quinta-feira, 10 de julho de 2014

A terceira margem do rio

Jorge Adelar Finatto
 
Guimarães Rosa
 
 
Escrevo hoje com apenas um compromisso que me dei. Umas poucas linhas. Pra dizer aos improváveis leitores desta página que habita a nuvem virtual o seguinte: não deixem de ler, antes de morrer, o pequeno conto A terceira margem do rio, do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967).
 
Só isso. Façam este bem a si próprios. Não percam tempo lendo coisas menores, imposições do mercado editorial. Por que fariam isso se a vida é tão breve e a alegria tão escassa? Mergulhem no alumbramento rosiano. Um mistério da língua portuguesa. Façam a leitura que Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Lima Barreto não puderam fazer por desencontros do calendário. Dêem-se essa oportunidade. Encantem-se.
 
Nem vou invocar o Grande sertão: veredas (1956), monumento literário, estético e lingüístico. (Por isso, difícil, exigente, extenso, quase uma impossibilidade para a maioria dos leitores de agora tão afogados na falta de tempo.) Mas não existe glória sem luta, diz o surrado brocardo. Ler este romance é uma das boas coisas que um vivente pode fazer nesta existência. Nem que seja depois da aposentadoria.

A terceira margem do rio mostra a força e o tamanho do gênio do escritor em poucas linhas. Está no livro  Primeiras Estórias (1962). Chego a ter pena, sinceramente, de quem não sabe português.
 
Como diplomata de carreira, o senhor Rosa salvou muitos judeus da morte nas mãos sanguinárias de Hitler e seus agentes, quando ocupava o posto de  Cônsul Adjunto em Hamburgo. Através da concessão de vistos, promoveu, junto com a mulher Aracy (Ara), funcionária do consulado, a salvação de muitas vidas, protegendo a fuga dos perseguidos.

Aracy Guimarães Rosa
 
Em 1985, o governo de Israel concedeu ao casal a mais alta distinção atribuída aos que, com risco da própria vida, deram amparo e evitaram a morte de judeus durante a 2ª Guerra Mundial. O nome de ambos foi dado a um bosque nas cercanias de Jerusalém.
 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto
 
photo de joaninha: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]


Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando.

É talvez o acontecimento mais importante do universo.

Nenhuma literatura e nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha.

Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da construção da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um blog a sério não devia ignorar isso. Tudo bem.
 
O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma que somos, como um raio de sol na janela ou caído dentro de um copo dágua sobre a mesa.
 
As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam.

Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha. Talvez tudo isso não passe de mais um dos meus notórios enganos.
 
O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico.
 
Quando se perde a palavra, é como se perdêssemos a vida. Deus nos livre e guarde.
 
Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar um pouco, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais.

Mas sei também que ninguém pode viver entre as nuvens.

Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da existência e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes e comoventes da joaninha.

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Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.