sábado, 19 de janeiro de 2013

A pátria da língua portuguesa

Jorge Adelar Finatto


Fernando Pessoa nos azulejos do Martinho da Arcada*. photo. j.finatto


Após um tempo sem falar português, num país distante, quando, enfim, entrei no avião da TAP, de regresso a Lisboa e, horas mais tarde, ao Brasil, disse aos tripulantes, na porta de entrada da aeronave: a nossa pátria é a língua portuguesa.

Aquilo saiu assim, de repente, quase um desabafo, ao reencontrar pessoas que compartilham o mesmo idioma, depois de um período de exílio longe da língua.

Minha pátria é a língua portuguesa. A frase de Fernando Pessoa, do Livro do Desassossego, trecho 259, expressa essa verdade cósmica e sentimental: pertencemos à língua que nos viu nascer, essa que sussurrou aos nossos ouvidos, nos instantes inaugurais da vida, o som das primeiras palavras de acalanto e consolo.


Amanhecer no oceano perto de Lisboa. photo: j.finatto


Os membros da tripulação não se mostraram espantados com o palavroso passageiro, ao contrário, aderiram à minha saudação, talvez levados por um sentimento de saudades de Portugal e do Tejo, naquela tarde fria do norte europeu.

A maternal língua de Camões nos lambe desde o berço, como lambeu Pessoa, Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Carlos Drummond, Heitor Saldanha, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Henrique do Valle, entre tantos, da mesma maneira que lambe o vendedor de peixe do mercado público de Porto Alegre, a florista da Praça da Aurora, o homem da banca de jornais.

O português cultivado no Brasil enriqueceu-se dos sons e novos sentidos advindos das falas de origem africana, indígena, espanhola e de todos os povos que vieram ao continente brasileiro.

A língua portuguesa, amarga e doce, nos habita, e com ela tentamos nos comunicar no duro ofício de viver, sonhar e sofrer. Essa pátria nos carrega dentro de si aonde quer que nos levem os ventos oceânicos.

A língua é nosso território espiritual no mundo.

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*Café-Restaurante Martinho da Arcada, um dos mais antigos do mundo, em Lisboa. Patrimônio Nacional Português. Nele Fernando Pessoa costumava beber, jantar e receber amigos no balcão do café (foto acima) e na sua mesa cativa. O proprietário de então, reza a lenda, amigo a admirador do poeta (pobre), não cobrava as suas despesas. Há no local cópias de manuscritos, de fotografias e outros documentos do poeta. Fica na Praça do Comércio (ou Terreiro do Paço), sob os arcos, quase à margem do Tejo. Este post foi publicado anteriormente em 28.7.2012. (Jorge Finatto)
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O violão de Ulisses Rocha

Jorge Adelar Finatto 

Ulisses Rocha

 
Um pedaço oco de madeira com algumas cordas. Com isso apenas, o artista é capaz de tanger o infinito. O universo inteiro cabe no som de um violão.

No violão cabem Bach e Tom Jobim, Villa-Lobos e Chopin. No violão cabem as nossas dores e as nossas alegrias.

A nossa partilha e a nossa solidão cabem no violão.
 
Um dia eu quis tocar violão. Este instrumento tem uma maneira de dizer as coisas que as palavras não conseguem. Isso foi há muito tempo.

Não esperava tornar-me um Andrés Segovia ou um Baden Powell, como de fato não aconteceu. Dedilhei o pinho como quem encosta a ponta dos dedos numa estrela distante.

Vivi momentos de felicidade ao dedilhar as seis cordas. Mas tinha pouca desenvoltura.

Percebi que teria mais encanto em ouvir do que em tocar. O amor pelo instrumento, porém, nunca se perdeu.

Nos últimos tempos tenho ouvido os violões de Villa-Lobos, Joaquín Rodrigo, Mario Castelnuovo Tedesco, Segovia, Baden, Paco de Lucía, entre outros.

Mas hoje quero falar de um músico que conheci através de um disco que comprei no mês passado. Trata-se de Estudos e outras idéias, do ano de 2005, com 16 músicas de autoria de Ulisses Rocha.

Nascido no Rio de Janeiro em 1960, tornou-se um virtuose do violão. Faz apresentações no Brasil e no mundo. É professor da Faculdade de Música da Unicamp desde 1990.
 
Ulisses Rocha é um violonista e compositor de grandes recursos.

A sintaxe da frase musical, como a de um poema, é feita de sentimento e técnica. De silêncios e pequenas eternidades harmônicas. É isso que eu espero de um músico e de um poeta. Foi esse apuro em construção que encontrei no trabalho deste artista.

O disco de Ulisses Rocha é um presente para a alma sensível. Ilusão e Rumores, por exemplo, são duas obras-primas do violonista que estão no disco. Mas há outras.

Se você gosta da arte do violão, eis aí um belo momento de talento e musicalidade.