segunda-feira, 18 de junho de 2018

As mãos de Van Gogh

Jorge Finatto

photos: jfinatto, 2018, Kunsthaus Museum, Zürich

NO DETALHE, a força e o poder da pincelada de Van Gogh. O quadro é Le cyprès et l'arbre en fleurs ( O cipreste e a árvore em flor, imagem abaixo) da coleção do Kunsthaus Museu, em Zurique, na Suíça. A espessura do traço, sua intensidade, profundidade, largura, ondulações e cores nos dão uma ideia do esforço do artista em sua luta solitária com a tela.

Ele pintava rápido, às vezes mais de um quadro por dia, e essa produção o levava muitas vezes à exaustão física e mental. Tinha urgência em criar, em deixar um legado e um testemunho de sua passagem. Ele cuja obra contava com poucos admiradores além do irmão Theo. Ele que foi muitas vezes considerado um pária.

O reconhecimento consagrador no Salon des Indépendants, em Paris, março de 1890, no final da vida, pouco significou. O sonho havia se partido. O artista pobre, doente, sensível e temperamental se esfacelou contra o paredão da realidade. Fez da pintura sua razão de viver. A arte foi seu território de luta e sobrevivência. A criação venceu a estupidez e a indiferença. A obra de Van Gogh habita o sublime.


O Kunsthaus foi inaugurado em 1787 e merece uma visita de dois dias pelo menos. Passei lá algumas horas numa tarde e foi pouco para conhecer seu rico acervo com obras de Rodin, Paul Klee, Picasso, Monet, Cézanne, Alberto Giacometti e tantos outros clássicos. Mas o pouco que vi, vi com calma, e fotografei (sem utilizar flash, conforme regra da casa). O pessoal do museu é gentil, as instalações são ótimas e a gente sai de lá querendo voltar um dia.
 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A fábrica do esquecimento

Jorge Finatto

máquina antiga. Livraria Miragem, São Francisco de Paula

 
OLHO a velha fotografia. Estou batendo nas teclas da máquina de escrever na redação do jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, que existiu entre 1936 e 1984. O ano é 1982. Trabalho na dura lida de repórter. Eu acreditava então que teria um futuro no jornalismo, porque gostava de ler, escrever e buscar a verdade das coisas. Meu sonho era trabalhar com jornalismo cultural.
 
Vinte e alguns anos, pai de filho, pagando aluguel e tudo mais, salário baixo. A luta de sempre. Algum tempo depois, não vendo perspectiva na profissão, mudei o rumo do meu barco e fui para o Direito.

Naquele momento minha luta era sair da pobreza que me acompanhava desde sempre. Concluíra a Faculdade de Comunicação Social na PUC a duras penas. Nela conheci o ser humano admirável, professor e grande jornalista que foi Antoninho Gonzalez, que me estimulou e ajudou muito a conseguir este primeiro trabalho em jornal.
 
Novo no ofício, aprendi que a matéria com que se lida numa redação é o efêmero. Um jornal é feito para ser esquecido. Terá sorte se for lembrado por estudiosos no futuro. No entanto, quanto esforço é preciso para fazer um bom jornal!

Quantos bons profissionais, quanto talento, quanta luta, quanta renúncia são necessários para construir as páginas do esquecimento! 
 
O Brasil é o que é com a imprensa livre das últimas três décadas. Se você acha que estamos muito mal como nação (de fato estamos), imagine como seria sem a imprensa a esquadrinhar e divulgar os podres que muitos querem esconder na sombra.
 
Eu me vejo jovem e inteiro na antiga foto. Vivo. Acreditando no poder da palavra para mudar a realidade e melhorar a vida de todos. Uma bela luta. Tudo valeu a pena. Cada linha, cada parágrafo que escrevi nos breves anos de repórter.

(Como leitor, sou grato a todos os jornais e revistas lidos à procura de um novo olhar, verdade e beleza.)