quarta-feira, 16 de abril de 2014

O voo de José Saramago

Jorge Adelar Finatto

Avião da TAP
 
Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós.*
                                                                   José Saramago

O desejo de voar está na alma do ser humano desde a mais remota antigüidade. Na verdade, desde que o primeiro homem e a primeira mulher pisaram no planeta, alimentaram o sonho de elevar-se acima do chão.

Bastou para isso abrirem os olhos e verem do que eram capazes as borboletas, as aves e as nuvens.

Após muitos desastres nas mais diversas geringonças, conseguimos sair pelo céu em aparelhos mais pesados que o ar. Milhões de pessoas realizam, todos os anos, o sonho ancestral de voar.

Comecei a pensar em coisas que voam e em pessoas que querem bater asas a propósito de uma notícia divulgada agora pela TAP (Transportes Aéreos Portugueses). O próximo Airbus A 320 da empresa, recém adquirido, levará o nome de José Saramago (1922-2010), primeiro Prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa, escolhido em 1998.

photo de Saramago. autor: Marcelo Buainain

Eu acho bonito esse costume da TAP de dar nomes de pessoas que contribuíram para a cultura e a história de Portugal, escrevendo-os na fuselagem de suas aeronaves.

No caso de Saramago, além de justa, a lembrança serve também para chamar a atenção sobre a obra do escritor nos muitos países em que a TAP tem operações. Nos meses de junho, julho e agosto a frota de longo curso da empresa exibirá o filme José Saramago, o tempo de uma memória, da realizadora Carmen Castilho.

Uma bela combinação essa de escritores e aeronaves, pois são duas coisas nas quais podemos voar: livros e aviões. E se o passageiro que está dentro do avião ainda lê um livro, estará voando duas vezes.
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*Do livro O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, p. 41. Companhia das Letras, São Paulo, 1998.
 

domingo, 13 de abril de 2014

Um dirigível para as estrelas

Jorge Adelar Finatto
 
ilustração: Maria Machiavelli

Essa mania de escrever para ninguém é mesmo uma coisa de doido, difícil de compreender, algo que se prestaria a estudos profundos sobre as razões últimas que movem o ser humano.

Escrever para a nuvem, como se faz num blog, é mais ou menos como mandar uma carta para o espaço dentro de uma garrafa. Provavelmente não estaremos aqui para receber a resposta, quando e se vier.

Um arqueólogo da internet, daqui a alguns séculos (ou segundos, do jeito que as coisas andam depressa), escavará a superfície tênue da blogosfera atrás de registros feitos por antigos blogueiros em cavernas virtuais. Talvez encontre este texto.

O fato é que hoje, nestes confins de abril, por força de um gelado outono (ou invencível melancolia), o cronista escreve para a nuvem e não consegue traçar a primeira palavra do texto de amanhã.

Não há leitores à espera destas mal-traçadas. Acho que nem haverá além dos arqueólogos da internet. As pessoas têm mais o que fazer, vida difícil, tempo escasso, passam bem sem leituras virtuais.

O problema, se é que existe, é do cronista nefelibata, que não encontra a primeira palavra. O tempo é de acender a lanterna em busca do caminho.

Enfim, a questão é que as palavras estão hibernando nos dicionários. A inspiração é só um estado de espírito e escrever é mais do que isso.

Vivemos um tempo de secas esperanças, mas é preciso seguir em frente.

Como tarda amanhecer quando a escuridão é tamanha!

Nessa hora erma e côncava, vou mesmo é sair por aí no meu dirigível amarelo, deslizando entre nuvens, numa viagem pra fora do planeta.  Quero ir subindo, subindo, numa longa curvatura de silêncio em direção às estrelas.

Carrego comigo um novo caderno para escrever (como da primeira vez).

No meu dirigível para as estrelas.