sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Crônica do trem fantasma

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto

 
O trem noturno avança noite adentro. Antigamente era esperado por todos com grande ansiedade em Passo dos Ausentes, nas noites de sexta-feira.
 
Que trem será esse que escuto agora, se já não há trilhos, se o mato tomou conta dos dormentes da velha estrada de ferro?
 
Escuto-o passando ao longe com suas pesadas rodas de aço. Faz um túnel na neblina e espalha a fumaça branca em direção às estrelas.
 
O vetusto trem trazia jornais, cartas, viajantes, mercadorias, animais e até fantasmas. Vinha desde Porto Alegre, subia a Serra entre pinheiros e penhascos, atravessava pontes.

Quando chegava nos Campos de Cima do Esquecimento, não tinha mais fôlego pra nada após se arrastar pelas encostas das montanhas, contornando abismos.
 
Que traz esse trem que escuto nas entranhas do vento? 

São fantasmas que retornam para tomar posse de seus lugares à mesa das casas abandonadas. Seus apagados rostos procuram espelhos, os calados passos vêm em busca de corredores.

Ouvimos de suas bocas o longo e melancólico silêncio do nosso desamparo.
 
Enquanto estou na cozinha, bebendo café com leite e comendo um pedaço de pão com manteiga, ouço o trem noturno deslizar sobre trilhos invisíveis às quatro da manhã.

O vento de fins de novembro açoita a solidão.
 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O lavrador de Ipanema

Jorge Adelar Finatto
 
Rubem Braga. fonte: divulgação

Não, esta crônica não pretende salvar o Brasil. Vem apenas dar testemunho, perante a História, a Geografia e a Nação, de uma agonia humilde: um córrego está morrendo. E ele foi o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância.*

                                          Rubem Braga

Quando vou a Porto Alegre, costumo visitar uma livraria que tem, logo na entrada, uns caixotes com livros em promoção. Descobri esse espaço não faz muito tempo e o incluí no meu roteiro literário.
 
Nos caixotes há centenas de volumes e é preciso ter paciência e tempo para garimpar. Eu tenho. O prêmio pode ser um livro daqueles de não se esquecer e a preço encorajador nesses tempos difíceis. 
 
Da última vez em que lá estive, a sorte estava comigo. Encontrei um livro que considero uma preciosidade editorial. Trata-se de uma edição primorosa de crônicas de Rubem Braga (1913-1990), versando sobre o seu amor à natureza. Intitula-se O lavrador de Ipanema.
 
É uma antologia recente (2013), organizada com visível carinho e esmero por Januária Cristina Alves e Leusa Araujo. O belo projeto gráfico tem a autoria de Leonardo Iaccarino. Capa dura, papel excelente, tipo de letra, cores e diagramação impecáveis. Mesmo um sujeito com grossas lentes como eu sente-se à vontade diante das páginas.

A sensível e esclarecedora nota editorial é feita pela escritora e editora Guiomar de Grammont. Pra completar, povoam o volume belas ilustrações de Andrés Sandoval.
 
É o tipo de livro que todo escritor gostaria de fazer. Um livro que é, ao mesmo tempo, uma jóia. A edição está à altura dos textos do Príncipe da Crônica, como o chamava o editor da revista Manchete, Adolfo Bloch.

capa e duas das ilustrações. fonte: site Editora Record

A extraordinária beleza das crônicas, sua simplicidade e seu conteúdo humanista nos levam para esta ilha de felicidade que só a leitura proporciona. É o que eu sinto ao ler e reler os 14 textos que compõem a obra.
 
Rubem Braga é um clássico da crônica em língua portuguesa. Faz parte da seleta estante onde figuram autores que deram dignidade e relevo ao gênero, tais como Machado de Assis, Alvaro Moreyra, Drummond, Nelson Rodrigues e José Carlos Oliveira, entre outros.

Com ternura e sem ostentação, o escritor revela-nos histórias sobre plantas, pássaros, rios, córregos, matas, cidades e pessoas, chamando a atenção para a conflituosa relação homem-natureza. Assim fazendo, humaniza-nos. É bastante conhecido o fato de que transformou o terraço da cobertura onde vivia em Ipanema, na cidade do Rio, numa plantação de árvores frutíferas e outras plantas.

Rubem Braga foi amigo e defensor da natureza muito antes dos movimentos ambientalistas. É o escritor comprometido com a vida. Trabalha com poucas palavras, mas com tal riqueza, elegância e força expressiva que acaba fazendo de cada crônica uma obra de arte.

O autor conseguiu, com seu humanismo e maestria de artesão, extrair das palavras aquilo que elas podem dar de melhor.
 
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*O lavrador de Ipanema, Rubem Braga. Trecho da crônica Chamava-se Amarelo (págs. 78/83). Editora Record, Rio de Janeiro, 2013.
Leia também sobre Rubem Braga: A borboleta amarela
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/01/a-borboleta-amarela.html