terça-feira, 28 de outubro de 2014

A hora solitária

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 

Há uma hora solitária em que as estrelas não se apagaram ainda e nem o sol se levantou na linha do horizonte. Uma hora de expectativa e angústia.

O pássaro ensaia os primeiros movimentos do seu canto perto da minha janela. Eu passei a noite lidando com palavras. Frio e cansaço habitam essa hora erma.

Fecho as cortinas. Desligo as luzes. Puxo a manta até o pescoço, me estico no sofá do escritório.

Dom Quixote e Sancho Pança, exaustos de tantas andanças nas páginas do velho livro, dormem num canto da estante. Os personagens dos outros livros fazem o mesmo no silêncio e obscuridade das prateleiras.

Precisamos todos descansar das palavras. Precisamos dormir, dormir e esquecer. Não queremos claridade nem rumor de páginas tão cedo.

O dia avança como um touro louco pelas ruas da cidade. Corre furioso atrás de um incauto e distraído leitor. O touro nada sabe de livros. Leitores são presas fáceis na aurora.
 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

 
I

Dizem
que escrever
poemas
é ofício
de pouco valimento

mas pouco se revelou
sobre a memória
da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o sombrio corredor
onde se morria
um pouco todos os dias
sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas

os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram
e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.