sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O réquiem pode esperar

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ESTAVA me preparando pra subir na esteira quando tocou o telefone. Do outro lado um indivíduo disse que gostaria de falar com o senhor Jorge.
 
- Pois não, sou eu.
- Boa tarde, tudo bem com o senhor?
- Tudo bem.
- Estou ligando pra falar sobre cremação. Temos um plano pra lhe oferecer.
- Como?
- Sim, temos ótimas condições. Eu vou lhe apresentar...
- Não, não, há um engano.
- O senhor não é o Jorge?
- Sou, mas não tenho a menor intenção de morrer, ao menos não por agora. O dia está lindo. Olhe esse céu azul de primavera de Porto Alegre. Dá ganas de viver pra sempre. Ninguém pensa em morrer. Quem foi que lhe deu meu telefone?
- Creio que um conhecido seu indicou.
- Muy amigo... Mas, de fato, não pretendo pensar em morte agora.
- Não, claro, não é isso, mas é uma coisa que pode acontecer, é bom se prevenir, deixar tudo organizado.
- Não, não, eu agradeço. O que eu quero hoje, neste instante, é fazer a minha ginástica, andar na esteira, relaxar, suar, durante uma hora ou mais. Eu quero respirar. Só isso, nada menos do que isso. Nada de antecipar a preocupação com a morte.
- Ah, sim, claro. Está bem. Conversamos em outra ocasião. Desejo-lhe muita saúde, muito obrigado. 

- É isso o que eu mais quero. Tudo de bom. Boa tarde.
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meu sabiá

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
SÃO CINCO HORAS da manhã. Está chovendo. Escuto os pingos batendo no telhado. Estive até agora fazendo coisas, bicho da madrugada, lavei a louça da noite, depois li, fiz café, li, ouvi rádio, li, caminhei no escritório, li. Chove.
 
Sábado, 24 de novembro, 2018. Passo dos Ausentes. Vagamente iluminada pelos lampiões de luz nas esquinas mergulhados na neblina. O sabiá canta no quintal. Não sei como se defende da chuva, se é que o faz. É o meu sabiá.
 
De dia encontro-o no pátio andando com passo miúdo. É um sabiá comum e discreto. Escolheu viver no meu quintal que tem xaxins, roseiras, orquídeas, pinheiros, jasmins, flores de mel e mais.
 
Acho que ele fez ninho numa árvore perto da velha carroça no jardim. Ou talvez no desvão do sótão. É um inquilino querido. Inquilino, não. Habitante da casa e do quintal como eu. 
 
Provisórios, circunstanciais. Mas cantamos.