sábado, 1 de novembro de 2014

Escutar o outro

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. 31-10-2014


Escutar o outro é, talvez, a forma mais elevada de sensibilidade.

O mundo está povoado de seres falantes, que só escutam as próprias razões, num monólogo ensurdecedor. Cada vez tem menos gente disposta a ouvir e a refletir, de coração aberto, sobre o que o outro tem a dizer.

O respeito, a empatia, para essas pessoas, não têm voz nem vez. O que vale é ter razão sempre, impor a própria vontade, não importa a que custo.

Somos inquilinos de um tempo que não nos pertence.

Existimos por um momento e depois vamos habitar a memória de Deus (aqueles que creem) ou simplesmente nos esfarelamos e não se fala mais nisso (os que em nada acreditam). A transitoriedade da vida é comum a uns e outros.

Há aqueles, contudo, que vivem como se fossem eternos, como se não tivessem de devolver um dia o seu quinhão de vida. Sentem-se livres e legitimados a executar os próprios desejos e torpezas. O mundo é seu brinquedo.
 
A todos querem submeter e devorar com a urgência dos vampiros (tão em voga, hoje, nas telas). Vivem sem qualquer noção de limite, nenhuma ideia de bondade com o semelhante (e, menos ainda, em relação ao diferente).

Como viver em meio tão hostil e infenso a valores humanos?

De minha parte, estou empenhado em arrumar a casa do ser. Sonho e trabalho, de sol a sol, para mantê-la limpa, com ar fresco e o claro aroma das manhãs. Espero que as pessoas se sintam acolhidas nessa casa simples, com flores da estação na janela.

Sei que é possível ser solidário com o próximo, ainda que o espaço para generosidades esteja cada vez menor.

Todos estamos envolvidos na árdua tarefa da sobrevivência. Mas isso não justifica a violência que vemos no dia a dia, explícita ou dissimulada.

O sofrimento é filho da prepotência, da vaidade exacerbada, da indiferença e da arrogância. Todo exercício arbitrário de poder sobre os outros é perverso.

Podemos viver ao lado das pessoas e não contra elas. Amorosamente.

Enquanto estamos vivos, temos essa bela oportunidade. Não vamos desperdiçá-la.

_________
 
Texto revisto, publicado antes em 29, junho, 2011.
 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Drummond 112

Jorge Adelar Finatto
 
Carlos Drummond de Andrade¹
 
                             
                            Mundo mundo vasto mundo,
                            se eu me chamasse Raimundo
                            seria uma rima, não seria uma solução.
                            Mundo mundo vasto mundo
                            mais vasto é meu coração.²
                                                   
                                             Carlos Drummond de Andrade
                                              
 
31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais. Nascia Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta brasileiro do século XX.  Nos deixou em 1987.
 
Os 112 anos de seu nascimento hoje lembramos.
 
A Drummond a nossa sentimental recordação no seu dia, último de outubro. O nosso reconhecimento pelo notável cidadão que soube ser ao lado do poeta e escritor imensos.
 
A nossa gratidão pela obra imortal que legou à língua portuguesa e a todas as línguas do mundo.

_________

¹O crédito da foto será registrado tão logo conhecido o autor.
²Poema de Sete Faces, fragmento. In Reunião: 10 livros de poesia. Carlos Drummond de Andrade.   Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1977.