quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A palavra

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto, 18/11/2014
 
Eu não costumo me queixar da vida. Primeiro, porque não adianta muito. As pessoas estão muito ocupadas com seus próprios problemas, não há tempo para parar e ouvir o outro. Se matar não vale a pena. A gente tem que trabalhar honestamente pra tentar melhorar as coisas.
 
Mesmo num país com a tibieza moral e ética do Brasil, principalmente nas altas esferas de poder, ainda é possível procurar um lugar ao sol sem roubar nem pisotear os outros.
 
Não me queixo, antes de tudo, porque tenho muito mais razões para agradecer.

A vida é difícil, todos sabem, mas para alguns exagera nas tintas. Tem gente que não consegue coisas como ter um trabalho, uma família, uma casa, alguns sonhos tornados realidade. É só dureza, sem cor, sem literatura. Mas enquanto se está vivo tem-se de buscar sempre.
 
Eu não reclamo, raro leitor, só tenho a agradecer. A Deus e a pessoas generosas que encontrei pela vida, que me ajudaram a ser, a crescer. Pensando bem, não foram poucas. Pensando bem, o mundo tem muita gente que vale a pena. 
 
Mesmo nos momentos mais duros, escuros, uma luz sempre se acendeu na estrada. Sou grato.
 
Nunca posso perder de vista esta palavra: gratidão. Está no Aurélio: gratidão (do latim tardio: gratitudine), substantivo feminino. 1. Qualidade de quem é grato. 2. Reconhecimento por um benefício recebido; agradecimento, reconhecimento.
 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Os sem-leitor

Jorge Adelar Finatto 

fonte da photo: jornal Público, Portugal


Existe um ser cada vez mais raro na face do universo.

Astrônomos passam as noites em claro, mirando os telescópios para o desconhecido, na incansável busca.

No momento em que traço essas linhas, inúmeras expedições científicas partem pelo cosmo à procura dele.

É quase tão belo como a estrela da manhã. É mais luminoso que a aurora boreal. É mais precioso que o mais raro diamante.

Por causa dele, blogueiros do mundo inteiro invadem as noites oferecendo seus serviços. Impressionantes editores perdem o sono à sua menor lembrança.

O ser em questão - o misterioso - é o senhor da lista dos mais vendidos, o sonho dos famélicos e maltrapilhos fazedores de livros. Por ele, Cervantes e Thomas Mann foram às vias de fato, Dom Quixote e Hans Castorp romperam relações.

Macunaíma, Anjo Malaquias e Urutu Branco não trocam mais e-mails. É o início do fim dos tempos, ou quase isso.

Os cafés literários perderam o sentido sem a poderosa presença do desaparecido.

As livrarias estão repletas de musas e personagens desempregados. Seria cômico, não fosse o fim de uma era.

Onde andará aquele que é a razão do meu trabalho?, perguntam-se miríades de escritores e poetas, na fria solidão.

A Academia Sueca devia criar o Prêmio Nobel de Leitura, em homenagem a ele, o inefável.

As noites de autógrafos, hoje, só são bem-sucedidas quando é ele quem assina os livros, enquanto os autores esperam a vez na infinita fila.

Não vereis dele mais que o fugidio vulto esgueirando-se no labirinto dos blogs e soturnas bibliotecas.

No entardecer de ontem, cerca de 150 bardos - entre maus, razoáveis e bons - cometeram suicídio no cais de Porto Alegre. Sob o olhar aterrorizado das mães e gritos desesperados das musas, os suicidas foram ao fundo do rio com grossos volumes amarrados ao pescoço.

Mais de mil caravelas estão partindo a essa hora de Lisboa em busca de um rastro do indizível em alto mar.

O impensável está acontecendo.

Escritores enlouquecidos batem-se em sangrentos duelos nas praças e ruas da cidade.

As últimas notícias dão conta de que livros famintos estão atacando e devorando escritores. Invadem seus locais de trabalho e, com requintes de crueldade, cometem o bárbaro crime.

Aproveitam-se da solidão literária das vítimas, que começa no ato de criar e se estende até o texto sem leitor, e as destroçam.

Depois só restam folhas brancas, embebidas em sangue, espalhadas no chão.
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Texto revisto, publicado neste blog em 12 de fevereiro, 2010.