quarta-feira, 15 de abril de 2015

Eduardo Galeano

Jorge Adelar Finatto

Galeano no Café Brasilero, Montevideo, 2002. Autor: Andres Stapff, Reuters. 
 
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
 
                           Eduardo Galeano, in Mulher que diz tchau ¹
 
A morte de Eduardo Galeano, aos 74 anos, em Montevideo, na segunda-feira, 13/4/2015, é uma perda não só literária como afetiva para seus leitores espalhados por muitos países.

Estive duas vezes em Montevideo este ano. As viagens coincidiram com os últimos dias de José Pepe Mujica na presidência do Uruguai.
 
Um dos meus passeios preferidos em Montevideo é ir ao Café Brasilero, na Cidade Velha. Galeano era habitué do lugar. No ambiente de fins do século XIX, ele lia jornais, revistas, conversava com amigos e com estranhos que queriam conhecê-lo. Era gentil e solícito.²
 
Nas últimas vezes em que lá estive, sempre perguntava por ele ao moço ou moça que vinha me atender. As respostas eram "ele está doente, não tem aparecido" ou "ele melhorou, veio aqui na semana passada". Nunca tive ocasião de vê-lo, tampouco a este outro grande escritor uruguaio, Mario Benedetti (1920-2009), que também gostava do café. Mas era bom saber que eles costumavam ir ali.
 
Travei conhecimento com a obra de Galeano em 1977 ao ler este pequeno/grande livro de contos que é Vagamundo (96 páginas). Nos textos breves, o escritor atingiu uma intensidade poética poucas vezes alcançada no gênero. Uma obra-prima.³

É um livro que se constrói, em parte, no clima infernal das ditaduras sul-americanas (a primeira edição é de 1973, ano do golpe que instalou a ditadura civil-militar no Uruguai. A ditadura civil-militar brasileira já vinha desde 1964). Mas vai além. Há tal esmero literário e o resultado é tão elevado, que transcende as circunstâncias em que foi concebido e se afirma enquanto obra. É um trabalho artístico de rara beleza. Só um escritor no domínio do ofício e amoroso da vida consegue isso.

Depois de Vagamundo li outros livros do autor, mas aquele me marcou mais que todos.
 
Eduardo Galeano era honesto a ponto de criticar, no ano passado, seu maior sucesso, As veias abertas da América Latina, durante entrevista na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, onde foi homenageado. Admitiu que, quando o escreveu, não estava suficientemente preparado para abordar alguns dos temas. Acrescentou que o tempo havia passado e tinha descoberto outras maneiras de se inteirar da realidade, concluindo que não gostaria de reler o livro. Além disso, considerava a linguagem de esquerda tradicional chatíssima.4 

Não é todo dia que um escritor tem essa transparência. Um homem assim generoso merece a estima e o respeito de todos. Pertencia a uma estirpe em extinção. Deve, por isso, ser lido e admirado por todas as coisas boas que pensou e escreveu, que não são poucas.
 
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¹Vagamundo. Eduardo Galeano. Editora Paz e Terra, tradução de Eric Nepomuceno, 2ª edição, Rio de Janeiro, 1977. Com apresentação de Otto Maria Carpeaux.
²Café Brasilero:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2015/01/la-dulzura-puede-cambiar-el-mundo.html
³O testemunho dos livros:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/o-testemunho-dos-livros.html 
 

4Leia matéria sobre o escritor no jornal O Globo:
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-escritor-jornalista-uruguaio-eduardo-galeano-aos-74-anos-15856331
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto

designer: Deus. photo: jfinatto


A fala principial que lhe dirijo, ó, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as brumas dos Campos de Cima do Esquecimento.

Me esqueço no esconso do mundo. Meu revólver é o calepino.

Vento de julho quase me derruba.

As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessias a que os fados nos obrigam.

O sonho muito sonhado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros. Invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa em solidão concebida, menos tida que havida. Só a conheci de vista, na janela da mansarda, quando lá embaixo ela passava. Eu poeta tímido e sufocado.

Sentimentos que teço no abismo dos dias. Dores que não têm conta.

O fosso profundo do fundo de cada um. Meu Deus.

Foi assim.

Os vazios dias, minhas tardes distantes, à beira do penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta, atrás dos óculos de fundo de garrafa. Não vivo mais na borda dos penhascos. Saltei para dentro da lira. O consolo possível.

Esta página escrita no sótão, arrostando vento e solidão.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um poema que um tostão. O frio glacial dessas alturas inóspitas.

Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. Eis-me de ponta cabeça no perau do texto.

São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece. A vida.

O que não se tem se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado.

A humanidade enaltece a ruína, mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões do mundo!

Cléria, sim, Cléria do capucho branco e do casaco azul claro. Cléria dos meus tormentos. Dos meus espantos e secretas ternuras. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido rosa com a fita lilás. Entrou e saiu do meu sonho sem saber.

Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu o que quero agora é a solidão dos ventos gelados.

Meu olhar atravessando as névoas eternas.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas de silêncio nos ares da infinita montanha.

Ela se foi pela estrada de ferro, sem dizer adeus.

Nas minhas saudades, ouço o ranger do velho trem saindo da estação.

A sintaxe é território que se conquista na dureza de batalhas cruentas. Palavras são coisas que criam asas e depois se lançam.

Agora sou o navegante. Viajor do tempo. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com a bicicleta retorcida nas pedras.

 O sobrevivente, ridículo pierrô interiorano.

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Texto revisto, publicado antes em 13 de outubro de 2010.