quinta-feira, 16 de junho de 2016

Provisoriamente bruma

Jorge Finatto

photo: jfinatto


A hora mais deserta é a madrugada, quando Alberto Bruma das Horas só ouve a respiração das coisas e todas as pálpebras se fecharam, menos as dele.
 
Sentado no telhado, sentado no corredor, sentado no quarto (do lado da janela), sentado embaixo da claraboia, sentado no banco da estação de trem, sentado no escritório (tão perto das estantes que ouve o rumor das palavras).
 
Está provisoriamente longe dos livros (ele que sempre amou o cheiro do papel, a textura das capas e das folhas). 
 
Sofre a nostalgia da claridade perdida. Uma vaga luminosidade o habita. Não pode fotografar o mundo como antes. As folhas, as árvores, os caminhos de terra, as flores, as montanhas, os vales, os córregos: bruma.

O muro de taipa dorme na tarde fria e silenciosa de junho. Ocres e azuis renascentistas. Outono. Tudo tão distante.
 
Em meio à névoa, ele respira jasmins, camélias, orquídeas e magnólias do jardim da casa interiorana.

Ouve a conversa dos passarinhos, cantando, voando num lugar que mais parece uma pintura de Raffaello Sanzio. As nuvens brancas como algodão num profundo azul.

As pinhas arredondam nos pinheiros. De certa forma, está vendo outra vez.

O belo mundo das coisas entra pelos olhos da alma.
 

sábado, 11 de junho de 2016

Café dos Ausentes

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Os habitantes dos Campos de Cima do Esquecimento sabem que só se vive uma vez e por isso padecem severas solitudes nesse mundo. A ideia da transitoriedade da vida se faz sentir especialmente no inverno. Tempo de dispersa solidão.
 
Passo dos Ausentes, nossa velha aldeia, tem 600 e poucas almas que penam na grelha da existência. Montanhas e brumas fizeram de nós o que somos: esse jeito calado, desconfiado, sempre ao desamparo.
 
É fácil reconhecer um ausentino na multidão. Basta olhar o abandono estampado na cara: é a marca indelével. Mas estamos aí, viventes desse mundo de Deus, sobreviventes de um tempo que se esfuma impiedosamente.

O frio polar dos últimos dias torna rara a presença humana fora das casas. A temperatura média, durante o dia, tem sido de -6 ºC. À noite desce para álgidos -12 ºC, -15 ºC. O Vale do Olhar, submerso no nevoeiro de algodão, é bonito de se admirar no Belvederezinho da Ausência, a dois mil metros de altitude. No local três troncos de pinheiro fazem as vezes de banco para os visitantes. Todo dia 15 de cada mês os Capuchinhos do Perpétuo Amanhecer ali se reúnem para ver o sol nascer.

Em silêncio e de pé, com os capelos sobre a cabeça e seus hábitos brancos enlaçados com corda na cintura, observam o vale. Depois que o sol se ergue, retiram-se em fila. Atravessam a cidade tão silenciosamente que ninguém ouve seus passos. Somem na estrada de chão batido em direção ao convento no Contraforte dos Capuchinhos.
 
Antes de começar a falar sozinho, no ermo invernal, é melhor sair de casa e ir ao encontro dos amigos, no Café dos Ausentes, na antiga estação de trem. Nas terças-feiras Juan Niebla faz ali um concerto com seu bandoneón argentino. No cardápio, músicas de Piazzolla, Francis Poulenc, Villa-Lobos e Joaquín Rodrigo, entre outros.

Nos sábados, o programa é "Conversa na Estação", bate-papo de Niebla com Don Sigofredo de Alcantis e quem mais quiser. O tema do próximo encontro será, conforme cartaz fixado na porta do café:

"O dia em que o filósofo espanhol Miguel de Unamuno desafiou a ditadura incipiente do general Franco diante de cerca de 300 soldados armados, no salão de atos da Universidade de Salamanca, da qual era reitor, durante a cerimônia de abertura do ano acadêmico, em 12 de outubro de 1936, ao proferir o célebre discurso Vencereis, mas não convencereis. De como escapou da morte certa graças à intervenção de Carmen Franco, mulher do ditador, que o retirou do local e o levou para casa dele, onde permaneceu em prisão domiciliar e perdeu suas funções".*

Nessas alturas austrais, a palavra e a música nos aproximam e nos tornam conviventes.

Solidão é quando a madeira da casa começa a estalar e ranger por causa do frio e da umidade, como um velho barco rasgando as ondas do mar.

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*Don Miguel de Unamuno:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/02/visita-don-miguel-de-unamuno.html