domingo, 18 de maio de 2014

O cavaleiro invisível

Jorge Adelar Finatto

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832-1883)

Um homem só, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido do cotidiano.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcinéia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida real é insuficiente. Falta vida à vidinha.

Dom Quixote, por Gustave Doré

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.

Montado no magro Rocinante ele vai ao mundo, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco como o amo, um pouco mais sensato talvez, montado em seu jumento. Lá vão eles pela solidão da estrada.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora do fundo da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam. O Quixote sonhou e tentou; o seu tentar valeu por tudo.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote. Essa afirmação vale um tratado de filosofia. Vale uma vida.

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¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações: Wikipédia.
Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O dinossauro postal

Jorge Adelar Finatto

 
As cartas são - ou foram - uma bela forma de comunicação entre as pessoas. Havia quase um ritual: pensar, sentir, escrever, pôr no envelope, levar ao correio. E depois a expectativa da resposta.
 
Era um mundo diferente com tempos diferentes. A vida era mais lenta. Com menos pressa, vivia-se a longo prazo. Amanhã todos seriam felizes. As coisas amadureciam, cada uma tinha seu momento.

Agora é só rapidez, angústia. Falta tempo pra viver. E faltam cartas perfumadas!
 
Durante muitos anos mantive uma caixa postal na agência dos correios em Porto Alegre. Era jovem, pobre e mudava de endereço com certa freqüência (mesmo detestando mudanças). Era o modo seguro de não extraviar a correspodência. 

Essa caixa postal foi a sala de uma morada espiritual, solta no espaço, de etérea arquitetura, lírica e afetiva. Uma espécie de caverna entre nuvens onde recebia amigos para conversar, trocar idéias, fazer projetos, compartilhar sonhos, saber da vida, do mundo.

Tudo isso, claro, em textos manuscritos com tinta azul. Vivia na luta do estudo e do trabalho, carregava muitas esperanças. Ia duas ou três vezes por semana no correio abrir a caixa.

Não havia outra maneira de trocar mensagens para a maioria das pessoas, além da carta. O telefone, caro e acessível a poucos, limitava-se a uso eventual e para conversas ligeiras.

Na caixa postal recebi cartas que encheram meu coração. Entre outras, de Carlos Drummond de Andrade, Ênio Silveira, Moacyr Félix, João Antônio, Ferreira Gullar. Mesmo escritores importantes como esses dispunham-se a escrevê-las a seus leitores. Hoje, mesmo com a facilidade do e-mail, essa troca pouco acontece. As distâncias, como as vaidades, aumentaram. Isso não há tecnologia que resolva.

Não vou falar mal do e-mail e de outros recursos eletrônicos. Cada um tem seu valor e ocasião. Vale lembrar que a troca de informações por celular (telemóvel) já salvou vidas em acidentes e tragédias. As novas tecnologias não são inimigas da comunicação postal. Outros fatores colaboram para seu desuso.

A carta demanda um tempo e um estado de espírito que talvez não existam mais.

Salvo se algo diferente acontecer, as cartas estão perto da extinção. Há uma geração inteira que não se utiliza delas. Os meios eletrônicos de comunicação ocuparam seu espaço: mensagens rápidas, curtas, sinais, abreviaturas, quase em código. Poucos, por exemplo, escrevem abraços e beijos: disparam abs. e bjs.

Com o fim das cartas perde-se importante fonte de pesquisa documental. Estudos culturais e literários valiosos foram feitos sobre correspondências de remetentes e destinatários.

As cartas lançam luzes sobre a vida de indivíduos, suas obras, e sobre as sociedades nas quais viveram. Com base em e-mails isso dificilmente será possível.

A correspondência de Van Gogh e seu irmão mais novo Theo (que o sustentou até a morte, sendo responsável, em boa medida, pelo aparecimento da obra do genial pintor holandês) é uma das mais ricas e reveladoras que vieram a lume. Nas cartas, Van Gogh abre sua alma, reflete sobre a existência e a arte com profundidade e sentimento.

Não sei há quanto tempo não escrevo nem recebo uma carta. As últimas foram no século passado. Talvez não volte a escrever nunca mais. Por isso guardo as velhas cartas com cuidado na gaveta. De vez em quando releio alguma e me enterneço. Me sinto testemunha de um tempo extinto. Sou um dinossauro postal.

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Cartas perdidas:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/cartas-perdidas.html
O silêncio de Van Gogh:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/12/o-silencio-de-van-gogh.html