sexta-feira, 1 de abril de 2022

Porto Alegre, felicidade radioativa

 Jorge Finatto

Guaíba. photo: jfinatto


Durante uma aula, no curso de engenharia química, o professor falou que havia radioatividade na areia do Guaíba. Deveríamos ir a campo com um contador Geiger para medir a radiação e confirmar a informação. Não havia motivo para preocupação, disse ele, era em quantidade benigna. 

O mais interessante, segundo afirmou, é que muitos moradores das cercanias do rio guardavam em suas casas porções de areia devido ao efeito calmante, relaxante, que supostamente produziam nas pessoas. E o faziam seguindo uma velha tradição, sem saber que isso era devido à baixa radioatividade e sua propriedade, digamos, sedativa. 

 

Nunca soube em que medida isto de fato acontece pois não fiz o trabalho de campo. Acabei abandonando o curso de engenharia, como fiz em relação a outros que comecei e não terminei. Mas não esqueci a história da areia radioativa. 

 

O fato é que sempre que me aproximo do Guaíba me sinto mais leve, me invade uma sensação de liberdade e paz. Para aqueles que, como eu, banharam-se e brincaram em suas águas na infância, o rio é um mar de recordações. Além disso, os mais lindos crepúsculos habitam suas águas. 

 

 

domingo, 27 de março de 2022

Porto Alegre 250 anos

 Jorge Finatto

Cais. photo: jfinatto


O Guaíba é um mar de lembranças. Do tempo em que a gente se banhava e brincava em suas águas.

Os navios levavam e traziam sonhos e esperanças.

O cais: cartão postal de encontros e despedidas.

O rio é a vida e a alma da cidade. Mas a cidade ainda não o preserva como devia, lançando-lhe toda sorte de sujidades.

Amor com amor se paga, antes que o amor desapareça, e restem só fotografias.

domingo, 13 de março de 2022

Territórios perdidos

 Jorge Finatto

resistência da vida. photo: jfinatto


Temos visto as dolorosas imagens da Guerra na Ucrânia. Um grande desastre humanitário que poderia e deveria ter sido evitado. O país agressor é a Rússia desde o início. É uma invasão cruel à Ucrânia que não poupa vidas inocentes em territórios civis, promovendo uma enorme destruição.

Não foi o povo russo que declarou guerra contra os vizinhos ucranianos. Pelo contrário, milhares foram às ruas protestar contra a guerra e, por protestarem, foram presos. As populações de Ucrânia e Rússia não querem e não merecem a tragédia que estão vivendo. 

São líderes obscuros, personalidades sem nenhum limite e absolutamente insensíveis ao sofrimento humano que fazem a guerra, não o povo. O povo paga com a vida e a liberdade pelo inconcebível desvario de chefes políticos.

O que mais chama a atenção no noticiário é que em todas as cenas de refugiados (fala-se em cerca de 2 milhões e meio) é avassaladora a presença de mulheres, crianças e idosos, além de alguns homens. São os mais frágeis, os mais expostos e abandonados, os que fogem da violência deixando tudo para trás: pais, filhos, parentes, amigos, vizinhos, empregos, cidades, bairros, ruas, casas, escolas. De uma hora para outra suas histórias foram apagadas.

Como se reconstrói uma vida em lugar estranho, distante, sem nada a esperar além da boa vontade de cidadãos de países estrangeiros? Países e cidadãos que, de resto, têm seus próprios problemas para cuidar e cuja sobrevivência é uma sofrida luta diária.

Qualquer discussão em torno das "razões" que levaram à invasão russa é rigorosamente descabida e absurda. Nada pode justificar o emprego de forças armadas contra civis indefesos (o que, afinal, é o que acabou acontecendo, conforme se vê pelos mortos, feridos e multidões de refugiados). 

A humanidade, em todo o planeta, é testemunha desta inacreditável agressão contra os direitos humanos. O que se espera é o fim imediato da violência, que permita à população ucraniana reconstruir sua vida e recuperar os territórios perdidos na alma, nos afetos e no direito à existência digna em seu país. 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Ao viajante solitário

Jorge Finatto                                                                                                                                                  

Canela, RS. photo: jfinatto
 

AS COISAS que não aconteceram são as que mais se afeiçoam à minha memória. A biografia que vale os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. 

O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas caminho do mar. 

Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia. Cheio pelas orelhas de frustrações, tapas na cara, rasteiras e desejos. Quem houvera nesta vida maledeta se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno. Por isso estou aqui. Me contando, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao vento. Construo o venturoso canto. Não me interessa a realidade. Quem quiser a realidade, bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário. Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fiozinho de orvalho estendido de manhã sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma. Caminho para o lugar ermo dos esquecidos.

Eu, Landgrave dos Santos Strano, inquilino do absurdo, apresento-me ante vossa alta ausência.

Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento. Rio Grande do Sul, Brasil, Fim da Via Láctea. Dou fé e assino.

Provavelmente outono.

_________ 
Do livro Histórias de Passos dos Ausentes. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Raymond Carver

                                                                                                                              Jorge Finatto


Raymond Carver. fonte: Wikipédia


Todo poema é um ato de amor, e de fé. Existe tão pouca recompensa para a escrita de poesia, seja monetária ou, você sabe, em termos de fama e glória, que o ato de escrever um poema tem de ser um ato que se justifique em si mesmo e realmente não possua nenhum outro objetivo em vista. Para querer fazê-lo, você realmente precisa amar fazê-lo. Nesse sentido, então, todo poema é um "poema de amor".

Raymond Carver, em entrevista a Sinda Gregory.¹


ENCONTRAR UM POETA é um acontecimento tão raro quanto descobrir uma mina de diamantes. Não sei distinguir um diamante de uma ágata ou uma ametista e possivelmente não reconheceria uma pedra caída de Vênus no meu quintal. Gosto de pedras coloridas e todas me parecem belas.

Mas sei reconhecer um bom poema. Sei de sua raridade, de seu desapego, e, quando encontro um, é como se descobrisse uma lasca de estrela à flor da terra. Porque quase tudo no mundo virou coisa. Não há mais espaço para contemplação, para o esforço da ruminação, da busca do sentido da vida e nós dentro dela.

Vivemos um tempo em que as inquietações e indagações em torno da existência foram substituídas e esgotadas em anúncios publicitários. Frases curtas, diretas, com objetivos definidos, concretos, e resultados imediatos. Tudo é mercado, tudo é venal e previsível.

Então, quando leio um poeta de verdade, esse estranho animal que já não encontra lugar na floresta, é um evento de pura graça. Sinto uma grande emoção. É o que acontece por esses dias quando leio, com profunda gratidão, a antologia Esta vida - poemas escolhidos, do poeta e contista americano Raymond Carver (1938 - 1988). A seleção e a tradução são de Cide Piquet a partir dos livros Fogos (1983), Onde a água se junta a outra água (1985), Ultramar (1986) e Um novo caminho para a queda d'água, livro póstumo de 1989.²

Poeta, na minha visão, é quem garimpa pontos de luz no escuro fundo de mina do cotidiano. Esse é o artesão da palavra e o vivente espiritualizado, que tem os pés no chão e a cabeça aberta aos mistérios do universo. Universo que todo pode estar contido num abraço, num grão de pólen, num córrego, numa joaninha como numa estrela.

É o caso de Carver, de quem só tinha lido alguns contos do livro 68 Contos, lançado pela Companhia das Letras em 2010.³ Considerado um dos grandes contistas do século XX, comparado a Anton Tchekhov, impressiona a desenvoltura do escritor em ambos os gêneros.

De origem pobre, teve diversos trabalhos (limpou banheiros, serviu mesas, abasteceu carros, vendeu livros de casa em casa). Mudou-se várias vezes de endereço com a família. Desde muito jovem cultivou a escrita. Seu esforço foi bem sucedido. Recebeu bolsas literárias, atuou como palestrante convidado na Universidade de Santa Bárbara, Califórnia.

Obteve reconhecimento dentro e fora dos Estados Unidos. Teve problemas com o alcoolismo, o qual abandonou. Morreu de câncer de pulmão aos 50 anos e seus últimos poemas tratam da doença e do fim próximo com notável lucidez.

Carver enfrenta a escrita com humildade, sabe que quase sempre saímos perdendo do enfrentamento e que o contrário disso é a exceção, é o poema. Seus temas são simples, fazem parte da vida de qualquer um, o que muda é o enfoque, e o resultado é sempre iluminador. Não será fora de lugar dizer que Raymond Carver é um poeta lírico trabalhando com os dois pés na realidade. Um desiludido que ainda ousa iludir-se (sensibilizar-se), à maneira transcendente de Carlos Drummond de Andrade.

Li os textos em inglês e a tradução e, no todo, o resultado me pareceu muito bom. Sem grandes invenções, torcicolos de estilo e sem a veleidade de fazer uma nova obra a partir do original, o tradutor consegue entregar na língua de chegada o sentido e o sentimento do texto na língua de partida. A tradução, neste caso, consegue envolver o jeito de dizer do autor, o que nem sempre se alcança em se tratando de poemas.

Ouçamos a voz humana, a voz ancestral e fundadora da poesia, na obra essencial de Raymond Carver. 


Fragmento final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado, me sentir
amado sobre a terra. 4

__________ 
1, 2 e 4 - Esta vida - poemas escolhidos. Raymond Carver. Seleção e tradução de Cide Piquet. Edição bilíngue. Editora 34. São Paulo, 2017.

3 - 68 Contos de Raymond Carver. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras, São Paulo, 2010.


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Publicado no blog em 22 de novembro, 2017.

domingo, 30 de janeiro de 2022

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

As rosas de Rilke

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

A rosa era a flor preferida do poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926). No quintal do Castelo de Muzot, no Cantão do Valais, Suíça, cultivava rosas.

Neste lugar ele viveu os últimos anos e concluiu as Elegias de Duíno. As roseiras estão lá até hoje e podem ser vistas da estrada (não é permitida a visitação).

As rosas têm vida efêmera e são frágeis. Mas no escasso tempo de sua passagem pelo mundo, quanto perfume, quanta beleza, quanto consolo e inspiração oferecem.

Castelo de Muzot (Veyras, Suíça). photo: jfinatto

domingo, 23 de janeiro de 2022

Vírus e guetos

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


O vírus da covid-19 e suas variantes não serão eliminados por barreiras sanitárias como aquelas que fazem contra países africanos.
Trata-se de medidas desesperadas e inócuas que, no máximo, retardam a contaminação. Vírus não respeitam fronteiras e sempre dão um jeito de escapar das filas de imigração dos aeroportos.
As farmacêuticas e os países desenvolvidos devem, isto sim, fazer um concerto no sentido de levar a vacinação a nações pobres da África e de outros continentes. Enquanto houver uma comunidade a descoberto todo o planeta estará em risco.
O velho e odioso recurso de reduzir a guetos nações periféricas, deixando que se exterminem por falta de acesso a produtos farmacêuticos, não funciona mais.
Nestes tempos de pandemia e globalização, o famoso pau que dá em chico, mais dia, menos dia, dá em francisco. A indústria das vacinas provavelmente nunca ganhou tanto dinheiro como agora. Não custa nada auxiliar os países carentes com doação de imunizantes.
A cooperação internacional não é uma questão de solidariedade apenas, mas de sobrevivência inclusive para os ricos. É o óbvio que precisa ser dito.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

É preciso recomeçar tudo

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


É preciso recomeçar tudo
traçar o novo amanhecer
nas ruas da cidade
é preciso enterrar os mortos
varrer os destroços
abrir as portas para o sol
fazer seu trabalho
_______
Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Bibliotecas

 Jorge Finatto

photo: j.finatto

Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar
claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Miragem no caminho

 Jorge Finatto

Livraria Miragem. photos: jfinatto



Livraria Miragem, São Francisco de Paula, Campos de Cima da Serra. Um lugar encantador pra quem ama livros e busca distanciamento da insuportável realidade brasileira. Além do bom acervo de literatura, artesanato e objetos de arte, pode-se olhar tudo com calma nos 3 andares do bonito casarão. Sem pressa, sem multidão, com direito a momentos de boa solidão entre as estantes. Lá estive ontem com o querido filho Lorenzo, passando algumas horas longe dos meus indefectíveis fantasmas. Comprei "Outras Cores", excelente livro de Orhan Pamuk.

Livraria Miragem. 


Perguntaram-me o que eu mais quero em 2022. Eu quero continuar caminhando entre os pinheiros por essas estradas de chão batido, bebendo nos córregos, levando alguns livros no alforje, a luneta e a bússula. O chapéu de palha coberto de sol de dia e de sereno e estrelas à noite junto ao fogo. Voltei aos 17 como na bela canção de Violeta Parra.

Serra gaúcha. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Arranjo floral

 Jorge Finatto

photo: jfinatto, dez. 2021



Arranjo floral pra 2022.
É preciso cultivar pra colher.
Quem tem um jardim tem um mundo.
No caminho, pelejando sempre.
Feliz 2022!

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

A fé, sem obras, está morta

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

"De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Será que essa fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã não tem o que vestir nem alimento suficiente para o dia, e um de vocês lhe diz: 'Vá em paz; mantenha-se aquecido e bem alimentado', mas não lhe dá o que ele necessita para o corpo, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, sem obras, está morta."

Tiago 2:14-17

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

O homem e o rio

 Jorge Finatto


Passeio sobre prancha, no Guaíba, diante da Fundação Iberê Camargo.
photo: j.finatto
 
Devia ser eu em cima daquela prancha (stand up), deslizando sobre as águas do Guaíba. Na verdade, acho que era eu. Sentia o cheiro adocicado do rio enquanto glissava de pé sobre a superfície azulada, cortando pequenas ondas em direção ao sul.

Se não era eu, como explicar o toque do vento batendo no meu rosto, aquela sensação de liberdade?

Tinha de ser eu. Pelo menos era o que imaginava, sentado no café da Fundação Iberê Camargo, diante do Guaíba.

Um sentimento de felicidade por estar ali, mergulhado naquela aquarela. A vista da cidade desde o ponto ondulante era de não esquecer.


Porto Alegre vista de uma janela da FIC
photo: j.finatto

Devia ser eu naquela prancha, orientando o remo, olhando a face fugidia da cidade.

A tarde de sol cálido convidava pra ser feliz.



Beira rio. photo: j.finatto
 
O homem da prancha desafia a lógica da cidade, que é ficar de costas para o rio. O homem da prancha vem nos lembrar que existe um rio e que é bom manter contato físico com as águas. O homem da prancha desperta em nós, que estamos à margem, a vontade de deixar o rio fazer parte de nossas vidas.

Diante do Guaíba, perto do entardecer, esse momento é um convite ao pensamento criativo, ao olhar interior, à integração com a cidade e seu ambiente, à construção de sentidos.

Viver é agora.



Árvore diante da FIC, na beira do Guaíba.
photo: j.finatto

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Iberê Camargo:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/03/ibere-camargo-e-escrita-da-

domingo, 12 de dezembro de 2021

O trem chegou

 Jorge Finatto

photos: jfinatto. Canela



O trem chegou.

Acabou de chegar.

Trouxe malas e baús de saudades.

Chegou o trem, veio de muito longe.

Trouxe gente que não podia mais esperar.




quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Um dia após o outro

 Jorge Finatto

Velha Bruxa, Canela.foto: jfinatto

Nada como um café após o outro
um chocolate após o outro
um livro após o outro
um abraço após o outro

a gente nunca
se cansa de viver
de se reinventar
de amar
viver é sempre o eterno
despertar
para longe da escuridão
e do medo
viver por tudo
e apesar de tudo
puco importam
as cicatrizes
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Café da Velha Bruxa, Canela.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Flamboyant visto da janela

Jorge Finatto 

photo: jfinatto. nov. 2021


Tem dias que nada me inspira quando estou em Porto Alegre. Não vou ao café nem à praça. Fico no escritório trabalhando, como hoje, ouvindo o Concierto de Aranjuez e outras dádivas de Joaquín Rodrigo.

Às vezes vou até a janela onde vislumbro a imagem consoladora desse flamboyant na calçada. Ele me mostra que há vida e há esperança na cidade grande. Dádiva na treva urbana.

Muita gente passa por ali e nem percebe.

Então eu acho que sou um cara de sorte por sentir a presença e a inspiração que vem do querido flamboyant.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Deus, o mistério que nos habita

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Ninguém jamais viu a Deus. Se continuamos a amar uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor é aperfeiçoado em nós. 1 João 4:12

Penso em Deus várias vezes ao dia. Não tenho ideia de sua aparência, de seu tamanho, de seu endereço. Uma vez que teceu o infinito, sei que ele é infinitamente maior que todo o universo. Às vezes me pergunto se ele realmente existe ou é apenas um sonho que sonhamos na nossa imensurável solidão. Pergunto, também, se ele me enxerga: um grão de poeira na Via Láctea: ser insignificante, habitante de uma placenta cheia de estrelas e inumeráveis corpos celestes. Haverá outros seres como nós?

Gente sábia pensou e pensa sobre Deus em todas as épocas. Todo ser humano pensa em Deus. Porque é impossível não pensá-lo. E como não fazê-lo diante de tanto encantamento, tanto sofrimento, tantas interrogações, tanta beleza? Certa vez indagaram ao filósofo, psicanalista, erudito e escritor Carl Gustav Jung sobre sua ideia a respeito de Deus. Ele respondeu: eu sei.

O que Jung quis dizer? Creio que pretendeu afirmar que sua experiência com o ser divino era semelhante à de todos nós, pessoas comuns. Nossa experiência acerca de Deus vem de longe, atravessando gerações e gerações, de pessoa em pessoa, de alma em alma, de aldeia em aldeia. Deus é um ser incontornável, que floresce em todas as mentes e corações. É uma realidade que se impõe, acreditemos nele ou não. É inevitável como respirar. Deus está em nossas células. Nós "sabemos" Deus porque não existe possibilidade de ignorá-lo. Está impregnado na nossa essência, em nosso antes e nosso depois.

Vivemos cercados de Deus por todos os lados.

A ninguém é dado não ter conhecimento dele, deixar pra lá. Crendo ou não, a presença dele se impõe. Entre crentes e ateus. Não conhecemos sua face, ignoramos sua morada, nunca ouvimos sua voz, desconhecemos sua origem e suas canções preferidas. Mas de alguma forma "sabemos" Deus.

A condição humana é inescapável. Nela está ínsita a figura luminosa de Deus. Não temos como nos livrar dele. Não temos para onde correr. Deus é inexplicável e é, sobretudo, inevitável. É impossível resumir Deus numa frase. Nenhum conceito o aprisiona. Nenhuma definição o limita.

Quem recolhe a tempestade no leito de um lenço?

Filósofos, livres-pensadores, cientistas e escritores têm ocupado parte de seus talentos e esforços esquadrinhando a existência divina. Alguns encaminham-se pela negação, mostrando-se revoltados com o que consideram barbáries em certos relatos bíblicos. Outros, por infensos à Igreja Católica, desconsideram  Deus (como se fosse propriedade e criação dela). 

De tanto ocuparem-se de um Deus cuja existência tentam negar - sem consegui-lo – deixam uma fresta aberta para a possibilidade oposta. É razoável concluir que mentes privilegiadas não perderiam anos de vida com algo que simplesmente inexiste.

A própria preocupação em torno do tema demonstra que "algo" é, "algo" há que escapa da compreensão e não se deixa dominar pelo conhecimento racional humano.

Deus é um mistério e um sentimento que nos habita desde a remota escuridão de onde viemos. Resta claro que é preciso mais do que a razão para nos aproximarmos dele. A fé faz parte desse caminho. Talvez um dia acenda-se em nosso coração a luz que nos revelará o que tanto ansiamos saber.

sábado, 13 de novembro de 2021

Quatro conversas com Deus

                                                                                                                                                    Jorge Finatto


photo: jfinatto


O SILÊNCIO DE DEUS é cheio de significados. Há pessoas que se ressentem por não escutar a voz de Deus. De fato, Ele não anda tagarelando por aí. Eu, pessoalmente, nunca conversei, face a face, com Deus, quem dera. Mas talvez a face Dele seja muito diferente da que imaginamos e se manifeste de muitas maneiras. Quem sabe nos deparamos com ela todos os dias sem nos dar conta...
 
Precisamos aprender a ouvir a voz de Deus. No silêncio.
 
O silêncio não quer dizer que Deus seja indiferente ou surdo às nossas palavras, sentimentos e angústias. Tenho motivos para achar que Ele nos ouve. Não sou pregador nem pastor. Apenas observo. Creio que existem realidades além das coisas visíveis e tangíveis. Como explicar a poderosa criação que existe por trás de uma flor, uma nuvem, um pássaro? Há algo espiritual que não se explica só pela razão.

Sim, Deus não perde tempo com bobagens. Por exemplo, acredito que Ele nunca se envolve com resultados de futebol ou de qualquer outro esporte (se fosse atender, todos os jogos terminariam empatados). Ele tem outras prioridades.
 
O silêncio de Deus escuta o coração humano. É o que parece. E de algum modo misterioso nos responde quando entende que é o caso. Depende muito - digo eu - da qualidade da conversa. Tem gente que só sabe pedir, pedir mais e mais, esquecendo-se de agradecer.

Selecionei quatro conversas com Deus. Repare bem em cada uma delas. Creio, sim, que Deus gosta de boas conversas (não deve ser fácil ser Todo Poderoso... imagine como isto deve ser solitário...) E às vezes se diverte com elas...

photo: jfinatto
 
                         &                    &                    &
                   
Já não me aborreço tanto com Deus - com Deus eu já me reconciliei; aborreço-me, sim, com as pessoas: por que são elas tão más, quando podem ser boas? Por que as pessoas amargam a vida quer do próximo, quer a sua própria, quando está em suas mãos viverem felizes e contentes?
(Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. pág. 181. Organização, tradução, introdução e notas de Jacó Guinsburg. Ilustrações: Sergio Kon. Editora Perspectiva, São Paulo, 2012.)

Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes.
(A Hora Evarista. Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, pág. 49. Instituto Estadual do Livro, Editora Movimento. Porto Alegre, 1974.)

Se me perdoardes, Senhor,
as pequenas peças que Vos preguei
eu Vos perdoarei
a enorme peça que Vós me pregastes.
(Poemas Escolhidos. Robert Frost. pág. 135. Editora Lidador Ltda. Rio de Janeiro, 1969. Tradução de Marisa Murray.)

Senhor
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho


as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
da infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa
 

(Poema Canção da bruma, do livro O habitante da bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.) 

________
Texto publicado em 6 de agosto de 2019.

sábado, 30 de outubro de 2021

Encontro de Dante e Beatriz: vita nuova

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Na tarde de quarta-feira, logo após chegar a Caxias do Sul, fiz um passeio pela praça Dante Alighieri, a principal da cidade. Vim para o lançamento do livro e inauguração da exposição de esculturas de Bez Batti, "Dialogando com Picasso".

A agradável surpresa foi encontrar naquele belo lugar ninguém mais nem menos do que a eterna musa do poeta Dante, Beatriz. Estava lá sentada num banco perto do bardo italiano com A Divina Comédia no colo.

Faz 14 anos que estive pela última vez em Caxias (minha cidade natal) e na ocasião Beatriz ainda não existia naquele lugar. Obra da escultora Dilva Conte, foi inaugurada em 2015.

Durante muitas décadas Dante esteve solitário na praça, sujeito a invernos rigorosos com chuvas e trovoadas, além, claro, de suaves primaveras serranas. Sempre sozinho. Dava pena vê-lo naquele desamparo. Agora percebe-se uma nova luz em seu olhar com a companhia da amada. Vita nuova. Que sejam felizes!

photo: jfinatto