domingo, 4 de fevereiro de 2018

O mundo de Chaplin

Jorge Finatto
 
estátua de Chaplin na beira do Lago Léman, Vevey, Suíça. photo: jfinatto
 

A VISITA AO MUSEU CHAPLIN, na cidade de Vevey, situada no Cantão de Vaud, Suíça, nos põe em contato com informações preciosas sobre a vida e a obra do grande artista e diretor de cinema. No meu caso, não vim visitar Charles Chaplin (1889-1977), mas sim encontrar Carlitos (Charlot), meu e nosso amigo, como diz Drummond no belo poema Canto ao homem do povo Charlie Chaplin (livro A Rosa do Povo). A emoção faz parte do encontro.
 
O museu encontra-se na propriedade onde Chaplin viveu com a família nos últimos 25 anos de vida após ser expulso dos Estados Unidos por suposta adesão ao comunismo, uma burrice sem tamanho da Comissão criada pelo Senador americano Joseph McCarthy.
 
escultura representando cena de filme. photo: jfinatto
 
 
idem. photo: jfinatto
 
Chaplin  depôs perante a tal comissão e negou o envolvimento, mas não foi ouvido. Como se um homem da dimensão dele precisasse atestado ideológico depois de ter produzido a obra que produziu, um legado artístico ao nível, na minha visão, do que fizeram Dante e Leonardo da Vinci.
 
Voltemos ao museu. A visita começa com uma projeção de dez minutos sobre a vida e a produção do artista. Nascido em Londres teve infância sofrida e pobre e lutou muito para se firmar no cinema nos Estados Unidos.
 
peças inesquecíveis. photo: jfinatto
 
a cega de Luzes da Cidade. photo: jfinatto
 
Depois passa-se aos estúdios, amplas salas onde se entra em contato com os filmes e esculturas de personagens e dados sobre histórias e atores. Cenas são projetadas. Ali mostra-se muito do universo chapliniano, apresentando alguns artistas que receberam sua influência, como Michael Jackson (os passos de moon walk teriam sido inspirados por Carlitos) e os criadores de O Gordo e o Magro.
 
Nesse percurso há exposição de objetos do personagem Carlitos, como o chapéu, as botas, a bengalinha. É tudo muito bem organizado. O atendimento do pessoal do museu é ótimo, começando pela entrada, onde fica também a lojinha.
 
asas do filme O Garoto. photo: jfinatto
 
a mansão familiar. photo: jfinatto
 
Depois pode-se visitar a mansão onde Chaplin e a família viveram nesses 25 anos. É uma senhora casa. Ali estão o escritório dele, cartas, fotos e manuscritos em exposição. Os diversos ambientes da mansão proporcionam uma visão da intimidade familiar.
 
Carlitos. Se um dia quiserem dar uma ideia do ser humano a seres de outro planeta, enviem-lhes filmes de Carlitos. Seria muito oportuno. Ali estamos retratados com realismo, humor, afeição. A tragédia e a grandeza. O sofrimento e a esperança, as tristezas da vida, as dores que nos impomos uns aos outros, e sobretudo a alegria de existir.
 
O vagabundo pobretão, com maneiras refinadas e a dignidade de um cavaleiro andante, misturado e perdido num mundo de humilhações aos mais pobres e carentes, sem perder jamais a ternura e o amor humano.
figurino de O Grande Ditador. photo: jfinatto
 
amizade com Einstein. photo: jfinatto
 
__________ 
 
Chaplin's World:
 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Bondes de Zurique

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

EU SEMPRE TIVE um encanto pelos bondes (elétricos em Portugal). Na minha infância e adolescência havia muitos em Porto Alegre, servindo diversos bairros. Eu viajava sempre neles. Era um transporte bem pensado, em baixa e média velocidades, acho que não alcançava 50 km/h. Tinha muito a ver com casas nas ruas, árvores e tempo para viver.
 
Depois acabaram com os bondes. Assim como acabaram com os trens no Brasil, algo inacreditável num país imenso. Resultado: hoje morrem milhares nas estradas superlotadas de automóveis e caminhões, em mau estado de conservação. O transporte de cargas é caro, encarecendo tudo. Decisões erradas como essa levaram o país a este estado lamentável.
 
Mas eu queria dizer que estou matando a saudade dos bondes em Zurique. E já matei um bocado da saudade dos trens em viagens internas pela Suíça e para a França. O trem francês não é tão bom. Os trens e bondes suíços são incomparáveis em limpeza, conforto, silêncio e pontualidade. Os serviços funcionam, não são complicados. E nos bondes não vi fiscais examinando se o sujeito comprou ou não a passagem. Nos trens a fiscalização é mais presente, mas não sufocante como em outros países.
 
Há uma consciência social muito forte. As pessoas sabem que devem cumprir a lei e o fazem porque acreditam nisso. Todo mundo ganha. Não é como no Brasil onde a lei é para os outros. E todos perdem. Um dia, espero, nos livraremos dessa praga.
 
A cor dos bondes é azul cobalto e branco. Como no céu. Uma delícia.

photo: jfinatto
 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A cidade do olhar

Jorge Finatto

Petite France. Estrasburgo. photo: jfinatto
 
ESTRASBURGO é uma danação para o fotógrafo. Pra todo lado que se olhe, há beleza, história, ruazinhas perdidas no tempo e o rio L'ill que atravessa a cidade em vários braços. Está situada à beira do rio Reno (margem esquerda), que separa França e Alemanha. Do outro lado da ponte fica a germânica Kehl, que se visita pegando um bonde.
 
Segunda mais importante cidade universitária da França, logo após Paris, capital da região da Alsácia, sede do Parlamento Europeu e da Corte Europeia de Direitos Humanos, tem pelo menos dois mil anos (foi fundada pelos romanos no ano 12 antes de Cristo como reduto militar).
 
Ao longo do tempo Estrasburgo foi disputada por alemães e franceses, pertencendo ora a um lado ora a outro. As duas influências são visíveis em todos os aspectos, do lingüístico-cultural ao gastronômico, passando por edificações e organização urbana. Mas se se pergunta a um alsaciano como se sente, ele em geral responderá: nem alemão nem francês: alsaciano.

Estrasburgo. photo: jfinatto

A Petite France é a joia da coroa, bairro histórico declarado Patrimônio Mundial pela Unesco, com suas casas em enxaimel, suas pontes, suas vielas que mergulham nos séculos. A catedral de Notre Dame, de 1439, é uma monumental obra em estilo gótico, das mais impressionantes que já vi.
 
Estrasburgo sofreu com a ocupação nazista que assolou a França. Foi bombardeada pelos americanos mas sobreviveu. Colmar, cidade próxima, foi a última cidade francesa a ser abandonada pelo exército de Hitler no fim da Segunda Guerra Mundial.

Petite France, Estrasburgo. photo: jfinatto

O grande arquiteto Le Corbusier disse que em Estrasburgo o olhar não se cansa. De fato, quanto mais se olha mais se descobrem coisas. É um lugar que seduz o olhar e os passos do viajante o tempo todo.

Estrasburgo. photo: jfinatto
 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Deus é brasileiro, mas passa férias na Suíça

Jorge Finatto
 
 
Gryon, Suíça. photo: jfinatto
DIZEM, os muito otimistas, que Deus é brasileiro. Tenho sérias dúvidas a respeito. Mas se for, será esta proximidade com Ele que nos faz levantar todos os dias e ir atrás da sobrevivência e de um sonho, num ambiente de tanta corrupção, violência, injustiça e impunidade (embora, neste caso, haja sinais de que a coisa começa a mudar).
 
Todo mundo precisa de um sonho. E de um descanso do inferno que é a vida real. Fico pensando que o Criador deve, às vezes, cansado de tanta dura realidade, deve vir passar umas férias aqui na Suíça, lugar onde colocou um bocado de seu engenho e arte. Onde temos a impressão de que o projeto humano poderá, enfim, dar certo um dia.
 
Lago Genebra ou Léman, Suíça. photo: jfinatto
 
Nós temos toda beleza do mundo na Terra de Vera Cruz, todos os tipos humanos e recursos naturais, mas não temos consciência social, e por isso não temos paz, e a esperança ultimamente anda escondida. Mas não está morta.
 
Que nosso Conterrâneo nos ajude a vencer as dificuldades. E, para ajudá-lo, façamos nossa parte olhando nossos irmãos.
 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Os trilhos mostram o caminho

Jorge Finatto

Montreux. photo: jfinatto


UM TREM parou na estação de Berna e eu não peguei. Não sabia aonde ir. Sentei sobre a mala, fiquei olhando os trilhos. Esperava uma inspiração qualquer enquanto outros viajantes tomavam seus comboios seguindo cada um seu destino. Mas os trilhos não disseram nada. Observei, contudo, que rumam sempre para frente. Nunca ficam parados. Decidi então fazer como eles e entrei no próximo trem.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Homens e cidades

Jorge Finatto

vitrine em Berna. photo: jfinatto
NO DOMINGO gelado e garoento de Berna, tirei o dia para andar nas ruas da velha cidade e visitar museus.

A cidade em si é já um museu a céu aberto, história e arquitetura dando testemunho de tempos, ideias e personagens.

As cidades ficam, os homens passam. Alguns deixam rastros, outros nem isso. A vida segue como um bastão nas mãos daqueles que vão nascendo e ocupando o espaço e não deixam o lugar desaparecer.

Casa de Einstein. photo: jfinatto
Capital da Suíça, Berna tem porte médio, nem muito grande nem pequena. Tem arte, cultura, fontes de água potável pelas ruas, muitos cafés. E gente que aprecia perambular, andar de bicicleta, ler, olhar. Berna gosta de ser descoberta.

A casa onde Einstein viveu na época em que concebeu a Teoria da Relatividade, num pequeno prédio, está ali para uma visita. A seus pés, um café leva o nome do cientista. O Museu Einstein, mais adiante, do outro lado do lindo rio Aare, vale a visita. No mesmo exuberante edifício funciona o Museu de Berna.

photo: jfinatto

Depois fui ao Centro Paul Klee que além da expor a obra do artista reúne várias outras atividades, como oficinas de pintura para crianças. É um grande mosaico cultural e merece mais de uma visita.

vitrine. Berna. photo: jfinatto
No mais, além de especular as vitrines(sem intenção de compra, as lojas estão fechadas e o preço em francos suíços anda nas alturas),  fiz uma das coisas de que mais gosto: andar de bonde. O hotel fornece bilhetes aos hóspedes para utilizar gratuitamente o transporte público. Um belo mimo. 

Essas anotações são apenas um rascunho, há muito mais para comentar e destacar. Começando pela notável obra de Paul Klee. Por ora, vão assim, no ritmo fragmentado e ligeiro do olhar do viajante. No instagram estou publicando mais fotos.
a tentação dos bondinhos. Berna. photo: jfinatto

sábado, 20 de janeiro de 2018

Jeito suíço

Jorge Finatto
 
amanhece sobre o Atlântico, 20/01/2018. photo: jfinatto
 

PASSAR DOZE HORAS no tubo de um avião é um negócio cada vez mais complicado para este pobre vivente. Chego exausto, tresnoitado, estropiado. Do aeroporto de Zurique a Berna, cerca de uma hora de trem. A neve caindo, lindo.
 
Os suíços são gentis, da paz, geralmente tratam bem o estrangeiro. Nas vezes em que vim aqui foi isso que vi. Nenhum ranço xenófobo, nenhuma hostilidade. O país tem oito milhões de habitantes e dois destes milhões são pessoas de outras nações. Muitas culturas.
 
Adquirir a nacionalidade suíça, por outro lado, é muito difícil. O falecido e imortal Jorge Luis Borges, glória da literatura mundial, que o diga: tentou e teve o pedido negado. Ironicamente morreu nesta terra e está enterrado em Genebra. Como se diz, nem tudo é perfeito.
 
Boa educação, escolaridade, acesso aos bens da vida para todos. Participação direta dos cidadãos em todas as decisões, desde as que regulam a vida do quarteirão até as que afetam a federação. Tudo se discute e decide democraticamente.
 
Neutralidade em guerras, civilidade, alta renda per capita, uma das melhores qualidades de vida do planeta, tecnologia de ponta em vários setores, um patrimônio natural e paisagístico de tirar o fôlego.
 
Teríamos muito a aprender com os suíços em comportamento, valores e práticas. Imaginem o Brasil com padrão suíço adaptado ao nosso meio, com a nossa riqueza e diversidade humanas. Quem sabe um dia.
 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Vale do Quilombo

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Para mim o VALE DO QUILOMBO, estendido entre Gramado e Canela, é um dos lugares mais belos do mundo. As montanhas ondulam e quase se misturam ao céu. Estamos mais perto de Deus. Nos sentimos parte de algo maior.
 
Há algo espiritual nesse ambiente tomado pela leveza azul do ar. Uma amplidão de silêncio. Integração com a natureza e o invisível.
 
Vertentes dágua  emergem do interior e descem pelas encostas dos paredões de basalto cobertos de mata, levando vida ao vale.
 
Me sinto um pássaro nessas alturas. Um pássaro que não quer saber de voar para outras distâncias.
 

domingo, 14 de janeiro de 2018

Cherche la rose

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

PROCURE A ROSA. Como na canção de HENRI SALVADOR e René Rouzaud, há que buscar a rosa onde ela estiver. De manhã, de tarde, na noite escura, na fria madrugada.

A rosa das horas, a rosa dos dias findos, a rosa do tempo que virá. A rosa do sentimento. A rosa da aurora.

Não importa o que aconteça, procure a rosa. Sob sol e sob chuva, sob nuvem e sob vento, no deserto e ali por perto, além da curva da estrada. Triste ou alegre, procure a rosa.
 
Cherche la rose. Em Porto Alegre e em Honfleur, em Sierre e em Passo dos Ausentes, em Lisboa, em Canela e em Madrid. Naquela cidade que nunca vi.

Em Lucerna procure a rosa. Procure a rosa em Serafina Corrêa. Procure.

Procure hoje, amanhã, sempre, a rosa do amor. A única que pode fazer diferença e nos salvar.

O resto é mundo explodindo.
 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Instagram: janela diferente

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

NOS ÚLTIMOS DIAS de 2017, por sugestão de um amigo, abri uma página no Instagram para publicação de minhas photos. Estou me familiarizando com o novo recurso. É uma janela diferente e espero que encontre interessados em visualizar o material.
 
A oferta de imagens na internet não tem limites e é, ao lado disso, enfadonha. O que fazer? Negócio é não desistir antes de tentar. Mas é preciso ser realista: um grão de areia numa praia infinita. Em todo caso, é melhor ir à luta do que ficar parado, não acha? As fotos já estão lá.
 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Senhor não está

Jorge Finatto

cartum de Quino*


NÃO, O DONO da casa não está. Saiu cedo e não disse que horas volta. Ele foi por aí, não disse onde ia. Talvez não volte mais hoje nem nunca mais. Escafedeu-se. De fato, ele é esquisito. Vivo com ele uma vida inteira e não o conheço.

A Senhora sabe: as pessoas são estranhas. A cidade é grande, tem muito trânsito, muita livraria, muita coisa que ver, fazer e, sobretudo, muitos perigos. Sabe-se lá a que horas uma criatura retorna pra casa, se é que retorna.

Andar pelas ruas, nos dias de hoje, é uma odisseia. O Senhor gosta de olhar vitrines, até conversa com manequins, imagine; e perde horas na banca de jornal. O velhote vai ao cinema e dorme durante os filmes, acredita? É um biruta, vai pra onde leva o vento.

O quê, veio buscá-lo? Não, minha Senhora, não vale a pena ocupar-se dele, sujeito sem importância, tiozinho solitário, frugal. Gosta de viver, sim, e só isto. Teve vida difícil. Melhor deixá-lo em paz, não acha? Eu acho.

A Senhora tenha paciência, vá embora, que eu tenho mais o que fazer. Não, não posso convidá-la a entrar, não me leve a mal. Adeusinho, adeusinho.

_________
*site oficial de Quino:
http://www.quino.com.ar/  
Este post foi inspirado no cartum do genial artista argentino, de quem sou grande admirador.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Vida boa pra todos em 2018

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
esse Amor que move o Sol e as mais estrelas
Dante Alighieri*

A VIDA ensina que a esperança brota dos escombros. Quando parece que tudo está perdido, que nada mais há a resgatar, ouve-se a voz de alguém, um sopro de luz irrompe da ruína, ilumina a densa sombra, a vida teima em vingar.
 
Acredito no futuro do meu país porque acredito que as pessoas de bem (que querem uma vida melhor não apenas para si mas para todos) serão capazes de escolher o bom caminho, retirando-nos do poço fundo onde a corrupção de agentes políticos, empresários e seus acólitos nos levou.
 
Creio no poder transformador do coração de cada pessoa. Penso que a faxina começa dentro de cada um, depurando a própria consciência, alterando comportamentos antissociais, renovando o pacto com a vida geral. De pouco adiantam bibliotecas de leis, se não se humanizam os valores.
 
Para transformar a realidade é necessária uma profunda mudança do padrão moral e ético do brasileiro. Vale dizer: precisamos repensar a maneira como nos relacionamos com o próximo, deixando de vê-lo como inimigo. Temos que nos colocar no lugar do outro, sentir a sua dor.
 
Nas pequenas coisas começa a reinvenção de uma sociedade mais justa. 

Não há mais espaço para ilusões. Não podemos esperar soluções de políticos inescrupulosos, esses mesmos que nos conduziram ao caos. É hora de renovar, renascer, votar em pessoas honestas, comprometer-se com o bem comum acima do individual.

Precisamos urgentemente de amor social.
 
Temos um ano todo para tentar acertar, fazer da vida algo diferente e bom. Façamos por merecer o Novo Ano. 
 
_________
*A Divina Comédia. Dante Alighieri. Tradução, prefácio e notas de Hernâni Donato. Ilustrações de Gustave Doré. Abril Cultural, São Paulo, 1981.
 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Cálido

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Preciso escrever
o poema
que vai salvar
esse dia

o poema cálido
para atravessar
o tempo difícil
que ainda tenho
pela frente

o poema que vai
expulsar
a vontade
de morrer
que chega
aos poucos
como um felino
_____________ 

Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Uma criança nasce

Jorge Finatto
 
Nascimento de Cristo. Konrad von Soest (1370 - 1422)
 
 
UMA CRIANÇA NASCE. Enche a casa esquecida e triste de alegria e esperança. Se esta criança é JESUS, é o próprio coração das pessoas que renasce em todas as casas.
 
Feliz Natal com Cristo!
 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O eremita viajante

Jorge Finatto

Monte Fuji. pintura de Katsushika Hokusai (1760 - 1849)

                   
                   imóvel contemplo a lua
                   e os outros pensam
                   que sou cego
                                        Matsuo Bashô ¹


NA TARDE-NOITE de chuva fina (o silêncio monta guarda em volta da casa), leio poemas de Matsuo Bashô (1644 -1694). Já nos primeiros haikais me vejo diante do Monte Fuji coberto de neve. Atravesso um riacho de pés descalços. Ouço o pássaro no ramo da cerejeira. Converso com uma borboleta. Encontro o amigo em meio à viagem por caminhos de chão batido.

Bashô adorava botar o pé na estrada, viajava em busca de lugares e encontros, hospedava-se na casa de quem o acolhesse. Vivia com simplicidade perto da natureza (seus discípulos construíram para ele uma cabana rústica onde morar, nas margens do Rio Sumida, e plantaram uma bananeira no pátio). Ele então adotou o nome da bananeira (bashô) como seu nome literário. Gostava de sentar-se sob suas folhas e sentir o vento e a chuva passando por elas.

Bashô era só e era muitos.

Por ocasião da partida de Sôha, que vivia na casa ao lado.

a casa do lado
ficará em silêncio
como um velho ninho ²

O grande poeta e viajante japonês nos leva ao umbral do mistério. Uma vez lá, deixa por nossa conta penetrá-lo ou abandoná-lo. A experiência para quem nele se aventura é tocante e plena de revelações.

Os versos de Bashô exercem fascínio pela aguda e original percepção do universo. As coisas são vistas como da primeira vez. Tudo é novo aos sentidos e ao pensamento. O mundo se revela ante o olhar inocente.

Este olhar inaugural volta-se para as coisas do dia a dia. Abre-nos a mente diante daquilo que por vezes parece corriqueiro e desinteressante. Isto é possível graças a uma linguagem que foge ao habitual e ao ruído, repleta de silêncios.

A poesia que Bashô nos legou é cativante e bela como um amanhecer. Simples nos seus motivos, tem alcance transcendente no coração do leitor. É um golpe de ar puro e fresco na alma ressequida. Uma excelente apresentação de sua obra encontramos no livro O eremita viajante.

Como era sua vontade, o poeta foi sepultado no mosteiro de Gichu-Ji, nas margens do Lago Biwa. Em sua sepultura foi plantada uma bananeira.

a minha pele
perderá o calor
e ficará fria ³
 
_________

1, 2, 3 - O eremita viajante (haikus - obra completa). Matsuo Bashô. Editora Assírio & Alvim. Organização e versão portuguesa por Joaquim M. Palma. Porto, Portugal, 2017.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Canção da bruma

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

SENHOR
quando chegar
a minha vez
de cruzar a ponte
deixa eu levar comigo
no alforje de nuvem
os dias de sol

as tardes
de outono

os pinheiros
da serra onde
nasci

deixa eu levar
o som do riacho

as antigas
conversas
da Rua São João

me concede
a memória
dos amigos
de infância

na bruma
que serei
me alcança
um bosque
e pássaros
para tecer
a minha casa

___________

Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Escutai os pássaros

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 6/12/2017. o beija-flor e as flores de lavanda
 

NA CIDADE grande o convívio com os pássaros é difícil. Quase tudo trabalha contra eles. Excesso de edifícios, de barulho,  de luz artificial, escassez de áreas verdes, de alimento, de ar para voar, respirar, cantar. Mais a indiferença das pessoas. Uma danação.
 
Em Passo dos Ausentes é diferente. Existem pássaros em abundância e eles podem viver a sua vidinha em paz e liberdade. Que o digam os delicados beija-flores nos canteiros de lavanda!
 
Hoje enquanto caminhava pelo quintal, no sossego da tardinha, escutei o canto dos passarinhos nas árvores. De várias espécies, cantavam a capela. Tão doces eram os cantos que por um momento senti que Deus andava por perto, maravilhado como eu.
 
Poucas vezes me senti tão bem. Fiquei ali entre os cedros, pinheiros, magnólias, roseiras, jasmineiros. Me sentindo pleno e humilde. 
 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O jardineiro amoroso I

Jorge Finatto

photo: jfinatto, 2/12/2017
 
A VIDA é breve, raro leitor, e os livros que não li não cessam de brotar nas livrarias. Enquanto isso, constelações deles hibernam nos sebos. É impossível ler tudo isso numa só existência. Sem falar que tenho coisas pra fazer e meus próprios textos pra cuidar, apesar de não ter leitores.

Escrevo para fantasmas. É correr atrás do vento. Mas há quem goste das fotografias pelo menos.
 
Um jardineiro amoroso deve cuidar do seu jardim, sem esquecer de arrumar tempo para admirar os jardins alheios. Tem muita coisa bonita pra ver fora de nós. Aí está a graça. Serve de consolo quando cá dentro faz escuro.

Importante é não perder o gosto e a beleza de cultivar e se deixar cultivar.

O resto, aí as frustrações, desânimos, incompreensões, etc., passa, passa, que a vida é só um suspiro. Um longo suspiro. Mas a viagem, mesmo nos dias sombrios, é bela.

Não sei por que mas este texto me deu vontade de tomar um café no Café Tortoni,* em Buenos Aires, acompanhado de um doce portenho. Vá saber.

__________
*Café Tortoni:
https://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/search?q=Caf%C3%A9+Tortoni

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Não me abandones

Jorge Finatto
a Chet Baker
 
photo: jfinatto

 
Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença


________

*Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html
Chet Baker (1929 - 1988)
 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

As virgílias e o viajante

Jorge Finatto

desenho: jfinatto


SIM, RARO LEITOR, nascemos de mãos dadas com nossa irmã gêmea, a solidão. Mas a vida não há de ser um buraco só dentro do peito. Tinha de ser mais, tem de ser mais. Ninguém veio ao mundo pra ser deserto.

Encontrar seres humanos, dividir o vagão do trem, é o lado mais bonito e luminoso da viagem.

Mas, em caso de urgência, o viajante tem pelo menos as virgílias.

São minúsculas borboletas que não têm mais que um centímetro de envergadura nas asas. Revoluteiam ao redor dele. São dezenas, cada uma com sua cor viva: violeta, azul, púrpura, amarelo, lilás, laranja, branco, preto.

As virgílias surgem do nada. Acendem a solidão como lamparinas em miniatura. Ficam voando em volta do viajante como efêmeras lanternas com piscar intermitente.

As virgílias depois vão-se embora. Apagam aos poucos suas luzes até que nenhuma mais resta.

Nenhuma. E o viajante dorme esperando amanhecer.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Raymond Carver

Jorge Finatto

Raymond Carver. fonte: Wikipédia

Todo poema é um ato de amor, e de fé. Existe tão pouca recompensa para a escrita de poesia, seja monetária ou, você sabe, em termos de fama e glória, que o ato de escrever um poema tem de ser um ato que se justifique em si mesmo e realmente não possua nenhum outro objetivo em vista. Para querer fazê-lo, você realmente precisa amar fazê-lo. Nesse sentido, então, todo poema é um "poema de amor".

Raymond Carver, em entrevista a Sinda Gregory.¹


ENCONTRAR UM POETA é um acontecimento tão raro quanto descobrir uma mina de diamantes. Não sei distinguir um diamante de uma ágata ou ametista, e possivelmente não reconheceria uma pedra caída de Vênus no meu quintal. Gosto de pedras coloridas e todas me parecem belas.

Mas sei reconhecer um bom poema. Sei de sua raridade, de seu desapego, e, quando encontro um, é como se descobrisse uma lasca de estrela à flor da terra. Porque quase tudo no mundo virou coisa. Não há mais espaço para contemplação, para o esforço da ruminação, da busca do sentido da vida e nós dentro dela.

Vivemos um tempo em que as inquietações e indagações em torno da existência foram substituídas e esgotadas em anúncios publicitários. Frases curtas, diretas, com objetivos definidos, concretos, e resultados imediatos. Tudo é mercado, tudo é venal e previsível.

Então, quando leio um poeta de verdade, esse estranho animal que já não encontra lugar na floresta, é um evento de pura graça. Sinto uma grande emoção. É o que acontece por esses dias quando leio, com profunda gratidão, a antologia Esta vida - poemas escolhidos, do poeta e contista americano Raymond Carver (1938 - 1988). A seleção e a tradução são de Cide Piquet a partir dos livros Fogos (1983), Onde a água se junta a outra água (1985), Ultramar (1986) e Um novo caminho para a queda d'água, livro póstumo de 1989.²

Poeta, na minha visão, é quem garimpa pontos de luz no escuro fundo de mina do cotidiano. Esse é o artesão da palavra e o vivente espiritualizado, que tem os pés no chão e a cabeça aberta aos mistérios do universo. Universo que todo pode estar contido num abraço, num grão de pólen, num córrego, numa joaninha como numa estrela.

É o caso de Carver, de quem só tinha lido alguns contos do livro 68 Contos, lançado pela Companhia das Letras em 2010.³ Considerado um dos grandes contistas do século XX, comparado a Anton Tchekhov, impressiona a desenvoltura do escritor em ambos os gêneros.

De origem pobre, teve diversos trabalhos (limpou banheiros, serviu mesas, abasteceu carros, vendeu livros de casa em casa). Mudou-se várias vezes de endereço com a família. Desde muito jovem cultivou a escrita. Seu esforço foi bem sucedido. Recebeu bolsas literárias, atuou como palestrante convidado na Universidade de Santa Bárbara, Califórnia.

Obteve reconhecimento dentro e fora dos Estados Unidos. Teve problemas com o alcoolismo, o qual abandonou. Morreu de câncer de pulmão aos 50 anos e seus últimos poemas tratam da doença e do fim próximo com notável lucidez.

Carver enfrenta a escrita com humildade, sabe que quase sempre saímos perdendo do enfrentamento e que o contrário disso é a exceção, é o poema. Seus temas são simples, fazem parte da vida de qualquer um, o que muda é o enfoque, e o resultado é sempre iluminador. Não será fora de lugar dizer que Raymond Carver é um poeta lírico trabalhando com os dois pés na realidade. Um desiludido que ainda ousa iludir-se (sensibilizar-se), à maneira transcendente de Carlos Drummond de Andrade.

Li os textos em inglês e a tradução e, no todo, o resultado me pareceu muito bom. Sem grandes invenções, torcicolos de estilo e sem a veleidade de fazer uma nova obra a partir do original, o tradutor consegue entregar na língua de chegada o sentido e o sentimento do texto na língua de partida. A tradução, neste caso, consegue envolver o jeito de dizer do autor, o que nem sempre se alcança em se tratando de poemas.

Ouçamos a voz humana, a voz ancestral e fundadora da poesia, na obra essencial de Raymond Carver. 


Fragmento final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado, me sentir
amado sobre a terra. 4

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1, 2 e 4 - Esta vida - poemas escolhidos. Raymond Carver. Seleção e tradução de Cide Piquet. Edição bilíngue. Editora 34. São Paulo, 2017.

3 - 68 Contos de Raymond Carver. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras, São Paulo, 2010.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Para um álbum do futuro

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

COMO FOTÓGRAFO gosto de registrar as coisas da natureza. Flores, árvores, nuvens, rios, estradas de chão, montanhas, bichos: borboletas, passarinhos et alii. Fotografar é um caso antigo na minha vida. Só não é tão antigo como escrever. 

Não faço retratos. Deixo isso para Stefan Rosenbauer e Diane Arbus, mestres do ofício.
 
Olhando minhas imagens, percebo que parte dos ambientes que fotografei no passado se perdeu. Outra está a caminho da extinção. Assim como as pessoas que, eventualmente, aparecem nas imagens. 

As intervenções na natureza têm sido constantes e violentas, parece que nada pode detê-las. Em países onde a vida vale tão pouco, como no Brasil, a natureza nada significa.
 
Por mais que se fale em ecologia, preservação do meio ambiente, desenvolvimento sustentável e coisa e tal, a destruição ocorre modo contínuo em grande velocidade. Um exemplo: note-se o que acontece nas regiões de Gramado e Canela, que acompanho há mais de 40 anos. A explosão imobiliária transformou as duas cidadezinhas, substituindo as velhas casas, as flores e espaços verdes por prédios de concreto e ruas repletas de veículos.

O que havia de matas, pinheiros, variada fauna, córregos limpos e que se perdeu é incalculável. O turismo intenso modificou profundamente, para pior, a paisagem. Sequer construíram um belvedere aprazível entre elas para apreciar com calma as montanhas e o Vale do Quilombo.
 
A obsessão pela imagem é uma tentativa de reter um pouco do mundo que desaparece todos os dias. Fotos são recortes de um tempo e de um espaço que rumam rapidamente para o esquecimento. 
 
É preciso interromper ou pelo menos diminuir este processo. Do contrário, o que vai sobrar?

As próximas gerações viverão num ambiente no qual o mundo natural só existirá em velhas fotografias. Os fotógrafos da natureza não terão mais o que fazer.
 

sábado, 11 de novembro de 2017

O galo cego

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
DO ESCRITÓRIO, altas horas, ele vai pra cozinha. No borralho do fogão a lenha restos de brasa entre cinzas. Reanima o fogo, esquenta água na chaleira.

Qual o tempo da chaleira? Vem de mão em mão, noite após noite, insônia após insônia, parto após parto (como o dele), desde o início do século XX.

Tem ternura pelo bule esmaltado que carrega uma andorinha azul no dorso branco amarelado. No movimento da andorinha em direção ao céu, esquece por um momento o turvo presente. Sente que está envelhecendo entre quinquilharias.

Ficou cego no outono. Depois visão voltou. A madrugada é longa e fria. Os retratos observam sua agonia enquanto arrasta a manta pelos corredores da casa. Agonia de bicho vivo que não se entrega.

Não tem escada pra fugir do alçapão do tempo. Tem a companhia do galo cego que mantém, por pena, no extinto galinheiro dos avós. Um sobrevivente como ele. Volta ao escritório.

Os fantasmas conversam sem cerimônia no interior dos retratos. Ele agoniza enquanto bebe café e escreve.

O galo cego, no canto do poleiro, escuta a chuva.
 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O som das asas da borboleta

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
PROCURO UM LUGAR de silêncio para apascentar a solidão.

Um lugar na montanha, bom de estar com um chapéu velho, um capote e um livro. 
 
Um lugar pra domesticar o extravio.

Longe de tudo, perto de todos.

Habitado por pássaros,  flores e um córrego.

Um lugar onde o único rumor do mundo seja o som das asas da borboleta.
 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

É preciso recomeçar tudo

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

É preciso recomeçar tudo
traçar o novo amanhecer
nas ruas da cidade

é preciso enterrar os mortos
varrer os destroços
abrir as portas para o sol
fazer seu trabalho

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Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Cais

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
Tem dias que saímos
com o corpo nu
para alojá-lo na primeira copa de árvore
e chorar longe dos homens

dias em que os desejos
até os mais secretos
sucumbem apagados
na penumbra

tempo de total privação
da carne e do sonho
tardes em silêncio reveladas
intervalo entre dois mundos

olhamos o céu
no quadrado da janela
esperando ver a face de Deus
procuramos Deus
no íntimo da alma e das coisas

 
precisamos repousar no colo de Deus
sentir suas mãos nos olhos
para amparar a lágrima quente
que por ali verte

tem dias que estranhamos
o próprio olhar
que amanheceu mais seco
não reconhecemos a rua
onde tantas vezes inventamos o amor
na sombra dos cinamomos

as melhores viagens
ficaram sonhando no cais
enquanto navios partiam
repletos de homens decididos
em busca de cidades felizes

onde andará o menino
que nos visitava nos dias
em que tudo em volta
parecia desabar?

em que gare deserta
se perdeu o guarda-chuva melancólico
com que meu avô ia à cidade
buscar a porção diária de pão
esperança
e jornal?

tem manhãs em que apesar do sol
não habitamos o claro sentido
de existir
mal percebemos a luz
acalentando o corpo

manhãs em que o carteiro
extravia a carta que irá nos salvar
a notícia tão esperada
que nos revelará
um mundo desconhecido
onde pandorgas falam
e o arco-íris é uma escada
que nos retira do poço

não compreendemos
as mãos cansadas
a boca amarga
com que damos bom-dia aos vizinhos
cumprimentamos os superiores

tem dias que o isolamento
é tão assombroso
que sentimos tristeza em tudo
principalmente na alegria ingênua
das velhas fotografias
uma dor inevitável
diante dos sonhos da infância

dormimos em quartos de aluguel
projetamos ataúdes de aluguel
as dívidas invadem a porta
os poros

o amanhã ficou torto
na cordilheira dos dias
sem luz

a cidade parou no escuro
sufocou nossos melhores anos
inundou o rio
com seus maus óleos
seu excremento

não merece um verso
sequer uma notícia fugidia
em página de jornal

talvez careça uma bomba
um terremoto
talvez uma flor
povoando o asfalto

estamos um pouco mais tristes
e calados
(um pouso só)

trazemos um gosto de sol
entre os dentes
um resíduo de primavera
na palma da mão
uma promessa de encontro
nos olhos

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Do livro O Fazedor de Auroras, Jorge A. Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
photo: Cais de Porto Alegre

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Drummond, afeto que não se apaga

Jorge Finatto
 
Drummond. autor: Stefan Rosenbauer. O Globo, 17/12/2016

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
Carlos Drummond de Andrade no poema O Sobrevivente.
 

O JOVEM LEITOR afeiçoou-se ao poeta. Compartilhou com ele, mais do que palavras, a viva vida que elas expressavam. E como diziam coisas as palavras do bardo itabirano!
 
Havia entre poeta e leitor uma secreta cumplicidade. Um andar juntos pelo mundo. Uma troca de confidências, alegrias, queixas, protestos, malquereres, desertos, amores e esperanças. O invisível amigo percorria com o jovem os duros caminhos do mundo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) será sempre o lúcido, o lírico, justo enlace razão-emoção, construtor de versos indeléveis na língua universal da poesia. Enquanto houver livros e leitores, Carlos Drummond será sinônimo de altíssima poesia e claro pensamento.

O ser-no-mundo, às vezes cambaio, às vezes indescritivelmente só, mas sempre solidário em sua humana caminhada.

O poeta não se esquivava e respondia as cartas que lhe chegavam todos os dias. Generoso, sabia colocar-se, não acima, mas ao lado do leitor que o procurava ávido por um contato, mínimo que fosse. Respondia com incomum e delicada atenção as missivas.

Quando escrevia na resposta o nome do jovem missivista, manuscrito com tinta azul na folha branca, retirava-o do anonimato, reconhecia-lhe a existência, tratava-o como um semelhante. Sábio e sensível ao outro, ele sabia que o poema só existe quando desvelado aos olhos do cúmplice leitor. As duas cartas que dele recebi são, para mim, verdadeiras relíquias literárias e sentimentais emolduradas na parede do escritório.

Drummond fez um imenso bem à minha alma, aos meus jovens dias e aos dias que vieram depois. Neste 31 de outubro, em que se comemoram seus 115 anos de vida (vida estendida no testamento da palavra), renovo a emoção de abraçá-lo com o coração. Invisível afeto que o tempo não apaga.

"No mar estava escrita uma cidade". verso do poeta na escultura da Av. Atlântica, Rio de Janeiro
 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sumiço

Jorge Finatto
 
nuvens: photo: jfinatto
 

NÃO SEI COMO nem por que a janela onde apareciam os amigos do blog (seguidores) desapareceu da página. Não me tomem por ingrato, o sumiço aconteceu simplesmente e fiquei órfão daqueles raros leitores.  
 
Assim como a janela fechou-se sem mais aquela, espero que volte a abrir e que volte em breve. Não como aqueles maridos que um dia saem de casa dizendo que vão comprar cigarro no boteco da esquina e retornam ao lar 25 anos depois como se fosse ontem. Aí não dá. Se alguém tiver ideia do que fazer, mande um e-mail ou comentário.*

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* Em 7 de novembro (anteontem) a janela voltou.
 

sábado, 28 de outubro de 2017

Un amore

Jorge Finatto

photo: jfinatto
           
             La speranza di pure rivederti                             
             m'abbandonava.                                                          
                                    Eugenio Montale


No mais remoto deserto
- o sal e o labirinto do tempo
amadureço o poema

E parece que para encontrar-te
tinha de perder-te um dia

Colho no caminho as pétalas
da rosa que não te dei
e distraída desfolhaste

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Poema do livro O Fazedor de Auroras, JFinatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
Tradução livre do verso de Montale: A esperança de ver você de novo me abandonava.