domingo, 6 de janeiro de 2013

A carreta cósmica

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

O mundo visto de cima de uma carreta é diferente.  Não é o mesmo que se vê de um ônibus, metrô, barco, automóvel ou avião.  O andar da carreta é outro, diverso é o seu olhar.
 
Em Passo dos Ausentes, havia muitas carretas. Era meio de transporte de pessoas e de carga por estradas de terra e ruas pedregosas.
 
A velocidade do mundo era bem menor. 24h, naquele tempo, equivaliam a cinco dias de agora, talvez um pouco menos.
 
Os tempos eram longos e as conversas também. Dava para experimentar o sabor de cada fruto, associá-lo a um nome e a uma estação do ano.
 
Havia tardes de chuva mergulhadas na leitura e na preguiça. Olhos cismavam nas janelas. A preparação dos doces caseiros espalhava delicados cheiros pela casa.
 
Andar de carreta puxada por boi era uma maneira diversa não só de se deslocar como de olhar o universo.

O homem que vê a vida tendo a carreta como ponto de mirada não é o mesmo que se movimenta em máquinas velozes.
 
Aqui nos Campos de Cima do Esquecimento ainda se encontram carretas. Há alguns anos encontrei uma em bom estado, construída em 1953. Resolvi comprá-la e coloqueia-a no jardim.

Ela aparece em primeiro plano na foto, tendo mais ao fundo Monsieur Jardin, o espantalho que faz a alegria dos passarinhos. As aves fazem ninhos nos seus bolsos e no chapéu de palha.

A minha carreta está sempre pronta pra partir. Em certos dias, quando a vida perde a graça, em subo nela e vou dar uma volta pelo cosmos. O sobe e desce entre as nuvens, a gente sacudindo lá dentro, a evolução do vôo pela atmosfera e depois uma esticada até o infinito.
 
Voamos entre as estrelas, passamos perto da Lua, paramos em Órion para ver a chuva dos meteoros cintilantes.

Visito os amigos que partiram em suas carretas de luz e nunca mais voltaram. Conversamos e rimos juntos. Depois eu me despeço e volto pra casa.

Ao retornar da viagem, sinto o coração bater em paz outra vez.
 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Escritor desiste de parar de escrever

Jorge Adelar Finatto
 
 
Elmore Leonard. Foto de Paul Sancya, Associated Press
 

O escritor americano Elmore Leonard, 87 anos, tinha decidido parar de escrever. A aposentadoria estava prevista para depois da publicação de seu último livro, Blue Dreams (Sonhos Azuis), esperada para este ano.
 
A boa notícia para seus leitores é que ele desistiu de desistir. Autor de 47 livros, Elmore Leonard recebeu em novembro passado o prêmio da Fundação Literária Nacional pela Contribuição com as Letras Americanas. O reconhecimento fez com que abandonasse a idéia de parar.

A premiação existe desde 1950 e já foi dada a autores como Norman Mailer, John Updike e Gore Vidal.

"Eu fiquei tão feliz (...) O prestígio, para mim, é o que vale mais", declarou à agência de notícias Reuters, conforme reproduzido na Folha de São Paulo de 31.12.2012.
 
"Não tenho razão para me aposentar. Eu ainda gosto muito de escrever", acrescentou.

Leonard é autor, entre tantos, de O nome do jogo, que virou filme com  o ator John Travolta, e Jackie Brown, adaptado para o cinema por Quentin Tarantino.
 
Se até os bichos gostam de agrado e salamaleque, imaginem então os escritores que são, no reino animal, espécie das mais suscetíveis e carentes de reconhecimento.

(Reconhecer vem do latim recognoscere, que significa, na acepção aqui empregada, admitir como bom, verdadeiro ou legítimo, consoante ensina o bom Aurélio.)

Ainda não li nada de Elmore Leonard, mas acredito que a premiação faz jus a uma longa vida dedicada a escrever. Penso naqueles outros que nunca receberam nem receberão qualquer prêmio e que, mesmo assim, não desistem do ofício.

O vero escritor não escreve para receber prêmios, mas para dizer algo a seus semelhantes através da palavra escrita. Mas também é verdade que quando alguém escreve o faz pensando em ser reconhecido pelo trabalho. Em suma, ninguém escreve para as paredes. 
 
Entre os fogos de artifício dos prêmios literários (e da mídia) e a solidão da caverna, existe um caminho do meio capaz de estimular um autor a não desistir: o reconhecimento. Reconhecimento sem o qual a coisa toda - literatura ou qualquer outra - perde o sentido.