quarta-feira, 2 de maio de 2018

Stefan Zweig e a gratidão aos livros

Jorge Finatto
 
escritor Stefan Zweig
 
Um dia completo é raro. Por isso, quem o passou inteiro e quem o pode passar, tem o dever de ser grato e manifestar sua gratidão.
        Stefan Zweig, Encontros com homens, livros e países, ensaio Inolvidável acontecimento, p. 101

QUEM GOSTA DE LIVROS acaba por descobrir caminhos que levam a formar uma pequena biblioteca pessoal. Nos exemplares adquiridos ao longo do tempo encontramos abrigo e beleza. Os livros que cultivamos dizem muito sobre quem somos.
 
Muitos livros vêm até nós de forma casual. É quando não se tem em vista nenhum autor específico. Lançamos a rede ao acaso em visitas a livrarias. Muitos dos que me são mais caros eu não teria encontrado sem a pesquisa em sebos (no Brasil) e alfarrabistas (Portugal).
 
Nos últimos dias, andava atrás de um ensaio do escritor austríaco Stefan Zweig (1881 - 1942) intitulado Despedida de Rilke. Não sabia em que livro encontrar. Pesquisei na internet. Só que as novas edições de suas obras, no Brasil, estão ligadas à ficção.
 
No mercado de sebos, escolhi seis livros nos quais poderia achar o texto. Telefonei para a Livraria Traça, que trabalha com novos e usados, e fiz reserva. No dia seguinte fui buscá-los. À noite, em casa, procurei pelo tal ensaio. Não só encontrei o que procurava, como encontrei outros cinco livros importantes de Zweig. São edições muito antigas.
 
Encontros com homens, livros e Países contém coisas preciosas. Além do ensaio sobre Rilke, há outras maravilhas como Gratidão aos Livros, Pequena Viagem ao Brasil, Arthur Rimbaud, Dante, Goethe, Mahler, entre tantos. É uma edição de 1939, da Editora Guanabara, do Rio de Janeiro, tradução de Milton Araújo.
 
 
Embora velho, o livro está conservado e andou por mais de um sebo pelas marcas que traz. Me impressiona o fato de que a maior parte das folhas ainda está grudada, necessitando espátula para abri-las. Evidência de que não foi lido. Um achado com 80 anos de idade.
 
Zweig é um autor imenso, dos mais importantes, criativos e lúcidos do século XX. De origem judaica, suicidou-se juntamente com a mulher Lotte na cidade de Petrópolis, Estado do Rio, onde vivia exilado. Estava deprimido com a Segunda Guerra Mundial e as barbaridades do nazismo.
 
Como escritor, ultrapassou o tempo que lhe foi dado viver. Tem mensagens essenciais para leitores de todas as épocas.  
 

sábado, 28 de abril de 2018

Encontro com escritores: António Lobo Antunes

Jorge Finatto

António Lobo Antunes. fonte: site Portal da Literatura
                                                                                                       
Tinha chegado a LISBOA vindo de Zurique. Passei no hotel e fui em seguida aos Pastéis de Belém, ali ao lado do Mosteiro dos Jerônimos, para uma taça de café e o indizível pastel de nata da casa. Mais de um, na verdade, como não deixa mentir este corpinho. Como sempre, o lugar estava cheio de turistas.
Fiquei ali cerca de uma hora, entre o café, os pastéis e o jornal. Depois saí a passito pela rua apesar do frio. Quando passava em frente ao Palácio de Belém, sede da Presidência da República, notei um alvoroço de estudantes.
No dia seguinte, lendo o jornal Público, soube que os adolescentes tinham se encontrado para conversar com António Lobo Antunes no programa "Encontro com Escritores no Palácio de Belém" que reúne escritores e alunos, uma iniciativa do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.
Tratei aqui do escritor Lobo Antunes e remeto o raro leitor àquelas singelas impressões.¹ É um autor que vale a pena, dos mais importantes da atualidade, volta e meia lembrado para o Nobel.
Lendo a notícia, lamentei não estar lá entre os felizardos estudantes. Vejam algumas coisas que ele falou. Falou em tom quase íntimo (sem rodeios, subterfúgios, sem interpretar um personagem), como costumam ser suas falas públicas.²
"O meu pai era um poço enorme de silêncio e eu cheio de cuidado para não cair lá dentro. O silêncio foi alastrando. Passou à minha mãe."
"O que me continua a seduzir é a quantidade de mistério à nossa volta. Tudo é mágico".

Diante da pergunta: já escreveu sobre tudo o que quer? Responde:

"Se calhar, vou tentar fugir à pergunta. Tudo isto para mim continua a ser um mistério indecifrável, por que é que escrevo esta palavra e não outra..."

Nos livros que escreve não vê pessoas, mas ouve vozes:

"Para mim escrever é conversar com vozes."

Sobre o trabalho do escritor:

"Não me peça conselhos." Abordando as dificuldades do ofício, afirma que nenhum livro é bom à primeira:

"Escrever é um ofício de paciência."

Algumas referências literárias: Lorca, Rilke, Antero de Quental, Dinis Machado, Cesariny, Balzac, Evelyn Waugh.

Ao final da interlocução, faz um pedido aos jovens:

"Não se esqueçam de mim."

O que me faz pensar, raro leitor, neste sábado de outono: o que será a escrita senão o desejo humano e imenso de não ser esquecido?
 
Marcelo Rebelo de Sousa e Lobo Antunes.
fonte: Correio da Manhã, Lisboa.
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¹ As breves eternidades do senhor Lobo Antunes:
²Público, jornal. Reportagem de Isabel Lucas. Edição de 7 de fevereiro de 2018, quarta-feira. Lisboa.