sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Peixes, garças e biguás

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Estive nas cercanias do ARROIO DILÚVIO perto do Guaíba. Conversando com gente que anda por ali, fiquei sabendo que ainda existem peixes em suas águas. Águas que atravessam uma parte da cidade carregando muita poluição, esgotos, móveis velhos, animais mortos, tudo que se possa imaginar. O Dilúvio nasce numa vertente limpa de mata para os lados de Viamão e  desemboca no Guaíba. Há atualmente um trabalho no sentido de recolher esses detritos antes que cheguem ao rio.
 
Quando vim morar em Porto Alegre, aos sete anos, a orla do Guaíba tinha muitas praias que com o tempo foram extintas devido à poluição. A minha era ali na altura da Usina do Gasômetro, hoje Parque Harmonia. Aquela região foi recuperada em belo projeto do arquiteto paranaense Jaime Lerner. Mas as águas continuam poluídas.
 
O Guaíba é mais que um cartão-postal em minha/nossas vidas. É um ser vivente que nos alimenta e encanta com sua formosa visão até a Lagoa dos Patos. Há que tratar os esgotos, os resíduos, educar a população, estimular amor e cuidado.
 
O Dilúvio haverá de ser saneado um dia. Será amado como precisa e merece um ser vivo. Durante meu deslocamento por suas margens, vi um bando de biguás numa árvore. Vi também garças e gaivotas. Eles são a prova de que existem peixes no riacho, seu alimento. Existe vida. Ainda é tempo.
 

sábado, 10 de agosto de 2019

Maria Eulália e a rosa vermelha

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ULTIMAMENTE aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
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¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.
²Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html
Texto publicado em 31 de maio, 2014.