quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Retrato de um tempo morto

Jorge Adelar Finatto
 
Foto: Nilufer Demir/REUTERS/DHA. soldado turco encontra o corpo

O corpo do menino Aylan Kurdi, de três anos, encontrado morto na areia da praia de Bodrum, na Turquia, ontem, após mais um naufrágio de embarcação carregada de pessoas que buscam refúgio na Europa, é o retrato de um tempo terrível.

O doloroso, trágico e intolerável destino de Aylan mostra a face escancarada de uma humanidade que perdeu qualquer noção de dignidade da vida humana.

Não é só o pobre menino que está morto com o rosto enterrado na areia. Todos nós morremos ali com ele.
 
Ao ver a imagem, senti uma profunda vergonha e uma enorme revolta. Vergonha e revolta, sim, por pertencer a uma espécie de seres capazes de criar uma realidade com essa força de destruição e falta de amor ao próximo. A indiferença, o egoísmo abissal e a maldade são o móvel que permite que crianças e adultos sejam jogados ao fundo do mar e depois acabem depositados pelas águas numa praia qualquer.
 
No caso do menininho, acabou-se ali uma vida que mal começava e sobre a qual recaiu tamanho ódio. Ódio irracional que fustiga seres como ele nos países de origem (Oriente Médio e África) e em parte das populações de países europeus que não querem dar-lhes abrigo. 
 
Consta que Galip, de cinco anos, irmão de Aylan, também perdeu a vida na travessia. Ambos morreram afogados quando sua família fugia da Síria em direção à ilha grega de Kos, num percurso rumo à Europa ocidental. A guerra na Síria já dura quatro anos.
 
 
Dados da ONU revelam que mais de 2600 pessoas morreram afogadas no Mediterrâneo, neste ano, em fuga da violência em seus países. Viajam em precários barcos, nas mãos de traficantes de gente, que cobram cerca de 1800 euros por pessoa pelo "serviço" macabro.
 
A maioria está buscando a Alemanha, cuja economia é a mais desenvolvida da Europa. Angela Merkel, chanceler federal alemã, tem adotado um postura de acolhimento, opondo-se à ultradireita e aos neonazistas alemães. Alguns gritam o nome de Hitler e jogam pedras nos imigrantes. Merkel e o presidente francês François Hollande defendem um sistema de cotas, a fim de que todos os países europeu recebam refugiados.
 
Alguns cientistas opinam que a Alemanha e outras nações europeias podem beneficiar-se com a chegada desses imigrantes. Uma vez integrados pelo estudo, pela participação e pelo trabalho, podem trazer riqueza e um amanhã melhor a esses países, repondo a população naqueles de baixa natalidade.
 
Penso que a Alemanha, em especial, tem a grande oportunidade histórica de recuperar-se, em parte, dos crimes cometidos pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ao dar guarida e um futuro a essas pessoas, a Alemanha poderá escrever uma nova página sobre os anos de barbárie. Demonstrará, assim, ao mundo, que é possível mudar e redimir-se do passado sangrento, salvando vidas.
 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

No tempo das pandorgas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

 
Na rua São João, a pandorga simbolizava nossa sede de infinito. Carregava nossa imaginação, nossos sonhos, nosso gosto pela liberdade, o desejo de ir além. 

No tempo das pandorgas, andávamos lá no alto, o coração pulsando ao vento. O resto não importava.

Uma das chateações da minha meninice era não conseguir construir e soltar pandorgas. Os meninos do bairro eram bons engenheiros e pilotos dessas coisas que voam. A época ideal de soltar pandorgas devia ser o início da primavera, mas não estou certo.
 
Eu pilotava as pandorgas dos amigos, quando emprestavam. Passei pelo vexame de derrubar várias delas. Mas o primo Rogério me consolava: - Quem nunca emborcou uma pandorga?
 
Em compensação, soltei muitos guarda-chuvas em dias de ventania nos Campos de Cima do Esquecimento. Nunca soube onde foram parar. Sempre fui amigo dos pássaros, esses seres que, como os chapéus de chuva e as pandorgas, também voam. Nem pensar em gaiolas. Observando-os, tornei-me cativo de seu canto, suas cores, seus voos. 
 
Caminhei hoje pelo córrego, pisando seixos, à procura de peixinhos coloridos pra fotografar e restos de estrelas cadentes. Uma mochila nas costas, a estrada de terra, os perfumes da primavera que se acerca em setembro. Quem resistir pode?