de parte do infeliz um estado de consternação. Falava como se estivesse conversando a respeito do clima. O tempo todo me olhando como quem examina um ser ao microscópio. Quanto a ele, não sei, mas eu fiquei mal.
 
Depois daquele dia, não faço mais esse tipo de pergunta.
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Brasil, árvore frondosa

Jorge Adelar Finatto

Árvore Pau-brasil (Caesalpinia echinata). Jardim Botânico, Rio de Janeiro.
Autor: Mauro Guanandi. Fonte: Wikipédia
 

O Brasil, essa árvore frondosa, multirracial, multicultural, está avançando. Não rumo ao abismo, como querem alguns, mas a um lugar mais luminoso. Para quem, como eu, em vários momentos da vida perdeu a esperança num país melhor, há motivos para estar mais otimista.

O meu sonho de Brasil é ver o país livre da corrupção, sem dar-lhe espaço nem trégua para instalar-se e reproduzir-se. Com isso outros males, como a pobreza e a violência, vão reduzir-se e poderão um dia, quem sabe, ser superados.
 
Este Brasil diferente começou a amanhecer na medida em que o aprendizado da democracia iniciou entre nós após o período ditatorial (1964 - 1985).

A exigência de ética na política e na vida em sociedade hoje se impõe.
 
O julgamento da Ação Penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal, envolvendo o famoso caso do mensalão, responde a esse anseio geral de responsabilização de quem insiste em manter condutas incompatíveis com o bem comum.

As eleições municipais de ontem, por seu lado, evidenciam que a população quer participar da construção de uma  realidade baseada em valores. O povo não está dormindo.
 
A árvore está crescendo, tornando-se a cada manhã mais forte e bela. Nela, o respeito ao direito e à justiça passa a ter um alto valor, sem o que não há vida digna de merecer este nome.