terça-feira, 24 de julho de 2012

Pergunta a ti mesmo

                               Atapoã Feliz

photo: j.finatto


Ao contrário do que muita gente pensa, todas as coisas, inclusive as inanimadas, têm muita serventia. Até uma simples samambaia de plástico serve para ornamentar uma sala.

Forçoso é concluir, então, que não estamos aqui à toa.

Fixado este ponto, pergunta a ti próprio a que vieste.

Indaga que legado de tua autoria ficará para a Humanidade...

Medita, procura descobrir quais são as tuas tendências, aversões e preferências.

Lembra que desenvolver nada mais é do que retirar o envoltório grosseiro, camada por camada, e com elas livrar-te-ás, em definitivo, das imperfeições, até ressurgir, deslumbrante, o verdadeiro Eu.

Anota que todos os bons pensamentos, convertidos em boas ações, farão a retirada das substâncias toscas sobrepostas, tornando cada vez mais leve o fardo que na tua invigilância colocaste no teu alforje.

Antes de criticares uma obra literária, científica ou artística do teu irmão, indaga a ti próprio se já fizeste algo semelhante. Se a resposta for negativa, não tens capacidade para criticar porque tu és inexperto. Se afirmativa, nem pensarás em censurar um trabalho do teu colega.

Observa que, segundo a Sabedoria Antiga, quanto mais desejares o bem ao próximo e menos para ti próprio, mais leve será o fardo e menor o número de vezes de peregrinação que repetes por insondável evo...

Verás que não será nenhum gesto magnânimo de tua parte; apenas estarás recompondo o que tiraste indevidamente.

Percebe que os obstáculos encontradiços aqui e ali já se repetiram por várias oportunidades e ainda não conseguiste transpor; caso contrário, não reapareceriam.

Não percas tempo com as recordações que te aborrecem; também não deixes os maus pensamentos povoarem a tua mente, verdadeiras âncoras que nos impedem de atingir a meta. Substitui por algo agradável. Sempre que ocorrer um mau pensamento, lembra daquela flor orvalhada ou da sombra de uma grande árvore, tantas vezes quantas forem necessárias, até cessarem as investidas do hóspede pernicioso. Dali para frente, a substituição será automática.

Se ainda não escreveste um livro, não plantaste uma árvore, não fizeste uma música, não pintaste uma paisagem, nem tiraste uma foto,

Dá um sorriso!

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O autor é Desembargador do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul.  Compositor, editor do site Omapala, de música:
http://www.omapala.mus.br/

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Violeta foi para o céu

Jorge Adelar Finatto

fonte: divulgação

A vida é mais forte que uma tela, um poema, uma canção. 
Violeta Parra

O filme Violeta foi para o céu, dirigido pelo chileno Andrés Wood, oferece-nos uma visão da história da cantora, poeta, compositora, folclorista e artista plástica Violeta Parra (Chile, 1917-1967). Acaba de entrar em cartaz em Porto Alegre e se trata de um ensaio muito bem elaborado sobre a vida da artista.

Impossível resumir uma vida num filme. Nenhuma vida cabe em tão pouco. O ser humano é muito mais rico, difícil, complexo e secreto. Violeta foi para o céu cumpre a missão de traçar um perfil humano da grande mulher e criadora, chamando a atenção para seu legado. A obra é baseada no livro homônimo (Violeta se fue a los cielos, 2006), do filho Ángel Parra.

O filme não é linear, aborda de forma fragmentada diversos períodos da trajetória de Violeta, com uma sintaxe interessante e ao mesmo tempo tensa. Não mitifica a personagem, mostra-a em diversas faces, como uma pessoa que experimentou o desamparo, a dor, a alegria, momentos de glória, amor, desamor.

Ela, que teve uma origem humilde, nascida em família pobre, desde muito cedo iniciou-se na arte. O pai, professor de primeiras letras e tocador de violão, morreu ainda jovem. Os laços de família, no entanto, eram fortes e amorosos.

photo: cena do filme Violeta foi para o céu. Divulgação

Tendo entre seus irmãos o poeta Nicanor Parra, Prêmio Cervantes de Literatura  2012, o mais importante de língua espanhola, a menina Violeta cresceu no interior chileno, no meio do povo, a tudo observando com curiosidade, dotada de espírito crítico e com uma intuição fora do comum. Além disso, possuía um imenso talento para a criação, na música e artes plásticas (chegou a expor seus trabalhos no Museu do Louvre, em Paris).

Entre as músicas de Violeta que ganharam o mundo, conhecidíssimas entre nós, encontramos Gracias a la vida e Volver a los 17, hinos de vida e sensibilidade. Como artista consciente, ela não ficou indiferente à injustiça contra os pobres e à falta de amor no mundo. Ao mesmo tempo, viu que o amor, às vezes, também pode ser fonte de grande sofrimento.

Destaque especial merece o desempenho de Francisca Gavilán, simplesmente notável no papel de Violeta, a tal ponto que nos leva para o lado de lá da tela, com sua envolvente e intensa interpretação. É como se estivéssemos junto de Violeta, nas trilhas da vida e de suas lindas canções.

sábado, 21 de julho de 2012

Os tempos da casa velha

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. casa em estilo enxaimel. Nova Petrópolis


A casa de madeira de pinheiro, onde vivi a infância, está de pé até hoje. Antes de mim, outras gerações viveram nela e outras vieram depois. Talvez, se encostar o ouvido naquelas vetustas paredes, ouvirei ecos de conversas sumidas no tempo.

O poeta Mario Quintana escreveu, em algum lugar, que o problema da arquitetura moderna é que ela não constrói casas antigas. Não é verdade?

Seria possível dizer, também, que o problema do presente é que não traz de volta as pessoas amadas que se foram. O leitor não deve levar em conta a melancolia da frase. Triste seria não ter tempos nem pessoas queridas para recordar.

Poucas coisas me passam um sentimento tão forte de permanência quanto as casas velhas, como essa aí da foto. Cada vez mais raras nas cidades brasileiras, quando vejo uma tenho a sensação de estar diante de um sobrevivente.

A ideia de perenidade, ilusória embora, está no pátio, na pérgula coberta de jasmim rosa, nas folhas de uma parreira ancestral, numa fonte em meio ao jardim. As casas em geral duram mais que seus construtores e moradores. E, cada vez que se derruba uma casa, um bocado de história afunda junto.

Vivemos uma época em que pouco se olha para as pessoas e coisas antigas que ainda restam. Habitamos o eterno presente, como se nada de interessante pudesse haver nem antes e nem depois. Isso não apenas é um erro, como nos remete a uma irrecusável solidão.