quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A fala do Arlequim

Jorge Adelar Finatto 
 

photo: j.finatto. Veneza
 
 
Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível. De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado. Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Nem sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira. Vivo no austero. Sinto no meu segredo. Amador. Ela não me vê. Eu a vejo. A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as gaivotas.

Caminho nos meus penhascos. Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico. A vida gira nos esconsos. Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador.
 
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Photo: Cena veneziana.
Texto publicado em 30 de outubro, 2010.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Drummond 110

Jorge Adelar Finatto


Carlos Drummond de Andrade


 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.* 

31 de outubro, 1902. Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais. Nessa data e nessa cidade nasceu Carlos Drummond de Andrade. Hoje comemoram-se 110 anos de seu nascimento.
 
Sinto saudade do poeta como de um irmão mais velho. Desta natureza são as admirações literárias, que se transformam em afeto, respeito e falta.
 
Morto aos 84 anos, em 17 de agosto de 1987, 12 dias depois da morte da única filha, a escritora Maria Julieta, Carlos foi - e é - um dos nomes mais importantes da poesia de língua portuguesa.

Notabilizou-se, também, como cronista e contista refinado, de leitura obrigatória nos jornais em que seus textos eram publicados. O bardo de Itabira conseguia fazer uma interpretação solar dos acontecimentos e dos não-acontecimentos. Captava como poucos a essência das coisas e dos sentimentos. 
 
A poderosa lente com que mirava o ser-no-mundo produziu uma das obras mais belas da nossa literatura. Seus textos são fonte de consolo e beleza.
 
Enxergava nossas qualidades e defeitos, nutria uma irredutível esperança na existência, mesmo desiludido.
 
O bom humor é outro traço marcante de sua visão de mundo.

O humanismo da expressão, em Drummond, sempre foi revelação no deserto.
 
O poeta nos toca e nos ajuda a viver. Amoroso e lúcido, seu verso nunca sai indiferente ao destino humano. 

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?**
 
É nessa vida prolongada da palavra escrita que podemos ter o poeta conosco tempo afora.
 
Convivente, irmão.

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*Trecho do poema Consolo na Praia, da Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, Editora Abril, São Paulo, 1982.
**Trecho do poema Amar, idem.
Foto do poeta copiada do site da Editora Companhia das Letras:
http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02213