sexta-feira, 3 de março de 2023

Rosa vermelha

 A Zero Hora de ontem publicou esta foto da querida rosa vermelha do nosso jardim, depois da chuva. Bem haja!




sábado, 25 de fevereiro de 2023

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O caso da enciclopédia

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


COMO A CASA da serra está cheia de livros, um dia desses fui aconselhado pela família a me desfazer ("desapegar") daqueles que não interessam mais (livros há muito lidos, esquecidos, que não pertencem ao grupo dos "essenciais").
 
Providência, aliás, que tomei há um ano, separando duzentos e alguns livros para doar, a décima parte do acervo. Só que ainda não tive coragem de concretizar o gesto, porque a cada olhar retiro os que, pensando bem, merecem ficar. E, assim, cada vez que olho a pilha, retiro alguns, diminuindo o desapego. 
 
Sabendo da minha dificuldade em "desapegar", alguém da família teve a gentileza de retirar de uma estante, e acomodar sobre a escrivaninha, a velha Enciclopédia Barsa. Quando, ao regressar de viagem, entrei no escritório, dei com aquele quadro (para mim) "dantesco".
 
Pra quem não sabe, as enciclopédias eram o Google de antigamente. A elas se recorria para pesquisar e realizar estudos nas mais diversas áreas do saber e da cultura. Eu comprei a Barsa com sacrifício, pagando em prestações. Além dos volumes, com bonita encadernação em vermelho, havia os "livros do ano" que traziam as atualizações.

Aquela enciclopédia, há quase quarenta anos, me deu esperança de dias melhores para meus filhos. Acreditava, como ainda acredito, no estudo e no conhecimento como ferramentas para construir caminhos.

Como poderia me desfazer de algo com tanto significado? Resumo do caso: pedi que recolocassem a Barsa no lugar. Não estou em condições de fazer o desapego...

Numa espécie de codicilo verbal, disse que, quando fizer a passagem, podem fazer da Barsa o que quiserem. Mas, por enquanto, ela fica, assim como os demais livros que me ajudaram e ajudam a viver. Porém deixo claro: se vier um pedido de doação para escola ou outra instituição, poderei doar com prazer.
 
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Texto revisado, publicado antes em 12 de julho 2018.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Flor da coragem e da esperança

 Jorge Finatto

photos: jfinatto


Enfim o velho cáctus exibiu a sua bela flor, que nasce ao anoitecer, avança pela madrugada e morre aos primeiros raios do Sol.
A flor do cáctus, ou flor da noite, dama da noite ou flor de mandacaru, para além de sua formosura e seu perfume, simboliza a coragem, a força e a esperança do povo nordestino, e por extensão do povo brasileiro, na sua luta por uma vida digna, contra a violência social manifestada na pobreza, na fome, na injustiça, na desumanização e no desespero.
Ver a flor da noite traz paz e resiliência ao coração e nos fortalece para a luta de cada dia.
(A ideia de fugir de tudo e ir viver no mato não está mais em questão, até porque estão botando fogo na floresta e matando quem vive lá. Faz tempo.)



terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sentimento da rosa

 Jorge Finatto


hoje após a chuva. foto: jfinatto

Uma rosa não se explica, não se traduz. A rosa fala por si mesma e seu perfume vale uma fábrica de fragrâncias de laboratório. 

A rosa vive para falar com os vivos, embora muita gente leve-a a conversar com mortos nos cemitérios. É a flor entre flores e não se deixa apanhar sem tristeza. 

Quando arrancam uma rosa, o mundo perde um pouco a graça. Talvez por isso, e pela brutalidade geral dos dias de hoje, haja tão pouca leveza e encanto nas almas. 

A rosa do meu jardim eu não arranco: sinto.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Promessa do Sol

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Estou vivo e lúcido

na tarde da América do Sul

entre palmeiras verticais
e andorinhas azuis

entre o que restou do teu jeito
e a promessa generosa do sol
batendo na minha cabeça

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sábado, 21 de janeiro de 2023

O tempo das bonecas

 Jorge Finatto

Castelinho Caracol, Canela. photo: jfinatto

O tempo das bonecas ficou esquecido no sótão. Elas conversam e brincam entre si numa língua só delas.

Sabem que suas donas não voltarão, e às vezes choram.
Mas todo dia o Sol irradia entre as velhas telhas, botando a sombra pra correr.
A vida silenciosa e imóvel é iluminada, espantando um pouco a melancolia.
O mundo do sótão é um mundo de memórias e suspiros.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Maria Madalena

 Jorge Finatto

photo: Lugano, Suíça, j.finatto

Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira pessoa a ver Jesus após a Ressurreição. Nenhum dos apóstolos teve essa ventura.

Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.
Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos. Ele então lhe fala:
- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".
Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.
Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo primordial e urgente.
Relendo os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida, assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi sempre acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.
O aparecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.
Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).
Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.
Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era, e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Todos os dias

 Jorge Finatto


jfinatto


"A vida de todos os dias, a que eu sempre quis." 

            Do meu livro Claridade, 1983.

A todos muitas claridades nesse 2023. Ninguém "Do lado de fora", lembrando livro do querido amigo Henrique do Valle.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O povo subiu a rampa

                                              Jorge Finatto

     

photo: Agência Brasil, Tânia Rego

Nunca tinha visto cerimônia tão bela e comovente de subida da rampa do Palácio do Planalto como a do presidente Lula, recém empossado. O grupo de pessoas que o acompanhou representa uma parte importante e esquecida da sociedade brasileira (sem falar da cadelinha vira-lata Resistência).

De braços com o cacique Raoni, 90 anos, ao lado de um menino negro, entre outras pessoas, recebeu a faixa presidencial da catadora negra de materiais recicláveis Aline Sousa. Jamais se viu cena tão tocante e significativa de chegada de um político brasileiro ao poder.

Lula vai acertar e vai errar, porque é humano, tem defeitos e virtudes, e a política não é feita por anjinhos. 

Mas é um ser humano sensível, capaz de se comover com o sofrimento dos esquecidos e por eles lutar e trabalhar.  Que tenha juízo, bom senso e que se deixe iluminar por Deus no caminho.

Não sou nem nunca fui petista, nem de qualquer outro partido.  Mas ainda vejo e sinto.

Temos, enfim, um ser humano na presidência da República e isso faz toda diferença.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Mutações

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Raízes firmes na terra, pensamento mirando as estrelas, braços abertos ao azul de outros abraços, respeito ao próximo, à democracia, sabendo que tudo pode mudar, como de fato mudou nas últimas eleições (e continuará a mudar, se nós assim quisermos). 

Nada será como nos últimos quatro anos.

2023, tempo de mutações. 

Que o universo seja o nosso quintal.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Do jardim


 

Da série Quem tem um jardim tem um mundo.

Composição e photo: Clara Finatto

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Deixa andar


 Jorge Finatto


Agapanto.photo: jfinatto


Por que a arte existe? Porque a vida dói. Seja como for, a vida dói. Cada um sente o sofrimento de um jeito. A arte é uma maneira de sublimar a dor e o medo.

Às vezes o príncipe é, afinal, mais triste que o mendigo. Este pode alegrar-se com uma simples moeda e um sorriso sincero, o príncipe nem isso. 

Tem gente que já se matou vivendo num castelo. 

Tem gente que fica feliz ao ver o dia amanhecer, só isso. 

A felicidade está no coração de quem sente.

E, no fim, ter uma casinha pra morar, o pão de todo dia e uma família é o maior tesouro. Felicidade total não existe, talvez em outra galáxia. 

Viver dói e é lindo, viver é tudo que temos. O jeito é ir sendo feliz alguns minutos ao dia. O resto deixa andar, como disse Zé Keti no samba Opinião.

domingo, 27 de novembro de 2022

A dança misteriosa

 Jorge Finatto


photos: jfinatto


A paleta de cores é infinita. Não há limite para as formas e expressões. É difícil imaginar que não haja uma inteligência por trás de cada traço, cada tom, cada som.

A beleza é uma construção de razão e sentimento. O Criador não é um jogador de dados, como salientou Einstein. E segue a dança misteriosa do universo numa flor de hortênsia...

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Ávido

 Jorge Finatto


photo jfinatto


Tanta beleza, tanto perfume, tão breve manhã. 

Colhamos o instante com coração ávido.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O chafariz e eu

 Jorge Finatto

Teatro Nacional São Carlos e o chafariz.
Wikipédia. Autor: Thomas


ERA UMA TARDE de inverno em Lisboa. Saí do hotel Dom Pedro, no bairro Amoreiras, e me dirigi a pé à Livraria e Editora Cotovia, no Bairro Alto, para me inteirar dos lançamentos. Enquanto examinava a estante, um gato preto apareceu e se pôs sobre os livros em minha frente. Na verdade, uma gata bonita, cujo nome era Maravilhas. Até aí, maravilha.

Conversei com Maravilhas como sempre faço com gatos. Escolhi os livros e parti, agora em direção ao café A Brasileira (aquele freqüentado por Fernando Pessoa), no Chiado. Depois do pastel de nata e do café, rumei para a Livraria Bertrand, a mais antiga do mundo, na Rua Garrett, outra perdição.

Em seguida, caminhei até o Largo do Teatro Nacional São Carlos, um lugar bonito onde está situado o edifício no qual nasceu Fernando Pessoa. Me vali do celular (telemóvel) pra fazer algumas fotos. Havia um ruidoso grupo de italianos por ali (eu acabara de chegar de uma temporada na Itália). Até que decidi atravessar o largo e entrar no teatro.

Dei um passo em frente e... mergulhei no chafariz (a água pelas bordas). Mergulhei com capote, mochila, chapéu, manta, sacola, com tudo. Vim à tona ensopado, com tocos de cigarro enfiados nos óculos, e pedaços de papel pelo casaco.

Fiz um grande esforço pra sair. Torci pra que ninguém viesse me ajudar, queria evitar mais constrangimento. De fato, ninguém veio. Quando, enfim, consegui sair do chafariz, uma gargalhada geral ecoou na praça. Os malditos italianos não me pouparam. Um gaiato entre eles gritou que era tentativa de suicídio.

Fiz de conta que não era comigo. Saí andando meio de banda, meio tonto, gelado, molhadíssimo, pingando, com a mão e o ombro direitos machucados, sem entender o que tinha acontecido.

No fundo não havia mistério. Óculos com lentes de fundo de garrafa, visão mais ou menos (menos, menos), pensamento caçando borboletas. Fui ao fundo.

Mas, afinal, quem inventou de colocar aquele chafariz encavado no chão ali, na minha frente? E quem teve a infeliz ideia de trazer aqueles maledettos justo naquela hora?

Livros molhados, telefone molhado, passaporte molhado, ânimo e alma molhados, roupas, tudo molhado. Isso aconteceu em fevereiro de 2018.

Restou o consolo: pelo menos fiz rir a malta maledetta com a minha commedia dell'arte.

Baixa o pano.

domingo, 30 de outubro de 2022

Nova Aurora

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


Viva a nova Aurora, Brasil!

Viva a sobrevivência da democracia!

Viva a convivência civilizada! 

O amanhã se abre para ser recriado com muito trabalho, compromisso com todos e responsabilidade!

Venham os livros, venha o amor! Chega de armas e de ódio!

Viva a esperança!

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Duros dias

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


No Brasil de hoje o humanismo é um sentimento distante dos corações e mentes. Vivemos dias duros, sem ternura e sem perspectiva. A democracia entre nós está por um fio. Ameaças às instituições, atitudes desrespeitosas contra o Judiciário, cultivo do conflito e da cizânia. 

A inaceitável mistura de política e religião, do obscurantismo com a boa-fé das pessoas, atingiu níveis nunca antes vistos. Deus, que não tem nada a ver com isso, deve estar indignado com os falsos profetas. (Marcos 12:13-17) 

Eu, que acredito num Deus justo e bondoso (e que reconhece as reais intenções por trás das aparências), eu não gostaria de estar na pele dessa gente "esperta" quando a indignação Dele se fizer sentir. 

Enquanto isso lutamos pela paz com as armas da palavra, do entendimento, do respeito ao próximo, da rejeição a qualquer forma de ódio e violência.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Abacaxi-rei

 Jorge Finatto

photo: jfinatto


VALEI-NOS, Abacaxi-Rei, Soberano Ananás, do alto da tua coroa espetada. A ti, em última instância, recorremos.

Quem vai embraçar a bromeliácea? Quem terá a fineza de arrancar-lhe a injusta crosta para que possamos, todos, após o generoso gesto, degustar a doce infrutescência à mesa solidária?
Enquanto não aparece a alma gentil pra fazer o serviço, ficamos todos a admirar a fruteira sobre a mesa com o hermético fruto dentro. Como um bebê em berço esplêndido.
De novo e sempre, a indigesta pergunta nos assola: quem vai empalmar o rude naná e desvelar-lhe a dolce polpa?
Valei-nos, Magnífico Abacaxi! Não nos deixeis à mercê do canto solerte e fatal de sectárias sereias, pois não passamos de indefesas criaturas à sombra de solenes palmeiras nessas praias onde o mar verde balança.
Mostrai-nos, Augusto Ananás, o caminho da obscura e indizível doçura por trás da terrível realidade que nos fecha ao paladar da dignidade, da esperança e da alegria.

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excerto do texto publicado no livro Navegador de barco de papel.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

A ninfa

 Jorge Finatto

Ninfa. photo j.finatto

Ninfa. Escultura em mármore de Carrara de 1866, feita pelo arquiteto italiano Giuseppe Obino. Por muitas décadas esteve instalada na Praça Dom Sebastião, ao lado do Colégio Rosário, em Porto Alegre. Hoje, devido a atos de vandalismo, foi transferida para a praça da hidráulica do bairro Moinhos de Vento.

Às vezes uma lágrima escorre de seus olhos. Pelas mutilações de que foi vítima. Por todos os adolescentes que um dia viu cheios de ternura nos bancos da Praça Dom Sebastião.

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Esta escultura faz parte de um conjunto de quatro criadas por Obino, representando o Guaíba e seus afluentes.



terça-feira, 4 de outubro de 2022

Rosa é uma rosa é uma rosa

  Jorge Finatto


Escreveu Gertrude Stein:
"Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa".

A rosa é um mundo em si, digo eu, em comunicação permanente com nosso mundo interior. Não se deixa aprisionar em definições nem precisa disso. É uma rosa...

O poeta Rilke amava as rosas acima de tudo.

Essa rosa fotografei no meu jardim.

Me recuso a colher rosas. Uma rosa não pertence a quem a planta e cuida. Ela é de todos.

O seu perfume inundou meu coração e está sempre comigo.