quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A fuga das sombras

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto, 24/9/2014
 
Nós que andamos festejando a chegada dos dias luminosos de setembro, que abrimos todas as janelas para a fuga das sombras, temos que ter uma certa calma. Hoje (quarta-feira, 24/9), por exemplo, em Passo dos Ausentes, fez um perfeito dia de inverno, o que, aliás, não é de se estranhar por essas bandas em qualquer época.
 
O frio era tamanho que retirei o capote do armário para sair de casa à tarde. Fui tomar um café com os amigos no Café da Ausência, na velha estação de trem abandonada. As conversas entremeadas pelos acordes do bandoneón de Juan Niebla, que percorria sonoridades entre Bach e Piazzolla.
 
Neblina cerrada, um pouco de chuva. As botas úmidas, as sensações úmidas. Pra suavizar, um aroma de flor solto no ar que expulsa a tristeza e faz um bem danado ao coração da gente. 
 
Depois saí pela estrada com o guarda-chuva vermelho atravessando a cerração. Sim, feliz como um peixe, porque também pode haver beleza num dia frio, gris e molhado, em que somos convidados a visitar nossos aposentos interiores.
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Os sapatos da primavera

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Da minha janela eu vejo a rua. A rua é um pedaço do mundo. É só uma rua entre tantas.

O mundo é um rio largo e fundo. O tempo dos galhos secos cessou. A claridade de setembro invade a sombra.

Escuto na calçada o som de passos que vêm de muito longe. Mas não há ninguém lá fora nessa hora erma. O vento sacode as folhas nas árvores.

A carroça cheia de flores dobra a esquina, para no meio da quadra, debaixo do poste de luz. Na manhã que se aproxima, as pessoas encontrarão a carga suave e perfumada.

Enquanto escrevo, coisas luminosas acontecem em silêncio. Da janela observo esse ponto pequeno e obscuro do universo, que chamo minha rua, onde todos agora dormem. Mãos desfalecidas nada podem segurar.

Nenhum grito assola a hora nua. O sonho levanta do escuro.

Os sapatos da primavera cantam na calçada.
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Texto revisto, publicado antes em 30 de agosto, 2010.